10 Agosto 2026
O presidente De la Espriella promete um novo país construído sobre a disciplina, a família e a religião.
A reportagem é de Maria Martín, publicada por El País, 09-08-2026.
Nunca antes tantos colombianos haviam se benzidos com tanta frequência, e nunca todos ao mesmo tempo. Nesta sexta-feira, enquanto Abelardo de la Espriella fazia seu primeiro discurso como presidente, seus apoiadores vibravam de emoção e oravam simultaneamente. No centro de imprensa montado em Cali, vários dos presentes — mais colaboradores de veículos de mídia cristãos, canais alinhados ao novo governo ou ativistas pró-vida do que jornalistas — preferiram se benzer diante da tela em vez de fazer anotações. "Amém", "isto é um milagre", "oh, mas veja que lindo", sussurravam, enquanto o presidente prometia uma nova era de "ordem, liberdade e autoridade".
Desde sexta-feira, a Colômbia embarcou em um experimento político que promete um novo resultado com ingredientes já bastante familiares. Logo em suas primeiras palavras, De la Espriella deixou claro qual será o princípio norteador de seu governo: Deus. E quem executará suas decisões: os militares. Ele também identificou sua inspiração: os Estados Unidos. Seus apoiadores, tanto da velha quanto da nova direita, estão amplificando as enormes expectativas geradas por essa decisão, enquanto a esquerda se horroriza com o que interpreta como um retorno ao passado. Alguns veem progresso, outros, retrocesso.
O novo presidente, que venceu a eleição ao se apresentar como um outsider, promete impor o trumpismo ao país, substituir as negociações de paz por tiroteios e erradicar outro problema endêmico na região: a corrupção. Ele chama isso de "A Pátria Milagrosa".
Em apenas algumas horas como presidente, De la Espriella reconheceu a soberania de Marrocos sobre o Saara Ocidental, transferiu prisioneiros envolvidos nos diálogos com o governo, anunciou a designação de várias organizações como "terroristas" para dar ao governo mais margem de manobra para ações militares, prometeu eliminar o imposto sobre a riqueza pago pelos cidadãos mais ricos, dar espaço à iniciativa privada, acabar com a alegada doutrinação nas escolas e congelar imediatamente os gastos públicos. "Precisamos colocar a nossa casa em ordem", disse ele.
A cerimônia de posse foi dividida em dois atos, sem um único deslize. Tudo foi planejado para transmitir mensagens. No auditório, entre 2.500 pessoas e 10 chefes de Estado, De la Espriella mal pronunciou quatro palavras — "Firmes por la Patria" — antes de ceder o púlpito a um rabino, um pastor evangélico, um padre e um bispo católico, um após o outro.
A segunda cerimônia, aquela que realmente importava para ele, aconteceu em um batalhão militar: lá, ele proferiu sua mensagem sobre a luta contra o crime, a promessa de um novo país como se fosse o primeiro a tentar, e o compromisso de travar a mesma guerra que vem se gestando há anos em todo o mundo: desafiar a narrativa da esquerda. "Meu governo travará a batalha cultural para recuperar o valor da família, do mérito, da disciplina, do respeito à lei, do amor à pátria, da fé em Deus e da responsabilidade individual", disse ele antes de percorrer as tropas a bordo de um veículo militar.
O presidente chegou ao poder por menos de um ponto percentual, longe da vitória esmagadora que esperava, e insistiu que governará para todos os colombianos. "Ninguém será perseguido por pensar diferente, nem privilegiado por apoiar o governo", disse ele, enquanto a esquerda reduzia drasticamente os protestos convocados contra ele em diversas cidades, protestos que tiveram pouco impacto. Resta saber como De la Espriella se sairá em um país dividido quase ao meio. E como governará não apenas para aqueles que jamais votariam nele, mas também para aqueles que "jamais" votariam, historicamente desprezados pela elite do país.
As trincheiras já começaram a ser cavadas. O Salvação Nacional, partido que apoiou sua candidatura e estreia com um bloco de quatro congressistas, escolheu como uma de suas primeiras ações apoiar um projeto de emenda constitucional para proteger a vida "desde a concepção". Eles têm como objetivo reverter a descriminalização do aborto, confirmada pelo Tribunal Constitucional em 2022. É o mesmo roteiro que governos de direita — Brasil, El Salvador, Argentina, Estados Unidos — têm ressuscitado em outros países.
Seu gabinete também oferece algumas pistas. Há paridade entre homens e mulheres, mas nenhuma voz afro-colombiana, indígena ou camponesa — justamente as vozes que Gustavo Petro tornou visíveis. E seus principais ministros são os mesmos de sempre, figuras que vários analistas descrevem como um retorno ao governo de Iván Duque, mas com um verniz mais moderno. O Ministério da Fazenda, por exemplo, está nas mãos da família Gómez, descendentes diretos de Laureano Gómez, um símbolo histórico da direita conservadora. "Quando não há uma única voz afro-colombiana, indígena ou camponesa nesse gabinete, o que milhões de colombianos interpretam é que eles estão, mais uma vez, invisíveis", alertou Luis Gilberto Murillo, o primeiro e único ex-ministro das Relações Exteriores afro-colombiano do país. "Eles estão aplicando a mesma fórmula antiga que não funcionou", criticou.
Apesar das promessas de um futuro promissor, o novo governo está preso ao passado. Pelo menos em sua retórica, as figuras citadas eram rostos familiares da direita colombiana dos últimos 50 anos, a mesma direita que governou o país durante a maior parte de sua história. O presidente, que prometeu romper com o establishment, elogiou Álvaro Uribe por sua gestão da segurança — a mesma política que deixou pelo menos 7.837 civis mortos pelo Exército e apresentados como guerrilheiros mortos em combate para inflar os números — e Álvaro Gómez Hurtado, o histórico líder conservador assassinado em 1995, crime reconhecido pelas FARC.
Meticuloso e astuto, tudo indica que De la Espriella controlará a mensagem, como fez durante sua campanha eleitoral. "O marketing é tão importante quanto os resultados", reiterou seu estrategista e amigo Carlos Suárez há alguns dias.
Por ora, seu relacionamento com a mídia será no estilo de Donald Trump e muito diferente do modelo Petro, no qual o presidente ditava as regras compulsivamente a partir de sua conta X, mas todos os seus ministros eram bastante acessíveis aos jornalistas.
O governo De la Espriella terá um porta-voz oficial e limitará as aparições públicas de seus subordinados. "Nosso objetivo é alcançar tudo o que queremos para a Pátria Milagrosa, e os jornalistas não terão tanto acesso", afirmou a diretora de comunicação do presidente, María Fernanda Sandoval. "Mas enviaremos constantemente comunicados de imprensa, imagens e vídeos de tudo o que está acontecendo." Por enquanto, está funcionando. Enquanto Petro desapareceu abruptamente da agenda política, o novo presidente e todas as suas mensagens, símbolos e promessas já monopolizam as conversas.
Apenas algumas horas depois da imagem de De la Espriella, com sua barba impecavelmente aparada e a faixa presidencial sobre o ombro direito, viralizar, os Estados Unidos fizeram um anúncio importante. O Departamento de Estado ofereceu um pacote de US$ 1 bilhão para apoiar a nova estratégia de segurança: erradicação da coca, guerra contra as drogas e o narcotráfico, e a participação da Colômbia no Escudo das Américas. Uma combinação perfeita para o papel que Washington já havia reservado para ele.
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