A redescoberta da Odisseia e o amor de Argos. Artigo de Tomaso Montanari

Reencontro entre Odisseua e seu fiel cão Argos. Arte de James Baldwin. (Créditos: Wikimedia Commons)

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25 Agosto 2026

"Argos morre, e, aqui, desde sempre são os leitores da Odisseia que precisam esconder as lágrimas, até mesmo os mais calejados. [...] É uma cena que sempre me lembrou o Nunc dimittis do profeta Simeão, que pede para morrer após ver o Senhor, ou a famosa despedida de São Paulo, feliz por ter conservado a sua fé até o fim. Sua confiança no retorno do Senhor: justamente como Argos com seu dono", escreve Tomaso Montanari, historiador de arte italiano, em artigo publicado por il Venerdi, 21-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A Odisseia volta a visitar o imaginário coletivo graças a um filme, um resultado bem-vindo, independentemente da opinião que se tenha sobre o filme em si. Melhor ainda, e algo nada garantido nos dias de hoje, é o fato de que a situação não se resolve na enésima celebração da identidade ocidental, mas, em vez disso, submete a uma crítica radical uma de suas pedras angulares, um conceito que voltou a ser terrivelmente atual hoje: o amor pela guerra.

Vamos, então, retomar uma das interpretações visuais do poema. Trata-se de uma das mais lineares, em todos os sentidos: a representação neoclássica do inglês John Flaxman, que a seu tempo e por um longo período posterior desfrutou de um sucesso extraordinário, até mesmo popular. Temos a gravura dedicada à passagem arrebatadora do Livro XVII, na qual o velho cão Argos reconhece Ulisses, embora coberto de trapos. O herói comove-se e precisa esconder (dos pretendentes, mas talvez também de si mesmo) uma lágrima.

O herói Odisseu (Ulisses), disfarçado de mendigo, reencontra seu cachorro envelhecido e fiel, Argos, no momento em que o animal o reconhece após 20 anos e falece. Arte de John Flaxman. (Créditos: Wikiart)

Por sua vez, Argos recorda os dias em que, ainda filhote, fora criado pelo rei que agora finalmente retornava; assim, num ato final de amor pelo dono que jamais esquecera, fecha-se o ciclo de sua vida. Argos morre, e, aqui, desde sempre são os leitores da Odisseia que precisam esconder as lágrimas, até mesmo os mais calejados. Esse é o momento escolhido por Flaxman, que imagina Ulisses de pé diante de Argos, agora sem vida, como um Édipo diante da Esfinge: imerso na meditação sobre a condição humana e as consequências do amor.

É uma cena que sempre me lembrou o Nunc dimittis do profeta Simeão, que pede para morrer após ver o Senhor, ou a famosa despedida de São Paulo, feliz por ter conservado a sua fé até o fim. Sua confiança no retorno do Senhor: justamente como Argos com seu dono.

Que nada disso pareça blasfêmia: qualquer um que tiver a sorte de ter um cachorro (ou melhor, de ter sido escolhido por um cachorro) sabe que tal amor, ilimitado, mudo, gratuito, total e paciente, possui um sabor mais que humano: é divino.

É quase como se esse vínculo antiquíssimo com o homem sirva para nos fazer experimentar um amor do qual não somos capazes, exceto em nossos desejos, ou melhor, em nossa saudade por algo que deve existir, ainda que não consigamos encontrá-lo no mundo ou em nós mesmos. Justamente como a espera de Argos: que não é a fidelidade de um escravo, mas o grande amor de uma pequena pessoa (para usar a maravilhosa definição de Ortese) por uma pessoa grande que talvez - não há como saber - de um amor tão grande não teria sido capaz.

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