Algumas oitavas a mais. Artigo de José Costa Júnior 

Racionais Mc's (Foto: Wikimedia Commons)

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22 Agosto 2026

"A festa da Modernidade envia ses convites para todos, mas apenas alguns poderão e entrar e usufrir dos seus belos serviços e instalações".

O artigo é de José Costa Júnior.

José Costa Júnior é professor de Filosofia no Instituto Federal de Minas Gerais (Campus Ponte Nova) desde 2014. Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (2017), mestre em Filosofia da Literatura pela Universidade Federal de Ouro Preto (2011), bacharel e licenciado em Filosofia também pela Universidade Federal de Ouro Preto (2009). Atuou como pesquisador no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (2021-2022) e no Centro de Estudos Brasileiros da Universidad de Salamanca, na Espanha (2023). É pesquisador vinculado ao projeto "(Women) In Parenthesis", desenvolvido no Reino Unido, trabalhando especificamente com o legado da filósofa Mary Midgley.

Eis o artigo. 

1. Manos e tretas

Ali é treta.” Foi assim que soube da existência daqueles sujeitos de bonés com abas retas, bermudas e camisetas largas, que se sentavam do outro lado da sala, no fundão. Recém-chegado à cidade do interior paulista, para viver com outra parte da família devido à trágicos acontecimentos, eu ainda não entendia os códigos e símbolos locais, e nem o sentido de “treta” utilizado na descrição. Eram os “manos” da escola, que escutavam e escreviam rap cotidianamente, e que viviam nos bairros periféricos, com alguma penetração nas classes médias locais devido ao contato da escola e das ruas. Aquela apresentação sugeria algum cuidado, uma vez que meu interlocutor percebia claramente que eu não conhecia aquele modo de ser e estar no mundo, nem pela vestimenta, nem pela linguagem. Muito menos pelos olhos pouco afirmativos de um adolescente recém-chegado de um lugar menor ainda. A contínua mistura de medo e curiosidade em relação ao novo, tão própria de quando encontramos algo diferente, estava ali.

No intervalo das aulas, os manos montavam rodas de hip-hop no centro do pátio ou andavam pela escola em grupo, com camisetas dos Racionais MC’s ou do 509-E, vindas da capital paulista naqueles anos finais da década de 1990. O rap que ouviam e decoaravam nos assustava – saber que 509-E era uma das celas da Casa de Detenção, o Carandiru, foi um desses espantos. A raiva presente nos versos de Mano Brown, cantada na sua voz e expressa na sua figura imponente, nos deixava desconcertados e emulava certo orgulho nos intérpretes e ouvintes. “Da ponte pra lá”, em busca de “Uma fórmula mágica da paz”, vivendo o “Negro Drama”, aquelas letras retratavam violências e situações próximas da vida daqueles jovens interioranos, e que na capital estampavam todos os dias a capa do Notícias Populares.

Eram tempos em que a educação pública ainda era a única opção nas cidades de pequeno porte do interior paulista, onde as escolas tradicionais misturavam diferentes classes, bairros, cores, valores, nomes e sobrenomes. No entanto, as salas da oitava série envolviam classificações curiosas: da 8ªA até a 8ªH havia uma longa distância social e, não por acaso, os manos estudavam da 8ªE em diante. Eram em sua maioria filhos de cortadores de cana, que aos 14, 15 e 16 anos já ensaiavam a ida para as lavouras das usinas de açucar e álcool da região. Terminar o Ensino Fundamental já seria, provavelmente, um grande avanço na história escolar de suas famílias. Assim, leitores, com seus cotidianos bem retratados pelo rap, adotavam suas estéticas e representações, num tempo que as fitas cassete rodavam de mão em mão. Algumas meninas acompanhavam os manos, mas era um movimento essencialmente masculino.

Nós, de classes médias bem baixas, que tentávamos nos qualificar para possivelmente ascender de classe, ficávamos entre o centro e essa periferia, assustados pela atitude dos manos, mas seduzidos pelo clube da cidade, seus frequentadores e frequentadoras. Num mundo no qual tinhamos chegado ao “Fim da História”, havia a promessa de algum desenvolvimento e mais satisfação com a vida. Com o devido esforço, os progressos dessa Modernidade estariam ao alcance de todos. E dá-lhe Racionais, em “Fim de Semana no Parque”: “Com seus filhos ao lado estão indo ao parque/ Eufóricos brinquedos eletrônicos/ Automaticamente eu imagino/ A molecada lá da área como é que tá.”

Através da sociabilidade do futebol e da capoeira, consegui uma alguma aproximação do grupo. Mas nunca a aceitação, uma vez que meu projeto estava claro, tanto pelas atitudes, quanto pelo estilo: não necessariamente um alpinista social, mas alguém que jogava o jogo social do lugar, sem espaço para reação, contestação e grandes originalidades. E dessa situação surgia um tipo curioso de proximidade não reconhecida nem por mim e nem por eles. A tensão dos olhares, dos versos, das roupas e dos movimentos do hip-hop era algo que eu não tinha, mesmo estando socialmente muito mais próximos daqueles sujeitos do que imaginava. Eram “revoltados”, perigosamente próximos da marginalidade, andando com certo gingado e falando um dialeto próprio, além de devidamente observados pelos nossos valorosos policiais locais. Por outro lado, nos seduziam com desafios impostos à ordem local, senão pelas ações propriamete ditas, mas por uma atmosfera afrontosa de revolta que os circundava.

Um ponto importante é que tretavam. Um encontrão aqui e ali na escada e no pátio, um encontro inesperado no banheiro, uma disputa mais acirrada no esporte eram motivos de tensão com algum deles. Podia haver retaliação em algum momento, e por isso tentávamos ao máximo manter a cordialidade, sem grandes momentos de conturbação. Mais que a violência em específico, ser alvo daquela raiva jamais poderia ser um bom negócio. Mais uma vez, era a atmosfera negativa que ameaçava, mais que episódios de agressão em concreto. Periféricos e afirmativos, pobres e orgulhosos, marginais e intensos, desafiavam a instituição escolar, que não os negava, mas também, assim como nós, não sabia muito o que fazer. A solução de separar as classes em diferentes classes, como sugeria alguma racionalidade, pode ter sido o melhor que a instituição pensou em fazer – o que diminuiria encontros, conflitos e crises. Porém, como sugeriria Mano Brown em “Negro Drama”, “A alma guarda o que a mente tenta esquecer.”

Num daqueles dias, o mais intenso deles encenou lançar raivosamente uma cadeira em minha direção e, sorrindo do meu susto, a reposicionou no chão. Na passagem de uma expressão para outra, lembro de alguma satisfação por parte dele e de um alivio da minha. Estávamos ali, mas éramos distantes, assim como as boas casas do centro da cidade, onde andávamos, mas onde nunca entraríamos. Ou nas vidas melhores que os “playboys” tinham e nos mostravam, com suas camisetas e meias brancas, que eu particularmente tentava copiar. E, pior ainda, nas possibilidades que o futuro mostrava, num mundo que já prometia muito, mas que mesmo com tantas ofertas, entregaria pouco, como ouvimos em “Vida Loka (Parte 2): “E o caminho da felicidade ainda existe, é uma trilha estreita, é em meio à selva triste.”

2. A raiva vai ao centro

Depois de trinta anos pode-se notar que a tensão e a raiva não estão somente nas margens, mas hegaram aos centros. Insatisfações e protestos mobilizam diferentes classes e movimentos. Atitudes e ações que evidenciam mal-estar não estão apenas nas canções e atitudes, mas na fala e nas ações cotidianas de muitas pessoas, nas ruas e nas redes. A possibilidade de falar e se manifestar cresceu devido aos avanços tecnológicos, e outras formas de disseminar a revolta surgiram, mais uma vez, por todas as classes. Seus mecanismos acabam por mobilizar ainda mais indignação e revolta, amplificando o cenário. A vida on-line facilitou encontros e demandas, acusações e ataques, denúncias e brutalidades. Tudo isso ao mesmo tempo em que mostra outras vidas, maiores e melhores que as nossas, e que jamais nos serão acessíveis. Contentar-se com a própria vida torna-se um desafio, ainda mais quando somos convidados a olhar e “curtir vencedores”. E assim as “tretas” aumentaram, como os níveis da tensão num mundo onde sucessivas crisespolítica, econômica, ambiental, psicológica – se acumulam.

Aqui e ali, entre uma conversa e outra, no interior paulista ou numa nas grandes cidades brasileiras ou estrangeiras, manifestações de raiva podem ser encontradas facilmente. Numa passeata organizada por grupos políticos locais que reagiam contra a Parata Gay em Madri, uma senhora sem todos os dentes da frente gritou com a minha esposa, sugerindo que voltássamos para o nosso lugar. Com nossos traços latino-americanos facilmente identíficáveis, não houve reação de nossa parte, mas a raiva estava ali. Ou também na fala de Donald Trump, então candidato à presidência dos Estados Unidos pela primeira vez em 2016, numa entrevista à cosmopolita CNN: “Estou com raiva, e muitas outras pessoas também estão com raiva, da incompetência com que nosso país está sendo administrado. No que me diz respeito, a raiva é normal. Raiva e energia são o que este país precisa.”

É claro que as manifestações daqueles jovens no final do século XX difere da fala de um milionário que quer mais poder no século XXI e de uma senhora possivelmente assustada com outras formas de afetividade, mas é inegável que esse tipo de raiva do outro e do mundo hoje é comum. Algo é devido e precisa ser exigido e corrigido. O astuto político da elite branca americana captou bem isso e construiu um projeto pautado na manifestação constante dessa emoção. E não apenas nos Estados Unidos, onde “todos têm direito de buscar a felicidade”. No entanto, um dos pontos principais da organização da vida moderna é a presença de otimismo, temperado pela esperança de que o futuro pode ser melhor que o passado. As grandes expectativas sobre o processo educacional no século XX residiam nessa expectativa: aqueles manos e eu estávamos motivados para a escola na confiança de que teríamos vidas melhores do que a dos nossos antepassados.

Essa formação, em tese, possibilitaria uma segurança para o futuro trabalho, e, a partir dali, poderíamos comprar uma motocicleta para passearmos na praça ou um terreno para um dia construírmos nossas casas. Poderíamos usufruir das elaborações da mundo moderno, ampliando liberdades e possibilidades das nossas frágeis existências interioranas. Entretanto, seria aquela raiva manifestada nas nas letras dos Racionais uma desconfiança de quem antevia que não necessariamente esse projeto estaria disponível para todos nós? “Vim pra sabotar seu raciocínio” nos dizia a faixa “Capítulo 4, Versículo 3”.

3. Um tempo de raiva?

Passei a considerar tais cenários ao ler os escritos do ensaíasta indiano Pankaj Mishra, nascido em 1969 numa ex-colônia britânica marcada por explorações e expectativas de modernização que não necessariamente se cumpririam, ou seja, num contexto bem parecido com o nosso. Mishra é jornalista e escritor, com participação em debates políticos e culturais sobre as conexões entre Ocidente e Oriente e os desafios impostos pelas dinâmicas da Modernidade. Seus escritos e análises são fortemente marcados pela experiência colonial, além da consideração sobre a história e suas interpretações a partir da cultura ocidental. Foi Age of Anger: A History of the Present (2017), ensaio de Mishra no qual analisa como mundo de progresso e realização desejável não chegou para todos, juntamente com as consequências dessa negação, que nos fez pensar na conexão entre os manos e as tretas da atualidade

Nos últimos anos, a insatisfação com a vida parece ter aumentando, para além das esperanças de melhora e de avanço (ao menos para a maioria). Não sei como estão meus colegas da oitava série, mas parte considerável dos eleitores das ditas democracias liberais no Ocidente tem manifestado seu apoio a posições que ampliam sua voz indignada e enraivecida. Tais posicionamentos podem envolver indignações e revoltas contra o estabilishment político, exigências de direitos negados, protestos críticos às ausências do poder público entre outros elementos. Porém, em meio à tais exigências, surgem também restrições à diferenças, convites ao armamento, negacionismos variados, discursos separatistas, afirmações de masculinismos entre outras atitudes que desprezam conquistas de uma Modernidade que agora parece em risco. Bibliotecas têm sido escritas para compreender esse fenômeno, e, por força de ofício, temos acompanhado algumas elaborações sobre o mal-estar contemporâneo e as “crises da democracia” dele resultante.

No entanto, Mishra promove uma análise mais ampla em termos sociais e históricos e encontra as raízes dos atuais “tempos de raiva” no estruturação da Modernidade em si. Segundo seu argumento, as concepções tradicionais de posições democratas liberais, de que o fim dos conflitos ideológicos do século XX daria lugar a uma era de prosperidade econômica acompanhada de harmonia e tolerância globais estava baseada numa limitação da compreensão do que as pessoas efetivamente viviam. Essas avaliações não consideravam a situação de grande parte da população mundial, que ficou fora do processo de globalização econômica e dos avanços materiais. Um exemplo era a situação de muitos e muitas que experimentam a inadequação e desconforto em relação a um mundo com intensas mudanças, desprovidos de expectativas em relação ao que fazer da própria vida. As periferias do mundo estavam cheias dessas pessoas, que aguardavam sua vez chegar: “Aqui estou mais um dia/ sob o olhar sanguinário do vigia.” (“Diário de um detento”).

Numa referência à filósofa Hannah Arendt, Mishra destaca que para além das promessas de realização, os indivíduos ficam diretamente expostos à “solidariedade negativa”, numa época de competição acelerada em campos de jogos desiguais, onde é fácil sentir que não existe nem a sociedade, nem o Estado, e “o que realmente existe é uma guerra de todos contra todos”. Mishra descreve seu projeto como uma exploração de um “clima particular de ideias, uma estrutura de sentimentos e uma disposição cognitiva” que aflora desde o século XVII até hoje. E considera o paradoxo de que, embora no mercado global atual sejamos mais alfabetizados, conectados, saudáveis ​​e prósperos do que em qualquer outro momento da história, muitos de nós ainda nos encontramos entre “feridas históricas e o medo de inimigos internos e externos.” Nesse sentido, sua hipótese é que a teoria política liberal subestimou gravemente a importância das emoções na política e que o modelo liberal tradicional do indivíduo racional está fundamentalmente errado.

Somos, na verdade, menos motivados por uma busca racional de nossos próprios interesses do que pelo medo de perder honra, dignidade e status, pela desconfiança na mudança e pelo apelo da estabilidade e familiaridade, bem como por emoções negativas como inveja e ressentimento: “Aqueles que se percebem como deixados para trás ou humilhados por uma minoria conspiratória egoísta podem ser suscetíveis a serem seduzidios por políticos de qualquer ponto do espectro ideológico, pois não são movidos apenas pela desigualdade material.” O homo economicus de Adam Smith, que poderia entender o mundo racionalmente, organizar-se e chegar ao progresso material perde espaço aqui para o homem do subsolo de Fiodor Dostoiévski, que se frustra ao ver o brilho e o caráter inacessível do Palácio de Cristal moderno. E a ideia de quebrar suas vidraças pode ser até interessante.

Sociedades baseadas essencialmente na competição, na imitação e na dependência do poder do dinheiro para plena realização podem até prometer progresso e sofisticação, mas acabam por ser psicologicamente debilitantes para seus cidadãos: Quem chegará lá? Dessa forma, a reação violenta ao projeto moderno por parte daqueles que ficaram para trás, daqueles que não sentem que se beneficiam da promessa de progresso, prosperidade, estabilidade e liberdade individual, não são resquícios atávicos de uma forma de vida pré-moderna, mas estão intimamente ligados aos efeitos do próprio processo de modernização, que nos seduz, mas patina, se efetivando somente para alguns, sem necessariamente cumprir suas promessas universalizadoras. Advém disso “um rancor existencial frente ao ser dos outros, causado por uma mescla intensa de inveja e sentimentos de humilhação e impotência, esse ressentimento, à medida que recua e se aprofunda, envenena a sociedade civil e mina a liberdade política, a atualmente está gestando uma mudança global ligada ao autoritarismo e formas tóxicas de chauvinismo.”

Nesse sentido, o aumento das distâncias e diferenças num mundo que acredita na igualdade gera uma sensação ruim e direciona para a raiva, agora democratizada entre as diferentes classes. As classes medianas não têm muitas expectativas de subir, mas um medo extremo de ver seu nível de vida desabar. As classes altas distanciam-se cada vez mais, economicamente e socialmente, com medo das reações. Já as classes baixas emulam ações e atitudes, mas frustram-se com as portas constantemente fechadas. E aqui surge o “tempo de raiva” que intitula o ensaio: uma emoção reprimida e impotente, que carece de expressão adequada, uma espécie de fervura constante que eventualmente pode culminar em uma explosão. Esse sentimento é, portanto, segundo Mishra, um fenômeno distintamente moderno, “inerente à estrutura das sociedades onde a igualdade formal entre os indivíduos coexiste com enormes diferenças de poder, educação, status e propriedade”.

4. Modernidade explosiva

No entanto, essa raiva se trata de um elemento complexo, acerca do qual cabe reflexões. Segundo a socióloga Eva Illouz, trata-se de emoção multifacetada, que expressa situações individuais, conexões sociais, culturais e morais. No ensaio Explosive Moderne (2024), publicado originalmente em alemão, Illouz defende que quando alguém experimenta a raiva, manifesta a defesa de uma ordem moral que considera ter sido desrespeitada. A raiva revela então normas, expectativas e valores que organizam nossas relações e aquilo que nos indigna mostra também o que consideramos justo, legítimo e digno. Trata-se assim de uma emoção que encontra e caminhos e ecos na Modernidade, um momento histórico de ampliação de vozes, do crescimento das possibilidades de manifestação e expectativas de mais liberdades e melhora das circunstâncias ao nosso redor. Enfim, um momento explosivo, conforme a descrição de Illouz.

Num mundo ainda mais conectado pela Internet, a raiva se intensifica porque os conflitos e tensões circulam através das redes, fóruns e plataformas. Nesse sentido, a indignação se dissemina com velocidade, é compartilhada, comentada e amplificada, transformando-se assim numa ação coletiva. E pode-se converter num catalizador poderoso para a mudança social, principalmente quando denuncia abusos, oferece visibilidade para vítimas e exige reparações em relação à injustiças do presente e do passado. No entanto, Illouz também mostra que a raiva possui uma dimensão perigosa, uma vez que os sujeitos podem passar a definir-se apenas pela situação que os enraivece, pelo dano ou pela exigência de reparação. Surge assim uma identidade que se organiza a partir do ressentimento e da vitimização, onde a indignação deixa de ser uma força orientada para a justiça e converte-se numa redoma, retroalimentada pelas variadas conexões e que que estimuça ações e atitudes.

Nesse cenário, a raiva perde sua capacidade transformadora, reproduzindo o conflito, a vingança e a destruição, além de ser mobilizada por outros interesses de poder, que a direcionam conforme sua vontade, como no caso de Trump defendendo que o seu país precisa “é de ainda mais raiva”. Temos então uma tensão entre o potencial emancipador e o caráter destrutivo da raiva, cada vez mais visível no mundo online, inclusive possibilitando mais atratividade e ganhos para as grandes corporações tecnológicas. Afinal, num contexto de economia da atenção, aquilo que “engaja” e “viraliza” é mais mobilizador que outros tipos de conteúdo. Mesmo que a conexão intensa do nosso tempo possibilite a denuncia de injustiças e a mobilização social, gera em paralelo dinâmicas de intolerância e difusão do ódio, econtrando muitas vezes recompensa imediata para estas últimas.

Illouz sugere que é preciso sempre compreender a natureza dessa raiva e organizá-la: “Quando a raiva invoca arguementos morais e reconhece normas, e quando reage a injustiças reiteradas, pode ter um efeito coletivo transformador.” Porém, trata-se de uma difícil equação, uma vez que a própria Modernidade “explosiva”, para usar os termos de Illouz, estimula movimentos de confiança no progresso, valorização da individualidade e da igualdade, além de grande ampliação das liberdades. Essa dinâmica acaba criando contextos de competitividade e poucos “lugares ao sol” nas disputas por recursos e acessos, divisões em diferentes classes e ausência de estabilidades e referências. Nessa situação, uma tensão em relação ao mundo e ao outro pode sempre florescer, tornando-se um traço comum das relações humanas, conforme também nos alertou Mishra. Quando expectativas de realização e reconhecimento se encontram com realidades de escassez e desigualdades extremas, emoções como a decepção, o rancor, a vergonha e a inveja oferecem perigosos combustiveis para a raiva.

5. Entre crises e mortes

E chegamos então ao século XXI, onde os ideais da democracia moderna – a igualdade das condições sociais e o empoderamento individual – nunca foram tão exigidos, inclusive por aqueles que chegaram mais tarde aos processos de modernização, como grupos sociais que tiveram reconhecimento tardio de sua dignidade e cidadania. No entanto, tais conquistas tornaram-se cada vez mais difíceis, senão impossíveis, de concretização nas nossas sociedades grotescamente desiguais, criadas pelo nosso tipo de produção da vida cada vez mais globalizado e competitivo. A festa da Modernidade envia ses convites para todos, mas apenas alguns poderão e entrar e usufrir dos seus belos serviços e instalações.

Não faltam ao nosso tempo disputas e afirmações cotidianas, na busca por alguma dignidade perdida através da aquisição de produtos ou serviços “exclusivos”. Trata-se de um modo de vida em que destacar o próprio status, por meio do exibicionismo e da ostentação, passa a ser fundamental, dada a comparação constante e à necessidade de se destacar de algum modo. Buscamos reconhecimento e distinção. Ideologias de meritocracia e ranqueamento passaram a ser comuns, dado que evidenciam uma pretensa racionalidade às disputas por acessos e recursos, numa situação em que a maioria estará excluída de serviços básicos, devido à necessidade constante de recursos para abrir caminhos. Não é por acaso que vivenciamos uma crise de saúde mental, com ansiedades e variadas formas exaustão.

Nesse cenário, na “história do presente” citada por Mishra, o ódio e a violência podem se misturar à política, principalmente a partir da ascensão de agentes demagógicos que aplacam as frustrações com discursos reativos, porém, pouco comprometidos com a estabilidade social e com a vida democrática, contando com ferramentas tecnológicas especialmente desenvolvidas para captar e promover emoções intensas. As crises sociais, políticas e econômicas da atualidade estão assim diretamente ligadas às promessas e esperanças baseadas em expectativas que não entregaram o combinado – ao menos para a maioria de nós, que agora “tretamos” em relação a tudo e a todos. Num modo de vida cujos principais objetivos não são possíveis para todos, muitas pessoas “ficarão para trás”. A política e as instituições têm dificuldade para lidar com tais tensões e os discursos ditos “populistas” e extremistas encontrarão terreno fértil nesse cenário de descontentamento.

Desse estado de coisas, o que virá? É difícil pensar numa solução para o estranho “tempo de raiva” em que vivemos. Mishra e Illouz diagnosticam, mas, em meio ao turbilhão do agora, não consideram nem esboçam muitas respostas para o futuro. No entanto, seus diagnósticos ainda estimulam reflexões. Argentina, Colômbia, Chile, Brasil, Alemanha, Itália, Índia, El Salvador, França, Espanha, Portugal, México, Inglaterra, Hungria, Polônia, numa lista pouco exaustiva, são lugares do mundo que possuem consideráveis forças políticas de mobilização da raiva e do desconforto. E com potencial de chegar ao poder em seus países. Paradoxalmente, meus antigos companheiros de ensino fundamental talvez tenham encontrado nessas forças a confiança de que alguma reação virá em relação “à tudo que está aí.” E sua raiva tenha finalmente os aproximado das elites.

Alguns dos títulos de livros que tentam explicar nosso tempo, oferecendo hipóteses de variadas áreas de investigação, sugerem que se trata de uma situação do “povo contra a democracia”, ou que “a democracia chegou ao fim”, explicando assim “como as democracias morrem”. Outros ainda sugerem que estamos na “contramão da liberdade” ou que se trata de um problema de racionalidade e informação, que deve ser combatido por “um novo Iluminismo”. No entanto, pairam dúvidas sobre essas explicações, uma vez que parecem acreditar numa reorganização da vida coletiva a partir das mesmas bases que geraram a multiplicidade de tensões que vivenciamos hoje. Mais uma vez, confiam num modelo questionável de humanidade no qual existe um agente racional, deliberativo e que escolhe livremente as cinrcunstâncias nas quais viverá.

Revisitar aquelas manhãs onde convíviamos com muitas diferenças na oitava série da escola estadual e observando a presença da raiva na atualidade, muito mais presente que a esperança própria do mundo moderno (e explosivo), são dinâmicas que estimulam questões mais profundas sobre nosso modo de vida e suas promessas de realização. Consequentemente, a democracia, um dos pilares de nossas expectativas nessa grande Modernidade, encontra cada vez mais desafios numa ordem raivosa e cada vez mais estranha. No entanto, parece que a antiga solução de colocar “algumas oitavas a mais” para os revoltados e raivosos não resolverá nossos desassossegos.

Referências

ILLOUZ, Eva. Explosive Moderne: Eine scharfsinnige Analyse unserer emotionsgeladenen Gegenwart. Berlin: Suhrkamp Verlag, 2024.

FUKUYAMA, Francis. O fim da História e o último homem. Tradução de Aulyde Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

MISHRA, Pankaj. The Age of Anger: A History of the Present. Nova York: Farrar, Straus, and Giroux, 2017.

MOUNK, Yascha. The People vs. Democracy: Why Our Freedom Is in Danger and How to Save It. Cambridge: Harvard University Press, 2018.

PINKER, Steven. O Novo Iluminismo: Em defesa da razão, da ciência e do humanismo. Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

RACIONAIS MC’S. Sobrevivendo no inferno. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

ROCHA, Arthur Dantas. Racionais MC’s: Sobrevivendo no inferno. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.

RUNCIMAN, David. Como a democracia chega ao fim. Tradução de Sergio Flaksman. São Paulo: Todavia, 2018.

SNYDER, Timothy. The road to unfreedom: Russia, Europe, America. Nova York: Tim Duggan Books, 2018.

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