19 Agosto 2026
Até por volta dos 12 anos, Louis Massett cresceu no que ele descreveu como uma família católica americana normal.
A reportagem é de Brian Fraga, publicada por National Catholic Reporter (NCR), 18-08-2026.
Ele ouvia rock, assistia à televisão e ia ao cinema com os pais e irmãos. Suas irmãs nem sempre usavam vestidos. Mas então a família começou a frequentar a missa da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) e, nas palavras de Massett, tudo mudou — inclusive o vestuário.
"Sabe, as meninas só usam saias ou só deveriam usar vestidos", disse Massett ao NCR em uma entrevista recente. "Você tinha que se livrar da TV, não ouvir rock, não fazer isso e não fazer aquilo, senão você não era realmente um bom católico."
Massett, de 53 anos, relata seus anos de formação e experiências como um jovem adulto imerso no mundo fechado do movimento católico tradicionalista em uma nova autobiografia intitulada Traddyland: The Memoir of a Radical Traditional Catholic (Terra dos tradicionais: as memórias de um católico tradicional radical), que ele autopublicou no final de junho.
"Traddyland: Memoir of a Radical Traditional Catholic", livro de Louis Massett (Lou Ben Syr, 2026).
O livro foi lançado justamente quando a FSSPX se preparava para ordenar quatro bispos sem mandato papal, em Écône, na Suíça, em 1º de julho. No dia seguinte, o Papa Leão XIV excomungou os novos bispos e os dois bispos que participaram das consagrações. O decreto do Vaticano também declarou os padres da FSSPX cismáticos e excomungados, e invalidou alguns dos sacramentos que administravam.
Massett disse que trabalhou arduamente para terminar o livro em meio ao mais recente conflito entre o Vaticano e a FSSPX. Ele afirmou não estar surpreso com o fato de a organização tradicionalista internacional ter desafiado Roma e ignorado os avisos de que as consagrações levariam à excomunhão.
"Eles não são católicos. São da FSSPX. E isso significa que eles se autodenominaram algo que não é católico", disse Massett, cujo livro explora o que ele descreve como um mundo onde a fé é usada como arma e uma pequena cidade do Kansas se torna um foco de ideologia radical.
Em Traddyland, Massett relata sua experiência frequentando o internato da FSSPX em St. Marys, Kansas, e afirma ter sido ostracizado pela comunidade por se manifestar contra sua liderança. No livro, ele descreve o controle quase sectário que, segundo ele, a FSSPX exercia sobre seus membros, além de destacar a interseção entre o tradicionalismo radical, o extremismo de direita e uma Igreja Católica dividida nos Estados Unidos. Críticos do grupo afirmam que seus membros usaram sua influência para direcionar St. Marys para uma inclinação política mais conservadora.
A FSSPX também enfrentou escrutínio e investigações criminais relacionadas a alegações de abuso sexual infantil e à forma como lidou com as acusações dentro de suas comunidades. O Departamento de Investigação do Kansas investigou o grupo e enviou suas conclusões em julho ao gabinete do procurador-geral do estado, que está analisando o caso para possível apresentação de acusações criminais.
James Vogel, porta-voz da FSSPX nos Estados Unidos, não respondeu às mensagens da NCR solicitando comentários.
Antes de se juntar à comunidade da FSSPX, Massett lembrou-se de ter crescido em um lar amoroso, sendo o sétimo de 11 irmãos.
"Foi um período de muito amor e guardo muitas lembranças carinhosas", disse ele.
Mas ele percebeu que algo estava mudando depois que sua família se envolveu com a FSSPX.
"Comecei a perceber como esse amor se cristalizou por causa dessa ideia de fé ou fidelidade", disse ele. "Havia uma seriedade em preservar a fé a tal ponto que você acaba perdendo o amor pelas pessoas com quem está caminhando nessa jornada."
Parte da crítica de Massett à FSSPX e a outras comunidades católicas tradicionalistas é que elas são terreno fértil para o pensamento conspiratório e atitudes anti-Vaticano II.
"As pessoas que entram em [comunidades católicas tradicionalistas] às vezes são apresentadas a teorias da conspiração e críticas superficiais à Igreja que não são totalmente precisas", disse ele. "E isso gera essa amargura que se encontra no movimento tradicionalista."
Ele disse que a culpa é dos líderes dessas comunidades, e não necessariamente das pessoas que as compõem.
"Não estou tentando criticar os tradicionalistas", disse ele. "Existem pessoas maravilhosas nessas comunidades, mas, para eles, isso é um problema."
"Eu realmente acredito que este livro estava destinado a ser escrito", disse Massett. "Se eu não tivesse passado por tudo aquilo, ainda estaria na FSSPX. Sabe, a dor liberta as pessoas da ilusão. E foram as dores dessas coisas que me aconteceram que me trouxeram à realidade da situação."
Se há uma coisa que ele quer que os leitores absorvam depois de ler o livro, disse Massett, é que "o amor é a coisa mais maravilhosa do mundo".
"No último capítulo, escrevo sobre o caminho para Emaús e como os discípulos não reconheceram Jesus", disse ele. "Para mim, essa jornada durou a vida inteira, e foi ao enfrentar as adversidades que finalmente percebi que não reconhecia Jesus, quem Jesus é e para o que Jesus nos chama."
Embora antes defendesse a organização, Massett afirmou que suas experiências cristalizaram para ele a "realidade de que a FSSPX está em cisma há 38 anos", ou seja, desde que o Vaticano decretou, em 1988, que a organização era cismática quando consagrou quatro bispos. O Vaticano revogou as excomunhões em 2009, embora o grupo tenha permanecido em uma posição canônica irregular.
Massett afirmou que estar em comunhão com a Igreja Católica vai além de ordenações válidas.
"A ideia do termo apóstolo significa alguém que é enviado ou alguém que tem uma missão. Bem, a FSSPX nunca teve isso", disse ele. "E é aí que muitos católicos não entendem por que eles estão em cisma, por que esses atos são cismáticos e por que isso é um problema tão grande na Igreja."
Massett disse que entrou em um período sombrio após deixar a comunidade da FSSPX quando jovem, depois de ter sido ostracizado por ela. Ele entrou para uma banda de rock e parou de frequentar a igreja. Ao perceber que não estava mais feliz, embarcou em uma jornada espiritual e ingressou no Christendom College, uma faculdade católica conservadora na Virgínia.
Durante o pontificado do Papa Francisco, Massett disse que se deixou envolver pelas tensões entre os católicos conservadores e começou a se envolver novamente com a FSSPX. Mas, em 2019, ele afirmou ter deixado o grupo definitivamente após um episódio em que membros da comunidade o traíram, bem como à sua esposa, conforme detalha no livro.
"Há muita tristeza e muita dificuldade no livro, mas também a graça de Deus", disse Massett. "Minha mãe dizia que Deus escreve reto por linhas tortas. E eu acho que isso é verdade."
Hoje, ele se descreve como um católico praticante com "os dois pés na Igreja" que passou a abraçar os ensinamentos do Concílio Vaticano II. Ele trabalha como arrecadador de fundos para a Students of Life of America, uma organização antiaborto.
"Procuro me considerar um pensador de visão ampla", disse ele. "Não sou tão ideológico quanto costumava ser. Reconheço que existe um amplo espectro de opiniões."
Ele disse que tenta respeitar a origem e as experiências dos outros.
"Conversarei com qualquer pessoa na igreja, onde quer que esteja", disse ele. "Mas, sabe, acho que o ideal mais importante é amar as pessoas, para que elas possam dizer: 'Essa pessoa não vai me rejeitar por discordar de mim'. Elas podem até dizer coisas absurdas. Mas eu digo a elas: 'Bem, acho isso absurdo, mas eu te amo'".
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