Redes sociais, crianças e algoritmos. Até onde vai a responsabilidade das plataformas sobre aquilo que acontece no ambiente digital? Do negacionismo das vacinas à guerra. Quando interesses políticos falam mais alto, quem protege as crianças?
Um terremoto devasta a Colômbia e coloca à prova o novo governo de extrema direita. A tragédia também revela os riscos de transformar até a emergência em disputa ideológica. Em tempos de autoritarismo, guerras e intolerância, a Magnifica Humanitas propõe outro caminho: é possível construir uma civilização do amor?
Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.
Curtir, compartilhar, comentar, deslizar a tela. Para milhões de crianças e adolescentes, as redes sociais fazem parte da rotina desde cedo. Mas diante dos impactos dessas plataformas, uma pergunta começa a mobilizar governos ao redor do mundo: até onde é possível proteger crianças e adolescentes sem simplesmente afastá-los do mundo digital?
Na França, a resposta veio através de uma medida direta. O país proibiu o acesso às redes sociais para menores de 15 anos. Cada vez mais os países buscam proteger crianças e adolescentes dos riscos do ambiente digital. A Austrália foi o primeiro país a tomar essa medida: desde de dezembro de 2025, menores de 16 anos estão proibidos de acessar certas redes sociais.
A decisão coloca os franceses no centro de uma discussão que atravessa diferentes países: estabelecer uma idade mínima é suficiente para proteger crianças e adolescentes?
O educador digital Juan García, acredita que não. Para ele, as proibições generalizadas simplificam uma realidade muito mais complexa. “Resumindo, não. As evidências até o momento mostram que proibições massivas e sistemáticas não são eficazes para resolver diversos problemas supostamente associados ao uso de redes sociais por adolescentes”, explica.
Entretanto, a pergunta ganha mais força quando olhamos para acontecimentos recentes no Brasil. Nesta semana, a Agência Nacional de Proteção de Dados, a ANPD, determinou a suspensão temporária das transmissões ao vivo do Discord no país. A agência alega o descumprimento do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente.
A decisão ocorreu após a repercussão de um caso que chocou o país. Uma adolescente de 13 anos, de Naviraí, no Mato Grosso do Sul, foi induzida ao suicídio durante uma transmissão ao vivo dentro do Discord, em julho de 2026.
Mas as redes sociais não representam riscos apenas para os mais jovens. Elas também se tornam instrumentos de manipulação quando utilizadas politicamente e podem ser ainda mais perigosas quando a desinformação encontra adultos dispostos a acreditar e compartilhar conteúdos falsos. E quando essas fake news chegam à saúde, as consequências ultrapassam as telas.
No Brasil, conhecemos muito bem esse fenômeno durante a pandemia de Covid-19, quando informações falsas sobre vacinas ganharam força nas redes sociais e foram incorporadas ao discurso político.
Durante o governo Bolsonaro, o negacionismo científico deixou de circular apenas em grupos antivacina e passou a encontrar espaço no próprio governo. Em uma live de 2021, por exemplo, Jair Bolsonaro associou falsamente a vacinação contra a Covid-19 ao desenvolvimento da aids. A transmissão foi removida pelo Facebook, Instagram e YouTube.
Cinco anos depois, o Brasil ajuda a lembrar que o negacionismo científico não é apenas uma discussão abstrata sobre aquilo em que cada pessoa escolhe acreditar. Quando ele chega às políticas públicas, as consequências podem atingir justamente aqueles que não podem decidir por conta própria: as crianças.
A América Latina sofreu com mais um terremoto nesta semana. Com a magnitude 7,4, este foi o pior abalo sísmico que atingiu a Colômbia neste século. O principal epicentro do tremor foi detectado em Chocó, uma região assolada pela pobreza há décadas, cuja maioria dos moradores vivem abaixo da linha da pobreza.
De acordo com os dados mais recentes divulgados pelo governo colombiano, foram registradas 281 mortes, mais de 3,9 mil pessoas ficaram feridas e ainda há 379 desaparecidos. Os estados de Valle del Cauca, Risaralda, Quindío e Caldas também foram afetados causando mortes e destruição. A crise forçou o governo colombiano a declarar estado de emergência nacional.
O desastre natural ainda acentuou os problemas do início da administração do recém-eleito presidente Abelardo de la Espriella. Conforme reportagem do jornal El Diário, um mês antes da posse, ele havia suspendido abruptamente a transição de cargos ministeriais com o governo cessante de Gustavo Petro, interrompendo toda a troca de informações institucionais com o governo anterior. A justificativa dada por De la Espriella foi de que Petro não reconheceu sua vitória eleitoral.
Essa crise causa preocupação de especialistas, já que a as pautas de gestão de desastres e a agenda climática têm ocupado um lugar marginal na agenda do novo governo desde a campanha eleitoral. Para o jornalista, cientista político e historiador, Camilo Sánchez, a explicação é política e ideológica: “Como parte de seu programa de cortes em ministérios e órgãos públicos, em um plano de austeridade e redução do Estado, o presidente havia incluído a eliminação da Unidade Nacional de Gestão de Riscos de Desastres, a UNGRD, e sua fusão com outra entidade.Três dias depois, a realidade desfez completamente essa ideia”, afirma Sánchez.
Em meio a um mundo gerido por algoritmos, líderes que atacam constantemente os direitos humanos e utilizam Deus para governar com autoritarismo, a encíclica Magnifica Humanitas volta ao centro da nossa atenção.
A professora de Letras, Anita Prati, publicou uma reflexão no site Settimana News sobre o documento elaborado pelo Papa Leão XIV. Para ela, o título apresenta um significado muito maior e foi algo que ficou longe dos debates.
“Humanitas é uma das palavras mais belas e importantes que nos chegam da cultura latina, uma daquelas palavras que, sozinhas, desvelam mundos, permitindo-nos captar a intensidade e a profundidade de um pensamento que chega até nós como uma corrente fecunda que atravessa séculos de história”
Anita também traz uma contextualização histórica da palavra humanitas. Ela revela que a criação da palavra foi de Públio Terêncio Afro, um dos primeiros grandes protagonistas da literatura latina, de origem africana e que provavelmente era uma pessoa escravizada e posteriormente liberta. A partir disso, ele entrega a frase que é considerada fundadora do conceito de humanitas:
Homo sum, humani nihil a me alienum puto. Traduzindo: sou um ser humano: não considero estranho nada do que diz respeito aos seres humanos.
O IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível no canal do IHU no YouTube e no Spotify.