O fator humano é central, mas em Ceuta acabou sendo ofuscado. Artigo de Luca Attanasio

Foto: Anadolu Ajansi

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14 Agosto 2026

No acontecimento das últimas semanas registrado como a "crise de Ceuta", parece que aquele fator humano, que deveria nortear toda a questão, acabou se perdendo. Se não foi perdido totalmente, o mérito cabe em grande parte às ONGs e, sobretudo, à Igreja que com palavras claras e ações concretas, trouxe de volta à superfície aquela qualidade indispensável sempre que pessoas estão envolvidas: a humanidade.

O artigo é de Luca Attanasio,  publicado por L’Osservatore Romano, 12-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

No rescaldo da chegada em massa, o Padre Fernando Redondo Pavón, Diretor do Departamento de Migrações da Conferência Episcopal Espanhola, após ter expressado profunda preocupação quanto a eventuais aspectos criminosos por trás desses movimentos de massa, logo reiterou a necessidade de fornecer respostas fundamentadas no direito e que respeitem a dignidade humana, declarando: "Os migrantes não podem ser objeto de uma cínica exploração política".

"A dignidade não conhece fronteiras, e ninguém a perde simplesmente por atravessar uma", ecoou o padre colombiano scalabriniano Carlos Andrés Méndez, que atua na Diocese de Cádis e Ceuta há dois anos, em comentários divulgados pela revista Vida Nueva, acrescentando: "O respeito fundamental que todo ser humano merece, como filho de Deus, é um direito inalienável que não pode ser negado por motivo algum". Méndez trabalha na Casa de Acolhimento Santo Antônio, um centro de assistência a migrantes que se define como "uma mão amiga que acolhe a todos como uma família, por meio de assistência, capacitação e integração".

A Diocese de Cádis-Ceuta, além disso, colocou suas instalações de acolhimento à disposição das autoridades e dos migrantes, enquanto as paróquias da cidade de Ceuta destinaram as ofertas recolhidas durante as celebrações eucarísticas para o apoio e o acompanhamento das pessoas que chegaram à cidade. "A reação da Igreja é motivo de grande orgulho", afirma o Padre Enrique Bayo Mata, comboniano, diretor da revista missionária espanhola Mundo Negro. "Vemos irmãos e irmãs, antes de tratados e fronteiras.

A prioridade é olhar para as pessoas que estão sofrendo, algo muito mais importante do que o espaço Schengen. Várias organizações católicas mobilizaram-se imediatamente para oferecer o máximo acolhimento possível às pessoas que voltavam, a Cáritas, os Scalabrinianos e a diocese fizeram todo o possível para ajudar. O centro Santo Antônio, administrado pelos padres scalabrinianos, tem capacidade máxima para 10 pessoas, mas atualmente abriga mais de 40. A Igreja colocou-se a serviço sem entrar nas questões políticas, mas focou inteiramente no acolhimento; o fator humano é o que mais importa”.

Entre as dezenas de milhares de migrantes que tentaram entrar em Ceuta, há um número enorme de menores, alguns pouco mais que crianças. Os acontecimentos em Ceuta são um exemplo flagrante de especulação sobre as necessidades e os sonhos dos jovens do Sul Global, criando expectativas e alimentando o desejo de empreender aventuras que se revelam extremamente perigosas, quando não fatais.

"Nos dias que se seguiram ao desembarque em Ceuta e até o momento, falei com muitos garotos", explica Soraya Aybar Laafou, jornalista e colaboradora da revista Mundo Negro, que está fazendo a cobertura em Ceuta. "Alguns têm 13 ou 14 anos, no máximo, 25. Em seus olhares e palavras, percebi profunda decepção e raiva, não pela forma como foram tratados (ninguém se queixou de maus-tratos), mas por terem sido enganados. Nas semanas anteriores, circularam nas redes sociais vídeos, mensagens e fotos, tudo gerados por IA, pintando um quadro completamente distorcido da Europa e dos europeus. Eles sentiram-se cruelmente enganados."

A jornalista relata também ter ouvido muitos jovens, no momento do retorno, dizendo àqueles que estavam do outro lado da fronteira e se preparavam para partir: "Não vão! É tudo mentira; parem enquanto ainda podem não arrisquem a vida por nada". Centenas de migrantes permanecem no lado espanhol de Ceuta - relata ela - alguns já estavam lá aguardando o processamento de seus pedidos de asilo, há muitos sudaneses, mas também palestinos, iemenitas, sírios além dos marroquinos. Um dos maiores problemas é que eles não têm mais os telefones, pois foram perdidos durante a travessia ou não conseguem recarregar as baterias; consequentemente, não podem se comunicar com suas famílias, que não sabem se eles estão entre os mortos”.

Segundo Aybar Laafou, “existe uma grande questão de desequilíbrio na base de tudo isso. Um trabalho no lado espanhol de Ceuta”, explica, “paga oito vezes mais do que no lado marroquino, um desnível enorme e paradoxal, visto que os dois locais estão separados por poucos quilômetros. É a desigualdade que existe entre África e Europa, e essa é a causa de tudo. A menos que planejemos resolver, pelo menos em parte, essa desigualdade, nivelar a desproporção, a migração continuará sendo sempre uma questão urgente. Um mundo mais justo e fraterno é a solução, certamente não a militarização das fronteiras e dos Estados”.

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