Vozes de Emaús: Em defesa da democracia, contra o golpe. Artigo de Ivo Lesbaupin

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22 Agosto 2026

"Embora estejamos em período de normalidade democrática, com os partidos funcionando livremente - convenções, definição de candidatos, discursos de campanha -, o que está em curso por parte da extrema- direita é um modo de criar uma situação de caos, de alimentar desconfiança nas eleições, para justificar a narrativa de não reconhecimento do resultado eleitoral. É uma nova tentativa de golpe."

O artigo é de Ivo Lesbaupin, sociólogo, professor aposentado da UFRJ, coordenador da ONG Iser Assessoria.

Ivo Lesbaupin é doutor em Sociologia pela Universidade de Toulouse-Le-Mirail, França, é autor e organizador de diversos livros, entre os quais destacamos: O Desmonte da nação: balanço do governo FHC (org., 1999); O Desmonte da nação em dados (com Adhemar Mineiro, 2002); Uma análise do Governo Lula (2003-2010): de como servir aos ricos sem deixar de atender aos pobres (2010).

Ivo Lesbaupin | Foto: Arquivo Pessoal

Eis o artigo.

As eleições se aproximam e, novamente, teremos uma disputa entre um candidato que defende a democracia e suas instituições e o outro lado ataca estas mesmas instituições (urnas eletrônicas, Supremo Tribunal Federal, o resultado do julgamento da tentativa de golpe de 2023, etc.).

Há poucos dias, o principal candidato da oposição questionou a confiabilidade das urnas eletrônicas, sem apresentar qualquer prova de sua afirmação. Retomou a tese do pai, que serviu de base para a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. É uma forma de preparar o caminho para deslegitimar o resultado das eleições, caso Flávio Bolsonaro seja derrotado. O mesmo caminho utilizado por Donald Trump, quando perdeu as eleições de 2020 nos EUA.

Alguns dias depois, a mídia centrou seu noticiário em Fábio Luís – chamado pela mídia de “Lulinha” -, o filho mais velho de Lula, em virtude de investigações seja sobre possível ligação com o escândalo do INSS, seja pela amizade com uma lobista atuante em Brasília. Cabe lembrar que “Lulinha” é trazido pela grande mídia desde 2006, a cada vez que Lula é candidato, para tentar vincular Lula com o tema da corrupção. Não importa que, a cada vez, nada seja provado contra o filho, importa deixar a dúvida na cabeça dos eleitores.

Por outro lado, desde o primeiro ano do governo Trump, este tem tomado medidas contra o Brasil como forma de pressão para obrigar o governo Lula a ceder aos interesses dos EUA: tarifaços, aplicação da Lei Magnitsky contra autoridades brasileiras, tentativa de envio de funcionários do Departamento de Estado para questionar a seriedade das eleições brasileiras (o Itamarati não liberou o visto para eles). As últimas tomadas de posição com relação ao Brasil representam explícita ingerência para influenciar as eleições nacionais.

Em junho, o governo dos EUA tomou a iniciativa de classificar duas organizações criminosas que atuam no Brasil - o PCC e o CV - como organizações terroristas, o que é uma maneira de intervir na política de segurança pública brasileira.

Nos últimos dias, o Secretário de Estado, Marco Rubio, tem feito afirmações críticas ao governo Lula, procurando aumentar a tensão entre os dois países. Mais recentemente, a embaixadora do Brasil nos EUA teve seu visto parcialmente suspenso como forma de chantagear o governo brasileiro para aceitar a indicação de Daniel Pérez para embaixador no Brasil - uma pessoa que havia divulgado fake news sobre suposta fraude na eleição em que Trump foi derrotado por Biden (2020).

No início de agosto, o Departamento de Estado divulgou publicamente um vídeo que contém um recado para toda a América Latina: admite que tem pretensões imperiais e afirma que o “domínio (sobre esta região) nunca mais será questionado”.

A situação é mais séria, porque a extrema direita brasileira não defende a soberania do nosso país e apoia a ingerência dos EUA, colaborando com a ação nefasta de autoridades estadunidenses contra o nosso país.

O presidente da Argentina, Milei, seguidor de Trump, veio ao Brasil para um evento partidário de Flávio Bolsonaro e insultou o presidente Lula e o Ministro do STF Alexandre de Morais. De volta à Argentina, Milei voltou a insultar o presidente brasileiro.

São formas diferentes e variadas de intervenção estrangeira para produzir resultados políticos: a derrota de Lula com a vitória de Flávio Bolsonaro – candidato que deixou claras suas intenções de entregar as riquezas do Brasil ao governo Trump. A estratégia pretende, caso Lula seja reeleito, abrir o caminho para não reconhecer o resultado do pleito, difundindo a ideia de fraude nas urnas eletrônicas.

Há poucos dias, a Polícia Civil do Distrito Federal, em associação com o Ciberlab do Ministério da Justiça e Polícias Civis estaduais, desbaratou uma articulação que planejava, através do aplicativo Telegram, atentados a bomba a serem realizados em Brasília na época das eleições. A maior comunidade era composta por 600 integrantes, de cinco estados da federação. Os atentados visavam edifícios – como o Palácio do Planalto -, mas também resultariam em mortes de autoridades.

Embora estejamos em período de normalidade democrática, com os partidos funcionando livremente - convenções, definição de candidatos, discursos de campanha -, o que está em curso por parte da extrema- direita é um modo de criar uma situação de caos, de alimentar desconfiança nas eleições, para justificar a narrativa de não reconhecimento do resultado eleitoral. É uma nova tentativa de golpe.

Frente a estes riscos, devemos defender a democracia, denunciar o ataque ao processo eleitoral e eleger Lula - o candidato presidencial comprometido com as instituições democráticas e com a soberania do Brasil. E votar em deputados, senadores e governadores defensores da democracia e da justiça social.

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