19 Agosto 2026
Existe uma rigidez que examina minuciosamente a maneira como os outros se aproximam do altar, mas nunca questiona como alguém se aproxima de seu irmão ou irmã. Porque quando a observância serve para fazer alguém se sentir superior, deixa de ser humildade e começa a se assemelhar demais ao farisaísmo que o próprio Evangelho condena
O artigo é de José Carlos Enríquez Díaz, téologo, publicado por Religión Digital, 18-08-2026.
Eis o artigo.
É difícil discordar desta afirmação inicial: a fidelidade à doutrina e à liturgia da Igreja não é incompatível com a misericórdia, a humildade ou a proximidade com os outros. Um sacerdote pode celebrar a Missa segundo as normas e dedicar a sua vida aos outros; um católico pode defender plenamente a doutrina e, ao mesmo tempo, acompanhar com ternura aqueles que sofrem. Ninguém deve criar uma oposição artificial entre fidelidade e caridade.
Mas precisamente por essa razão, é surpreendente que, após estabelecer essa premissa correta, a misericórdia acabe sendo apresentada quase como um álibi suspeito para aqueles que buscam rebaixar os padrões cristãos, enquanto a observância aparece envolta em uma espécie de garantia superior de humildade. É aqui que vale a pena parar e retornar ao Evangelho, porque Jesus Cristo foi muito mais exigente com a religião quando esta corria o risco de se esquecer da humanidade.
Jesus não desconsiderou a Lei, nem ensinou que suas regras eram irrelevantes. O que ele fez foi nos lembrar constantemente que nenhuma observância pode se tornar um fim em si mesma. “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Marcos 2,27). E quando aqueles que se consideravam fiéis à tradição questionaram sua proximidade com os pecadores, ele respondeu: “Misericórdia quero, e não sacrifícios” (Mateus 9,13).
Essas não são duas expressões para usarmos quando nos convém. São critérios fundamentais para interpretar a própria experiência religiosa.
Portanto, devemos nos perguntar se o problema reside realmente naqueles que se lembram da misericórdia, ou se há também um perigo naqueles que passam a identificar a fidelidade cristã quase exclusivamente com a correção das formas externas. A liturgia importa, a doutrina importa e a tradição importa, mas nenhuma delas torna automaticamente a pessoa que as observa humilde, caridosa ou santa. O Evangelho jamais oferece tal garantia.
Há muitos anos, tive a oportunidade de conversar com um padre que tinha opiniões muito rígidas, particularmente preocupadas com as formas litúrgicas e bastante críticas em relação àqueles que recebem a comunhão na mão em vez de na língua. Não pretendo me aprofundar nessa discussão. O que me lembro é outra coisa.
Um dia, encontrei-o na fila de um hospital, onde ele aguardava para fazer um exame de sangue. À sua frente, havia várias pessoas, incluindo idosos, mulheres e crianças pequenas, esperando pacientemente a sua vez. Aquele padre, porém, começou a furar a fila.
Eu vi pessoalmente
Não estou relatando essa anedota para julgar sua consciência ou condenar toda a sua pessoa por uma única ação. Todos nós podemos ser inconsistentes e todos nós precisamos de misericórdia. Mas essa cena levanta uma questão difícil de evitar quando falamos tanto sobre observância religiosa: qual o sentido de nos preocuparmos extraordinariamente com a forma como outra pessoa recebe a Eucaristia se somos incapazes de respeitar o idoso, a criança ou o doente que está bem à nossa frente?
O próprio Jesus já havia respondido
Quando repreende os fariseus por sua compreensão da religião, ele não os acusa de não a observarem. Ele os acusa precisamente de observarem algumas coisas enquanto negligenciam outras que ele considera mais importantes: “Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas negligenciam os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade” (Mt 23,23).
Este é provavelmente o ponto que deveria nos fazer refletir mais. O problema não é a obediência; o problema surge quando a obediência se torna uma medida de superioridade sobre os outros.
É exatamente isso que acontece na parábola do fariseu e do publicano. O fariseu observa a lei, jejua e apresenta seus méritos diante de Deus. Mas ele precisa olhar para o publicano para se sentir justo. O publicano, por outro lado, só consegue reconhecer a sua própria pobreza. E é este último que é justificado (Lc 18:9-14).
Por isso, também é necessário ter cuidado com certas palavras. É bem observado que alguém que simplesmente deseja ser fiel à Igreja não deve ser chamado de "rígido", "fariseu" ou "escrupuloso". Concordo. Mas também parece irrazoável responder atribuindo "ego", "arrogância" ou sede de poder àqueles que enfatizam a misericórdia, o acolhimento ou a necessidade de cuidar dos outros. Se rejeitamos julgamentos sobre as intenções dos outros, devemos rejeitá-los para todos.
Porque o ego pode se manifestar naqueles que tentam mudar tudo segundo seus próprios critérios, mas também naqueles que transformam sua maneira particular de praticar a religião em uma credencial pela qual julgam constantemente os outros. O orgulho não tem ritual definido nem pertence a nenhuma sensibilidade específica. Ele pode até se esconder por trás de uma observância impecável.
Tampouco se trata de defender uma misericórdia sem verdade. A misericórdia cristã não significa que tudo seja igual, nem que a doutrina possa ser modificada de acordo com nossas preferências. Mas apresentar a misericórdia como uma espécie de concessão sentimental diante das verdadeiras exigências cristãs também não resiste ao escrutínio do Evangelho. Cristo não opôs verdade e misericórdia. Ele as viveu inseparavelmente.
Portanto, quando falamos de fidelidade, devemos falar de fidelidade completa: fidelidade à doutrina, mas também fidelidade ao mandamento do amor; fidelidade à liturgia, mas também fidelidade à justiça; fidelidade à tradição, mas também fidelidade ao irmão que sofre.
Quando chegar o julgamento descrito por São Mateus, Cristo não perguntará apenas quais regras seguimos ou com que frequência corrigimos o comportamento dos outros. Ele perguntará se alimentamos os famintos, se visitamos os doentes, se acolhemos os estrangeiros e se cuidamos dos necessitados: “Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40).
Por isso, vale a pena lembrar, antes de usar a palavra "ego" para explicar o comportamento dos outros, que Jesus também disse: "Não julgueis, para que não sejais julgados" (Mt 7,1).
A Igreja precisa de fidelidade, doutrina, tradição e liturgia. Mas também precisa se lembrar do propósito de todas essas coisas: não fazer o homem se sentir superior ao seu irmão, mas conduzi-lo a Cristo.
E Cristo deixou bem claro como reconhecer aqueles que verdadeiramente o seguem: "Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros" (Jo 13,35).
Talvez, portanto, o verdadeiro rigor cristão não consista apenas em examinar cuidadosamente como os outros cumprem as normas da Igreja. Consiste também em permitir que o Evangelho examine, com o mesmo rigor, a nossa própria maneira de tratar os nossos irmãos e irmãs.
Porque a fidelidade aos formulários pode ser necessária. Mas a fidelidade a Cristo deve sempre se estender à pessoa que está à nossa frente.
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