Gigante da carne em RO evita auditoria e MPF acusa 260 mil bois ilegais

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21 Agosto 2026

Frigorífico Irmãos Gonçalves não apresenta dados para comprovar regularidade e análise automática aponta um terço de compras com problemas.

A reportagem é de Naira Hofmeister, publicada por ((oeco)), 20-08-2026.

O maior frigorífico de Rondônia – e sexto maior na Amazônia Legal – o frigorífico Irmãos Gonçalves pode ter abatido 260 mil cabeças de gado criadas em fazendas com desmatamento, trabalho escravo e outras irregularidades socioambientais. É o que apontam os dados divulgados nesta quinta-feira, 20 de agosto, pelo Ministério Público Federal, que revelou os resultados do 3º ciclo de auditorias do TAC da Carne. O ciclo cobre abates realizados em 2023 e 2024.

As auditorias são fruto dos acordos firmados desde 2009 entre o MPF e frigoríficos que atuam na Amazônia. Pelos termos acordados, as empresas precisam comprovar que não comercializam animais provenientes de áreas com desmatamento ilegal, grilagem, trabalho escravo, invasões a unidades de conservação e a terras indígenas e quilombolas.

Ao contrário dos demais gigantes da carne da Amazônia, que colaboram com o MPF, o frigorífico Irmãos Gonçalves não apresentou as informações de suas compras. Por isso, o MPF acessou dados públicos e realizou análises automatizadas de todas as remessas de gado que tiveram como destino uma de suas unidades em Rondônia.

O resultado é que mais de um terço das transações da empresa possuem indícios de ilegalidade, seja desmatamento ilegal, invasão de áreas protegidas ou uso de mão de obra em condições análogas à escravidão – ou vários desses problemas sobrepostos. Entre as 800.141 mil cabeças de gado abatidas em dois anos, 260.952 não estavam de acordo com as regras do MPF, um percentual de 32,6% do total de abates.

“O MPF vai ter atenção especial com esse frigorífico, que é muito grande e precisa ter mais responsabilidade”, alertou Gabriel de Amorim Silva Ferreira, Procurador da República de Rondônia.

Segundo o procurador, nos diálogos com a empresa, os gestores teriam afirmado que contratam monitoramento socioambiental “mas não iriam se sujeitar às auditorias do MPF”. “Por que a empresa se recusa a ser transparente com a sociedade civil?”, ponderou Ferreira.

Em 2024, a Justiça condenou o frigorífico Irmãos Gonçalves (além do Distriboi e de três pessoas físicas) ao pagamento de R$ 4,2 milhões por desmatamento ilegal e criação de gado na Reserva Extrativista Jaci-Paraná.

Além do frigorífico Irmãos Gonçalves, de Rondônia, as outras cinco maiores quantidades de gado abatido são das unidades da JBS e Marfrig em Mato Grosso, além de JBS, Mercúrio e Frigol no Pará. Apenas a JBS teve não-conformidades apontadas, mas salientou que elas “concentraram-se exclusivamente em aspectos documentais” (leia a íntegra abaixo).

O frigorífico Irmãos Gonçalves também foi procurado, mas não retornou nosso contato. O espaço segue aberto e o texto será atualizado assim que as empresas se posicionarem. Veja os números abaixo.

Resultado por frigorífico

*O frigorífico Irmãos Gonçalves não passou por auditoria e todas as suas compras foram verificadas. Nos demais casos, houve uma seleção de amostras para auditagem.

O Frigorífico Irmãos Gonçalves lidera a listagem com 260.952 irregularidades apontadas em 800.141 animais abatidos. Créditos: ((oeco)). 

JBS comprou quase onze mil bois ilegais em 5 estados

Maior frigorífico do Brasil – e do planeta – as unidades da JBS nos estados do Acre, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins abateram 10.941 cabeças de gado provenientes de fazendas com problemas socioambientais. O dado é auditado pelo MPF e não são casos suspeitos como os do frigorífico Irmãos Gonçalves, mas sim, comprovados.

Apesar do volume elevado de animais, o percentual de irregularidades da JBS é o melhor da série histórica: em nenhum estado, o frigorífico passou de 3% de problemas, o que está dentro da margem de tolerância estabelecida pelo MPF, de 4%. Ao todo, a JBS abateu 8,7 milhões de cabeças de gado nos cinco estados da Amazônia Legal em que atua, mas o total de compras auditadas é menor.

Em nota, a JBS informa que “registrou índice de conformidade de 97,62% em suas aquisições de bovinos na Amazônia”. “As inconformidades residuais concentraram-se exclusivamente em aspectos documentais. Nos critérios socioambientais avaliados, a JBS registrou zero não conformidade”.

Já os outros dois gigantes da carne brasileira, Minerva e Marfrig tiveram 100% de aprovação nas auditorias, ou seja, nenhuma compra auditada foi considerada irregular pelo MPF. Os frigoríficos possuem unidades em Mato Grosso, Rondônia e Tocantins.

Resultado da JBS

(por estado)

Número de cabeças de gado com irregularidades e os respectivos percentuais em cinco estados brasileiros. Créditos: ((oeco)).

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