81 anos de Hiroshima e Nagasaki: os fantasmas do nosso tempo. Destaques da Semana no IHUCast

Arte: IHU

Por: Lucas Schardong e Mônica Lima | 08 Agosto 2026

81 anos atrás, o mundo presenciou um dos maiores horrores da sua história: bombas nucleares foram jogadas pelos EUA em Hiroshima e Nagasaki. Neste episódio, rememoramos uma tragédia que deixa lições e um medo contínuo. O fascismo digital presente nas guerras contemporâneas. Até quando permitiremos que a tecnologia seja um instrumento de guerra e não uma ferramenta de libertação?

O “medo do outro” é um sentimento instrumentalizado por diversas nações como ferramentas de controle e manipulação. O que explica a crise migratória em Ceuta? Diante das tempestades, somos convidados a levantar as velas, observar o horizonte e reorientar a rota. Como utilizar o medo à nosso favor, em direção à esperança?

Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.

81 anos de Hiroshima e Nagasaki

Às 8 horas e 15 minutos da manhã de 6 de agosto de 1945, Hiroshima conheceu uma luz que ninguém deveria voltar a ver. Era uma bomba de urânio explodindo sobre uma cidade habitada. Cerca de 80 mil pessoas morreram imediatamente e dezenas de milhares morreriam depois, vítimas das queimaduras, dos ferimentos e da radiação.

Três dias depois, em 9 de agosto, às 11 horas e 2 minutos, Nagasaki sofreria o mesmo destino. Oitenta e um anos depois, Hiroshima e Nagasaki deixaram de ser apenas cidades. Tornaram-se um alerta permanente sobre aquilo que a humanidade é capaz de fazer contra si mesma.

Ontem, exatamente no mesmo horário do ataque de 1945, o tempo voltou a parar em Hiroshima. Como acontece todos os dias, o Sino da Paz voltou a tocar no exato instante da explosão.

Mas, desta vez, acompanhado por uma cerimônia que reuniu sobreviventes, autoridades e representantes de dezenas de países. Durante um minuto, a cidade permaneceu em silêncio. Um silêncio que não celebra apenas os mortos de 1945. Ele recorda também uma pergunta que continua ecoando: aprendemos alguma coisa com Hiroshima e Nagasaki?

Fascismo digital

Oitenta e um anos atrás, a energia nuclear expôs um paradigma da humanidade: a mesma tecnologia que impressionou por sua potencialidade, foi utilizada como instrumento de guerra. E ela provoca medo até os dias de hoje.

Oito décadas depois, esse paradigma se repete, mas dessa vez sob novas formas. A inteligência artificial enquanto ferramenta de apoio ao ser humano, pode oferecer inúmeras possibilidades. Drones poderiam entregar medicamentos de emergência em locais de difícil acesso, por exemplo.

Na prática, mais uma vez, a tecnologia é usada como um instrumento de guerra e potencializador do medo. Novamente, quem sofre com maior intensidade são os mais vulneráveis. O artigo do jornalista e historiador indiano, Vijay Prashad, publicado por Contexto Y Acción, revela uma das faces mais cruéis da guerra.

Em fevereiro deste ano, um míssil atingiu uma escola em Minab, no Irã, matando 156 pessoas, sendo 120 crianças em idade escolar, algo que o governo iraniano qualificou na época como um “crime flagrante”. As Nações Unidas classificaram o ataque como “uma grave violação do direito humanitário”.

Vijay Prashad destaca como nesse caso, e em muitos outros, que acontece um apagamento histórico das crianças que foram mortas e também a falta de empatia dos donos das big techs: “Os nomes das crianças assassinadas não circularam pelos centros de poder global com a mesma força que os nomes de generais, sistemas de armas e plataformas tecnológicas. Os iranianos mortos permanecem em grande parte anônimos para aqueles que debatem o futuro da inteligência artificial (IA), que foi usada pelos Estados Unidos — conforme se descobriu — neste ataque”

Crise migratória em Ceuta

O “medo do outro” é um sentimento instrumentalizado por diversas nações como ferramentas de controle e manipulação. Em um mundo globalizado, isso também ocorre através dos processos migratórios e a propagação da imagem do imigrante como um inimigo a ser combatido.

Na última sexta-feira, dia 31 de julho, cerca de 70 mil migrantes saíram de Marrocos para o enclave de Ceuta, no Norte de África, tudo isso durante um período de 24 horas. O número representa mais de 70% da população local, que tem cerca de 85 mil pessoas.

Ceuta é uma cidade autônoma da Espanha e faz fronteira com o Marrocos. O território está sob administração da Espanha e integra a União Europeia. Desse modo, a região é utilizada como uma porta de entrada da África para o continente europeu. Em momentos de pressão migratória, essa região se torna bastante sensível e vítima de focos recorrentes de tensão diplomática.

A população atravessou mar e terra para chegar ao destino, mas não sem enfrentar diversos percalços. De acordo com reportagem da Deutsche Welle, a crise deixou ao menos 72 mortos. A maior parte das vítimas morreu afogada ao tentar contornar a barreira marítima que separa Marrocos de Ceuta e alcançar as praias do território espanhol. Famílias procuram parentes desaparecidos, enquanto adolescentes seguem desacompanhados na cidade espanhola.

De acordo com o governo espanhol, 70 mil dos 72 mil imigrantes que chegaram ao enclave na última semana já deixaram o local. Para os que ficaram, falta abrigo e alimento. A reportagem da Deutsche Welle indica que os que permaneceram enfrentam condições de vida precárias, com dificuldade de acesso a abrigo, alimentação, água e saneamento. Entre eles estão cerca de mil menores desprotegidos, segundo a organização Save the Children.

Uma reportagem publicada por RFI aponta para a continuidade do drama dos menores em Ceuta. O presidente da cidade autônoma, Juan Jesús Vivas, relata que os centros de acolhimento registram 2.600% acima da capacidade, com cerca de 1.100 crianças e adolescentes marroquinos que permanecem no local.

Medo e Esperança

Falamos sobre guerras que se expandem, países que voltam a investir em armas nucleares, uma corrida global pelo rearmamento e inteligências artificiais que desafiam os próprios limites de controle.

Em um cenário como esse, o medo parece deixar de ser uma emoção passageira. Ele passa a organizar a política, a economia e até a maneira como imaginamos o futuro. Mas será que o medo precisa ter a última palavra?

O jesuíta Adroaldo Palaoro propõe uma reflexão que parte justamente dessa pergunta, comentando o Evangelho da travessia do mar, em Mateus. No texto bíblico, Jesus manda os discípulos entrarem na barca e atravessarem para o outro lado, sozinhos, em meio à noite. No meio da travessia, o vento contrário e as ondas os atormentam, e é nesse momento de pavor que Jesus aparece caminhando sobre as águas.

E se trocarmos os fantasmas do texto bíblico pelos fantasmas de 2026, a lista quase se escreve sozinha: o fantasma da guerra que nunca acaba, o fantasma da inteligência artificial que ninguém mais controla, o fantasma do botão nuclear que volta a ser mencionado como se fosse uma ferramenta de negociação normal.

Adroaldo Palaoro afirma que, diante das tempestades, somos convidados a levantar as velas, observar o horizonte e reorientar a rota. Não se trata de negar os perigos. Nem de fechar os olhos para as guerras ou para os riscos da tecnologia. Trata-se de não permitir que o medo determine o rumo da travessia. Porque uma humanidade governada pelo medo dificilmente conseguirá construir a paz que tanto procura.

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IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível no canal do IHU no YouTube e no Spotify.