Qual é o pior momento do ateu? Artigo de Leonardo Boff

Foto: Davide Cantelli / Unsplash

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19 Agosto 2026

"Devemos respeitar cada um dos ateus, pois cada qual tem direito de definir, a seu modo, a leitura do mundo e de seu futuro. Mas vemos a boa razão de Chesterton, ao se referir ao sentimento que pode tomar o ateu, que milagrosamente escapou ileso de mortal acidente aéreo. Como humano, algo maior e interior o faz sentir que deve agradecer."

O artigo é de Leonardo Boff, que escreve para a Revista Liberta ICL, e escritor do livro Graça e libertação humana, entre outros. 

Segundo ele, "econhecer que a vida e os gestos de gentileza de uns para com os outros (moto do Profeta Gentileza: “gentileza gera gentileza") são obras da graça, daquilo que não tem preço, pois é grátis".

Enfim, "ateu ou religioso, o agradecimento é um sentimento radicalmente humano".

Eis o artigo. 

“O pior momento do ateu é aquele no qual sente a necessidade de agradecer e não sabe a quem”. Esta frase não é minha mas de C.K.Chesterton (1874-1936), grande escritor inglês, tido como o “príncipe do paradoxo”, admirado por Alceu Amoroso Lima, Gilberto Freire e principalmente por Gustavo Corção. Como todo ser humano, o ateu deve ser respeitado em sua opção. Mas acontecem situações na vida, pouco importam as opçãos, nas quais o sentimento de gratidão se faz imperativo. Não porque o queiramos ou não. Mas por uma força intrínseca ao fato.

Para tais casos há várias respostas. Insuficiente é o acaso que para Einstein expressava apenas a nossa ignorância. Outros atribuem à sorte. Mas essa é tão pouco esclarecedora, pois, seria como dizer: ”por sorte, meu time de estimação não foi rebaixado”. Mas há momentos mais dramáticos, onde se impõe uma resposta espontânea: o agradecimento imperioso a Alguém maior.

Dou um exemplo de ordem pessoal. Estou dirigindo tranquilo pela Avenida Paulo de Frontin, no Rio de Janeiro, debaixo do viaduto do mesmo nome. Alguém atrás de mim buzina repetidas vezes forçando uma ultrapassagem. Dou-lhe passagem. Alguns metros adiante cai grande parte do viaduto de pesado cimento e ferros e mata dezenas de pessoas. Sobre aquele que me ultrapassou caiu enorme pedaço do viaduto e esmagou o carro e o chofer. Desci do carro e verifiquei que já estava morto.

Fiquei arrasado. Por que não eu? Se não lhe tivesse dado passagem, seria eu mortalmente atingido. Por que fui poupado? Surge um sentimento de imensa pena pelo falecido e ao mesmo tempo um profundo sentimento de gratidão. Há fatos carregados de tal densidade (como a vida ou a morte) que não se deixam interpretar como mero acaso ou pura sorte. Nosso sentimento se volta a um Maior, Àquele que conhece nosso destino e deverá ter algum desígnio para que minha vida fosse poupada. Quem o saberá? É uma indagação existencial para a qual não há resposta.

Esse sentimento de gratidão é irresistível e nos deixa até perplexos. Ele surge espontaneamente. Agradecer é bem mais que dizer simplesmente: ”muito obrigado”. Havia um famoso profeta que preambulava pelas ruas do Rio, com sua bata branca e um estandarte com muitos apliques religiosos, alguns, críticos ao capitalismo, outros, denominado de “Profeta Gentileza”.

Ele nunca aceitava que se dissesse: “muito obrigado” pois, dizia, não somos forçosamente “obrigados” a nada. Mas deveríamos dizer: “muito agradecido”. “Porque agradecido vem da “graça”.

Reconhecer que a vida e os gestos de gentileza de uns para com os outros (seu moto: “gentileza gera gentileza") são obras da graça, daquilo que não tem preço, pois é grátis. Ela merece ser reconhecida com gratidão. Pelé tinha razão quando dizia: “Deixem-me jogar o futebol que Deus de graça me deu”. Gruyff, astro do futebol holandês também disse: ”Ganhei de graça dotes de ser um bom jogador”. Esse reconhecimento gera humildade e simplicidade. O sucesso não ensoberbece os craques, nem os distanciam dos outros.

Passemos àquela realidade que merece diuturno agradecimento: a nossa própria existência. Ninguém pediu para existir. Alguém nos colocou neste mundo. É uma graça existir e continuar vivendo. Mas há um outro tão presente que o esquecemos: o Sol. Precisamos do Sol para poder ver. Caso contrário tudo ficaria escuro. 99% de toda vida na Terra depende do Sol.

Mantém a água em estado líquido e assim permite a vida e a fotossíntese das plantas. E entrega-nos o oxigênio sem o qual não respiraríamos. O próprio petróleo, fundamental para nosso tipo de civilização que tudo polui, foi produzido pela luz solar via fotosíntese, há um passado distante de milhões de anos. Precisamos da luz solar para produzir todas as vitaminas, especialmente a D da qual dependemos.

O Sol existe há 4,57 bilhões de anos, a partir de uma nuvem de gás e pó que colapsou e se densificou nessa estrela de quinta, o Sol. Alimenta-se de hidrogênio (74%) e de hélio (24%). É 332 900 vezes maior que a Terra. E está apenas na metade de sua vida. Quando terminar de consumir o hidrogênio começará a queimar o hélio, cujo calor será tão intenso que incinerará a Terra. Calma! Isso demorará ainda alguns milhões e milhões de anos.

Como é belo de manhã ver a névoa baixa por sobre o solo que logo se dilui pelo calor do sol e vira orvalho deixando o gramado todo molhado. Se a temperatura chegar a zero ou perto de zero, como onde moro, tudo vira o branco da geada.

Com o Sol nascente, um pouco mais e mais um pouco ela já desaparece. E o Sol banha tudo com sua luz benfazeja, alimentando as árvores, despertando os animais e fazendo crescer todo tipo de vegetação e de alimentos. Agradeçamos especialmente as abelhas que garantem a polinização. Quando bebermos a água, agradeçamos à fonte; quando tomarmos o vinho, agradeçamos à cepa de videira.

Quando estamos à mesa desfrutando das bondades da natureza, sustentada pelo Sol, não deixemos de agradecer a essa luminosa estrela que tudo nos dá. Agradeçamos o feijão e o arroz, a carne, os legumes que compõem nosso prato. Agradeçamos ao agricultor que tudo isso cultivou, levou ao mercado e aqueles que na cozinha os transformam em alimentos saudáveis.

Estamos continuamente sob a ação das energias do universo, das estrelas, do Sol, da Terra, das raízes das árvores, que produzem as folhas para a fotossíntese e as flores para o nosso encanto. Agradeçamos as nuvens que nos trazem a chuva e a Lua que nos leva a cantar: ”Não há luar como esse do sertão...” Agradeçamos também aquele povo imenso dos micro-organismos, escondidos debaixo do solo e que garantem a fertilidade da terra.

Tudo é tão óbvio e cotidiano que nos esquecemos de agradecer. Esse sentimento seria o primeiro do dia e da noite. E sabemos a Quem agradecer, ao Criador de todas as coisas. Sem Ele não existiríamos. Foi Ele que nos tirou do nada ou do “All Nourishing Abyss” (o Abismo alimentador de tudo) na linguagem secular dos cosmólogos. Nós dizemos simplesmente o Deus de mil nomes e de nenhum.

A teologia ensina: se Ele não dissesse a cada momento “faça-se”, repetido a cada momento, voltaríamos ao nada. A criação não é algo do passado. É o permanente momento em que o Criador pronuncia a palavra geradora: “faça-se”. E tudo começa a existir e a subsistir. Se compreendermos esse milagre permanente, saberíamos a Quem agradecer, cantar louvores e nos encantar.

Devemos respeitar cada um dos ateus, pois cada qual tem direito de definir, a seu modo, a leitura do mundo e de seu futuro. Mas vemos a boa razão de Chesterton, ao se referir ao sentimento que pode tomar o ateu, que milagrosamente escapou ileso de mortal acidente aéreo. Como humano, algo maior e interior o faz sentir que deve agradecer.

A quem? À sorte? É muito pouco. Deve ser algo mais profundo, por exemplo à Vida? Mas ela é sempre mortal. Esta vida remete Àquela Vida que criou a vida mortal. Foi esta Vida misteriosa que o salvou para continuar a viver. A Ela cabe o agradecimento do fundo do coração, com comoção e em lágrimas. Ateu ou religioso, o agradecimento é um sentimento radicalmente humano.

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