“Colocando brócolis no arroz”: o guia antiautoritário completo para derrotar a extrema-direita internacional

Foto: Wikimedia Commons

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04 Setembro 2026

O Antiauthoritarian Toolkit, publicado pelo Democracy Hub, contém dez manuais, 59 jogadas mestras e 141 conselhos baseados em casos reais de 30 países para derrotar os novos autoritarismos.

A reportagem é de Bernardo Gutiérrez, publicada por elDiario.es, 23-08-2026.

Contar as histórias das pessoas, não ideias abstratas. Comunicar por meio de emoções. Redefinir a polarização em torno de valores, não de identidades. Não falar de política: melhor misturá-la com outros conteúdos (cultura, estilos de vida, entretenimento, saúde...). Construir uma rede de influenciadores digitais. Não se limitar a desmentir a desinformação. Esses são alguns dos antídotos incluídos no Antiauthoritarian Toolkit [Manual antiautoritário, em tradução livre], uma verdadeira caixa de ferramentas para derrotar os novos líderes autoritários.

O toolkit, lançado pela organização Democracy Hub (D-Hub), denuncia que políticos como os presidentes Javier Milei ou Donald Trump, o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro ou o primeiro-ministro indiano Narendra Modi não improvisam. "Mudam suas formas para se adaptar ao lugar" seguindo "os mesmos padrões e estratégias". "Diante desse novo fenômeno, vimos que havia muito diagnóstico (acadêmico, jornalístico). O que faltava eram os antídotos. Nós colocamos o foco ali, há lugares onde se conseguiu freá-los", garante ao elDiario.es o coordenador do projeto, o argentino Agustín Frizzera. O projeto foi cozinhado ao longo de dois anos, a partir de 130 entrevistas em 30 países e do estudo de 159 exemplos concretos. O kit está repleto de casos de sucesso contra os novos autoritarismos. Na França, atores democráticos trabalharam com influenciadores para mobilizar eleitores jovens. Na Índia e no Brasil, usaram-se grupos de WhatsApp para organizar voluntários e converter o apoio em ação.

O toolkit antiautoritário reúne dez grandes estratégias (reunidas em dez manuais), 59 jogadas e 141 conselhos para fortalecer a ação democrática. Entre elas, destacam-se jogadas narrativas, de comunicação digital, de construção de movimentos sociais, de coordenação da oposição e de mobilização eleitoral. Para evitar linguagens excessivamente formais, o projeto apostou em formatos multimídia: manuais para baixar em pdf, podcasts e vídeos. Além disso, conta com uma wiki para leitura on-line em sete línguas (inglês, espanhol, francês, alemão, húngaro, português e chinês mandarim simplificado). No momento, já foram lançados 5 dos 10 volumes e todos os podcasts.

O manual autoritário

O Manual Autoritário, de capa preta e primeiro volume da coleção, explora como os líderes autoritários ganham popularidade, vencem eleições e corroem instituições. A primeira jogada, Um novo estilo disruptivo, analisa como esses líderes tentam "se distanciar da imagem dos políticos tradicionais, desde seu vocabulário até sua vestimenta, modos e práticas". Em uma campanha ininterrupta, tudo gira em torno da personalidade de um grande líder que compartilha sua intimidade para parecer mais humano: Modi fazendo ioga; Donald Trump em um McDonald's; Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, no parto de sua filha.

A frase "flood the zone with shit" (inunde a zona com merda), pronunciada pelo ideólogo da extrema-direita global Steven Bannon, é uma de suas principais estratégias. Saturam os meios de comunicação com conteúdo interminável, falso, exagerado ou descontextualizado, para criar confusão e desviar a atenção. "Como nossos cérebros tendem a associar a repetição com a veracidade", adverte o manual, "eles usam seus canais para inundar o ecossistema com histórias, verdadeiras ou falsas, para controlar a conversa".

Cada jogada do manual termina com conselhos para combatê-la. Diante da jogada Inunde a zona de desinformação, por exemplo, recomenda-se não reagir sempre. "Já não estamos na era do fact checking (verificação de fake news): quando desmentimos, chegamos tarde. A chave é se antecipar e desmascarar o enquadramento antes que ele se imponha", garante ao elDiario.es a italiana Federica Vinci, do D-Hub.

Comunicar com emoção

A jogada Ideias fortes, atrativo emocional dissseca como os novos autoritarismos combinam ideias com emoções. O coquetel emocional, uma mistura de medo, esperança, fúria e até empatia, reforça sua mensagem. Enquanto as forças progressistas usam uma "comunicação excessivamente técnica e pouco emocional, que não se conecta com a experiência cotidiana das pessoas", pondera Federica Vinci, "a extrema-direita consegue impor enquadramentos simples e repetitivos". Esse apelo provoca uma resposta visceral e fervorosa entre seus seguidores, algo que contrasta com a apatia dos democratas. O manual analisa a campanha do presidente argentino Javier Milei, repleta de alegria e entusiasmo. Milei desfilava em um conversível, exibindo rituais, slogans, símbolos e objetos que serviam de metáforas. Com uma motosserra e uma nota de dólar, ele sintetizava todos os problemas em um inimigo, o Banco Central, a quem acusava de roubar todos os argentinos por meio da inflação.

O manual 4, intitulado Narrativa, adverte que fatos e argumentos racionais não bastam por si só. As mensagens ressoam quando falam às emoções reais das experiências cotidianas. Um dos conselhos narrativos consiste em não contar, mas mostrar. "Ninguém escuta as ideias se elas não forem antes tornadas visíveis. Símbolos, metáforas, imagens concretas. A política que se vê, se entende e se compartilha", argumenta Agustín Frizzera. Além disso, convém fazer isso com humor. "O humor rompe o medo, desarma a épica autoritária e expõe o ridículo do poder", pondera Frizzera. Por outro lado, a pesquisa revelou que a extrema-direita usa, em toda parte, apenas doze temas para alimentar suas teorias da conspiração: corrupção, aborto, comunismo, perseguição religiosa, ideologia de gênero, drogas, impunidade, doutrinação nas escolas, regulação da mídia, invasão da propriedade e invasão da privacidade. Federica Vinci adverte que o erro é responder com complexidade demais: "As forças democráticas precisam simplificar, unificar a mensagem e voltar a falar do que realmente importa, custo de vida, aluguéis, inflação, com propostas claras".

Influenciador-chefe

O toolkit descreve em detalhes como a extrema-direita construiu um sofisticado ecossistema de comunicação digital. Os líderes se comportam como "influenciadores-chefe". Por exemplo, o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, replica diariamente mensagens de seus seguidores na rede social X, ajudando-os a monetizar seus perfis. O volume 2, Comunicação digital, é dedicado a como criar um novo ecossistema de comunicação descentralizado. Uma de suas principais jogadas é construir uma rede de influenciadores. O diretor de programas do D-Hub, o brasileiro Pedro Telles, confessa ao elDiario.es que parte do sucesso do bolsonarismo residiu em seu ecossistema de comunicação: "Você abre o WhatsApp e no grupo da família aparece uma mensagem do seu tio que chegou de um grupo extremista. Então, você liga o rádio ou um podcast indo para o trabalho e escuta alguém falando algo parecido. Depois, almoçando com o pessoal do trabalho, alguém te conta a mesma coisa porque ouviu de um influenciador..."

A grande estratégia do manual: "Colocar brócolis no arroz". O "arroz" é o conteúdo que naturalmente atrai a atenção. Os "brócolis" são a mensagem política que queremos transmitir. "Colocar conteúdo político em formatos que as pessoas já consomem e curtem. Não forçar a conversa: misturá-la com cultura, entretenimento e vida cotidiana", pondera Agustín Frizzera.

Construir movimento, conquistar votos

O volume 3 é dedicado à promoção do voto. Pedro Telles destaca o papel que a sociedade civil organizada teve na derrota de Jair Bolsonaro em 2022: "O maior exemplo foi o Pacto pela Democracia, que reúne mais de duzentas organizações. Foi a própria sociedade civil que convocou as pessoas a ir votar, especialmente os jovens". O volume se baseia em exemplos de sucesso como You Can Vote (Estados Unidos), Meu Primeiro Voto (Brasil) ou French Civil Society Campaigners (França), entre outros.

O volume 5 é dedicado à Coordenação da oposição, porque "derrotar o autoritarismo exige estrutura, colaboração e propósito compartilhado". O melhor caso de sucesso de coordenação da oposição, segundo Pedro Telles, foi o de Lula da Silva na campanha de 2022. "O principal símbolo disso foi o convite de Lula a Geraldo Alckmin (político conservador) para ser vice-presidente e construir uma frente ampla, tanto nos partidos políticos quanto na sociedade civil", pondera Telles.

O volume 6 é centrado na Construção de movimentos, já que, em contextos polarizados, os partidos frequentemente aprofundam a divisão. Os movimentos devem, segundo o toolkit, "redefinir a polarização em torno de valores, não de identidades partidárias". Os manuais Instituições & Espaço Cívico, Apoio internacional e Liderança também serão divulgados nas próximas semanas. O Manual Democrático, cujo podcast já está disponível, será o lançamento final. Com capa branca, reúne as jogadas mais eficazes de todo o toolkit para o contra-ataque. "Jogadas que chegam às pessoas não só pela razão, mas pela emoção; não só por discursos, mas por histórias; não só em eleições, mas na vida cotidiana", assinala a organização. Todas as jogadas do toolkit antiautoritário, conclui Frizzera, apontam para a mesma coisa: "Sair do modo reativo, reconectar com a forma como as pessoas vivem e consomem política hoje, não para 'ter razão', mas para construir poder de verdade".

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