Colapso ambiental e a ausência de políticas para o futuro. Destaques da Semana no IHUCast

Arte: IHU

Por: Lucas Schardong e Mônica Lima | 22 Agosto 2026

Cientistas comparam a crise climática atual às grandes extinções em massa do passado: até quando fingiremos não ver o óbvio? Relatório do Cimi aponta aumento de violência contra povos indígenas em todas as frentes, do garimpo à omissão do Estado: quantos "Rio Abacaxis" ainda vão ficar impunes?

Com Trump pondo pressão sobre os militares brasileiros e candidaturas ligadas a facções se multiplicando pelo país, as eleições de 2026 colocam em jogo uma pergunta que vai além de quem vence: quem vai decidir os rumos do Brasil? Diante de tanto medo e desconfiança do outro, pensadores apontam o mesmo caminho por ângulos diferentes: será que a esperança começa simplesmente aprendendo a agradecer e a acolher?

Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.

Colapso climático e um planeta inabitável

Mudanças climáticas, aquecimento global, eventos meteorológicos extremos, desertificação dos territórios. Nos próximos anos, temperaturas muito altas e secas tornarão grande parte do planeta inabitável.

Em um mundo onde guerras e conflitos políticos cada vez mais intensos fazem parte do cotidiano, o alerta para a crise climática perde espaço. Mas como deixar de lado algo que a Organização Mundial da Saúde definiu como a maior ameaça à saúde global no século XXI?

Os efeitos destas alterações já são perceptíveis em todo o mundo. A probabilidade cada vez maior de um El Niño muito forte no Brasil, quase 500 mortes por conta do calor na Europa, oceanos superaquecendo e o planeta com temperatura média global superior a 1,5° C.

O botânico Stefano Mancuso adverte para a necessidade de analisarmos essas questões para além dos problemas pontuais e avaliarmos de um ponto de vista mais profundo e conjuntural.

“Isso não é apenas mais uma profecia apocalíptica, mas sim estudos sérios, cujo número vem se multiplicando. Nossa espécie, como todas as outras, possui limites ambientais dentro dos quais pode sobreviver. Apesar do nosso progresso tecnológico, esses limites continuam a existir e não podem ser ultrapassados. Entre eles, a amplitude térmica...A questão da nossa sobrevivência é crucial”.

Violência contra os povos indígenas e 6 anos do massacre do Rio Abacaxis

Exemplos de resistência e preservação ambiental, os povos indígenas sofrem com aumento de conflitos territoriais, em meio a perda de direitos e denúncias persistentes de exploração ilegal de terras.

O Conselho Indigenista Missionário, o CIMI, divulgou um relatório nesta semana com dados sobre violência contra os indígenas do Brasil. Conforme a publicação, em 2025 foram registrados aumentos nos três tipos de violência sistematizados pelo documento: violência contra a pessoa, contra o patrimônio e por omissão do poder público. Também houve crescimento, entre outras categorias, dos conflitos relativos a direitos territoriais, assassinatos, suicídios e da mortalidade na infância.

O número de conflitos por direitos territoriais registrou aumento em relação ao ano anterior. Os 169 casos ocorreram em 23 estados e atingiram 143 Terras Indígenas. Dois terços dos territórios afetados são áreas com pendência na sua regularização ou sem providência do Estado para sua demarcação. Tudo isso abre margem para a atuação de predadores ambientais.

Esse problema é histórico. Seis anos atrás acontecia o massacre do Rio Abacaxis: crimes contra os direitos humanos de povos indígenas e comunidades tradicionais do Rio Abacaxis e Mari-mari, entre os municípios de Nova Olinda e Borba. Caso que até hoje está parado na justiça.

Eleições no Brasil e soberania nacional

Uma eleição não decide apenas quem vai ocupar a Presidência da República ou quais partidos terão mais cadeiras no Congresso. Em determinados momentos, a disputa eleitoral pode colocar em jogo algo ainda maior: a própria capacidade de um país decidir seu futuro sem estar submetido à vontade de outra potência. E é nesse cenário que as eleições de 2026 aparecem como uma disputa também pela soberania brasileira.

O alerta é feito pelo ex-presidente da UNE Jean Marc von der Weid. Em artigos publicados pelo A Terra é Redonda, ele retoma a tentativa de ruptura que marcou o período posterior às eleições de 2022 e pergunta se uma nova tentativa de golpe poderia ocorrer agora. Para o autor, as condições internas são hoje diferentes das de 2022, mas existe um novo elemento que altera o cenário: a possibilidade de uma atuação direta do governo Donald Trump contra o Brasil.

Em 2022, a tentativa de ruptura dependia fundamentalmente de uma adesão das Forças Armadas. Von der Weid sustenta que a falta de apoio da cúpula militar foi decisiva para impedir que o movimento avançasse. Ele lembra que houve pressão sobre os comandantes, acampamentos diante dos quartéis e uma mobilização bolsonarista que buscava criar um ambiente favorável à intervenção. Mas a ordem de marcha não veio. Bolsonaro não determinou a intervenção e o resultado das urnas acabou sendo reconhecido.

Para 2026, porém, von der Weid considera que o cenário interno é menos favorável a uma ruptura militar. O bolsonarismo, segundo ele, teria hoje menos capacidade de mobilização nas ruas e as condições que existiam em 2022 não se repetem da mesma forma. Mas é justamente nesse ponto que entra Trump. O autor afirma que uma pressão externa poderia mudar o cálculo das Forças Armadas brasileiras e criar um ambiente político para uma ruptura.

Agradecimento: um sentimento radicalmente humano

Em um mundo acostumado a falar sobre aquilo que falta, o escritor Leonardo Boff propõe olhar para aquilo que temos. Em seu artigo “Qual é o pior momento do ateu?”, Boff parte de uma provocação do escritor inglês C.K.Chesterton: “o pior momento do ateu é aquele no qual sente a necessidade de agradecer e não sabe a quem”. Mas, para além da discussão religiosa, ele encontra nessa ideia algo profundamente humano: a gratidão diante da própria existência.

Boff conta uma experiência pessoal para explicar esse sentimento. Ele lembra de quando escapou por acaso de um acidente que matou outra pessoa e se pergunta: por que não eu? Não encontra uma resposta objetiva, mas encontra um sentimento que se impõe: a gratidão.

Para ele, existem momentos em que a vida adquire uma densidade tão grande que parece insuficiente explicar tudo apenas pelo acaso ou pela sorte. Agradecer, então, é reconhecer que existe algo maior do que o nosso próprio controle.

E essa gratidão não aparece somente nos grandes acontecimentos. ele chama atenção para aquilo que normalmente deixamos de perceber justamente porque faz parte da nossa rotina: o sol, a água, a terra, os alimentos e também as pessoas que trabalham para que aquilo que chega à nossa mesa exista. Tudo parece tão óbvio que esquecemos de agradecer.

IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível no canal do IHU no YouTube e no Spotify.