18 Agosto 2026
Igreja liderada por Edir Macedo lançou o Desafio de Neemias, com tarefas diárias sobre valores cristãos, família, governantes e fake news; jornada termina em 4 de outubro, data da eleição.
A reportagem é de Gustavo Kaye, publicada por Agenda do Poder, 18-08-2026.
A Igreja Universal do Reino de Deus iniciou, na última quinta-feira (13), uma campanha espiritual com duração de 52 dias. Batizada de Desafio de Neemias, a mobilização termina em 4 de outubro, justamente na data do primeiro turno das eleições de 2026.
Embora a iniciativa não faça referência direta ao pleito, a escolha do período e dos temas abordados chama atenção para a atuação política da denominação. A campanha propõe desafios diários aos fiéis, apresentados como etapas de uma “muralha espiritual”.
O nome da iniciativa faz referência a Neemias, personagem do Antigo Testamento que liderou a reconstrução dos muros de Jerusalém. Segundo o relato bíblico, a obra foi concluída em 52 dias, período reproduzido pela Universal na nova campanha.
Temas abordam família, governo e fake news
Para participar, os fiéis precisam se cadastrar em um aplicativo e cumprir as tarefas propostas. Entre os assuntos anunciados estão “guardiões da família”, “governantes contra o povo” e “sob o jugo de tiranos”.
O 45º dia da programação será dedicado às fake news, tema que aparece com frequência no discurso da Universal. A igreja afirma ser alvo recorrente de informações falsas e, ao longo dos últimos anos, publicou conteúdos questionando informações divulgadas pela imprensa sobre a instituição.
Um dos principais responsáveis pela mobilização é o bispo Alessandro Paschoall, ligado ao projeto Arimateia, iniciativa da Universal voltada à conscientização política. Em vídeo gravado em Jerusalém, ele também resgatou críticas às medidas adotadas durante a pandemia de Covid-19.
Universal tem histórico de atuação política
Durante a apresentação da campanha, Paschoall criticou o fechamento de templos religiosos durante a pandemia e afirmou que o episódio representou uma violação de direitos. As medidas de restrição foram adotadas por estados e municípios para tentar reduzir a transmissão do coronavírus em locais de aglomeração.
A Universal possui histórico de participação em eleições e de apoio a candidatos e partidos ligados à denominação. O Republicanos, por exemplo, reúne diversos políticos associados à igreja, entre eles parlamentares de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Na Câmara dos Deputados, a legenda conta com nomes ligados à Universal, como Marcos Pereira, Milton Vieira, Maria Rosas, Márcio Marinho, Gilberto Abramo, Julio Cesar Ribeiro, Rosangela Gomes, Luis Carlos Gomes, Jorge Braz e Marcelo Crivella.
Relação com eleições mudou ao longo dos anos
A relação da Universal com diferentes grupos políticos também passou por mudanças ao longo das décadas. A denominação teve histórico de oposição ao PT e a Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 1989 e 1994, mas posteriormente se aproximou do petista e apoiou sua candidatura em 2002.
A igreja também apoiou Dilma Rousseff e participou da defesa da candidatura petista diante de rumores sobre possíveis restrições a igrejas. Naquele período, o então PRB, posteriormente transformado no Republicanos, ganhou espaço na estrutura do governo federal.
Em 2018, Edir Macedo declarou apoio a Jair Bolsonaro, em um movimento que marcou uma nova aproximação da Universal com posições de oposição ao PT. Depois da vitória de Lula sobre Bolsonaro em 2022, Macedo adotou um discurso de conciliação e chegou a defender que os fiéis deixassem as disputas políticas para trás.
Campanha não configura irregularidade eleitoral, diz especialista
Segundo o advogado eleitoral Alberto Rollo, a realização do Desafio de Neemias, isoladamente, não representa violação da legislação eleitoral. Ele avaliou que uma campanha de oração ou mobilização religiosa pode ser realizada por igrejas, desde que não ultrapasse os limites estabelecidos pela legislação.
As igrejas não podem, por exemplo, financiar candidaturas, ceder espaços para reuniões políticas ou doar materiais de campanha. Também é proibido pedir explicitamente votos dentro dos templos.
A presença de candidatos em igrejas não é proibida, desde que não haja pedido de voto. A Universal foi procurada para comentar a nova campanha, mas não havia se manifestado até a publicação da reportagem original.
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