Compaixão e partilha: verdadeiro sentido do seguimento de Jesus. Comentário de Adroaldo Palaoro

Foto: canva

30 Julho 2026

A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o evangelho do 18º Domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico, que corresponde ao texto bíblico de Mateus 14,13-21.

Eis o texto.

“Jesus viu uma grande multidão e encheu-se de compaixão...”; “dai-lhes vós mesmos de comer!”

No evangelho deste domingo, Jesus é apresentado como compaixão, saúde e alimento. Mas, tudo nasce da compaixão, ou seja, a comoção diante do sofrimento dos outros, que se traduz em ajuda eficaz. Não se trata de ter uma “piedade” passageira, nem de um mero movimento voluntarista, mas de um sentimento muito mais profundo que nasce da sintonia com a situação dos outros: quando calamos o “zunzum” dos pensamentos e o vai-e-vém dos sentimentos, emerge a “quietude” que somos e aparece a “essência” do nosso ser, que se mostra como Amor e Compaixão.

A compaixão não é um atributo que apresenta uma solução mágica e simples aos problemas, mas sim amplia nossa visão da realidade e enraíza nossas decisões e nosso compromisso com a justiça. Pois a compaixão é algo mais que uma reação diante do sofrimento alheio: ela impulsiona à abertura e permite nos colocar no lugar ou na perspectiva do outro, hábito saudável no campo das relações humanas.

Este foi o sentimento que balizou e deu a tônica no exercício da atividade de Jesus: a compaixão.

A compaixão, que tomou conta do seu coração, era fruto do corajoso deslocamento para a margem, para a necessidade do outro. Os Evangelhos destacam os profundos sentimentos de humanidade, compaixão, empatia, ternura e solidariedade misericordiosa de Jesus. Porque amou e foi amado, o coração d’Ele experimentou a alegria e a tristeza, a felicidade e a saudade, a ternura e o sofrimento...

Assim era o Seu coração: feito com as fibras da fortaleza e da coragem, entrelaçadas com as fibras da compaixão e da ternura. Através de seus sentimentos Jesus revelou o rosto humano e misericordioso do Pai.

A compaixão e a partilha são a chave de toda identificação com Jesus. É preciso sempre insistir nisto, porque é o tema central de todo o evangelho; no entanto, a maioria dos cristãos esquece essa realidade e se fecha em ritualismos estéreis, mortificações e penitências sem sentido, em devoções pessoais que não a move a viver numa atitude de abertura aos dramas dos outros.

Em vez de unir as forças para eliminar em sua raiz a fome no mundo, só vem à mente fechar-se no próprio “bem-estar egoísta”, levantando barreiras cada vez mais degradantes e desumanizadoras. Em nome de que Deus despede-se as pessoas para que afundem em sua miséria? Onde estão os seguidores e seguidoras de Jesus? Por que a compaixão está cada vez mais ausente dos ambientes ditos cristãos?

Por isso, o ponto focal do relato deste domingo está nas palavras de Jesus: “dai-lhes vós mesmos de comer!” Provocados por Ele, os discípulos se dão conta do problema e pensam na lógica “comercial”. Como tantas vezes dizemos ou pensamos, também eles disseram entre si: “o problema é deles, que resolvam!”

Jesus, no entanto, rompe com toda lógica egoica e lhes propõe uma solução muito mais ousada.

Os discípulos lhe informam que “só temos aqui cinco pães e dois peixes”. Não importa. O pouco basta quando há partilha com generosidade.

Jesus mobilizou seus discípulos para que fossem mediadores efetivos frente à fome do povo. É como se Ele dissesse a eles: “mobilizem e despertem as pessoas para que coloquem em comum os pães e peixes que trouxeram e eu os abençoarei! Que ninguém coma sozinho, pois o alimento é dom do Pai para todos! Vivei em contínua partilha se quiserem ser meus discípulos!”

Ele continua pedindo a seus seguidores para que se ofereçam a serem agentes da solidariedade, oferecendo o que são e tudo (o pouco) que tem. Então, a ração de três pessoas (cinco pães e dois peixes), se converte no incentivo para que todos tragam de sua pobreza e todo o povo de Deus possa ser alimentado, que é o que simboliza os “doze cestos”.

“Quanto o pobre acredita no pobre, já poderemos cantar: Liberdade!” (canto salvadorenho).

A fome é um problema demasiadamente sério para vivermos despreocupados e deixar que cada um procure resolver sua situação. Não é o momento de nos separar, mas de unir nossas forças e ativar a criatividade para partilhar entre todos o pouco que cada um traz, sem excluir ninguém.

A cena do evangelho deste domingo não deveria continuar sendo chamado “multiplicação dos pães”, e sim, “partilha, divisão, distribuição dos pães”. O que aconteceu não foi um “milagre”, como o entendemos normalmente. Em nenhum dos relatos se diz que os pães e os peixe se “multiplicaram”.

É preciso ter em conta que, naquele tempo, quando as pessoas partiam em viagem, não podiam se reabastecer pelo caminho; por isso, iam provisionadas de alimento para não passarem fome. Os apóstolos tinham “cinco pães e dois peixes”, o necessário para passar o dia. O encontro com Jesus e seu apelo – “dai-lhes vós mesmos de comer” - impulsionou a todos para que colocassem em comum o que tinham levado; aqui estamos diante de um exemplo de resposta à generosidade que Jesus pregava. Esse é o verdadeiro “milagre”: a partilha solidária. E onde há partilha não há mais fome.

Onde há partilha, aí também se visibiliza a “bênção” de Deus, pois tudo procede d’Ele, tudo é dom para todos. Uma das experiências mais plenificantes de Israel é a de reconhecer que a benção de Deus lhe concede vida, fecundidade, proteção. Dizer “bênção” é dizer presente, dom gratuito. A raiz hebraica do verbo “bendizer” significa poder de fertilidade ou de crescimento (cf. Deut. 28,1-14).

A benção é o termo que condensa a riqueza e a originalidade da tradição na qual Jesus aprendeu a orar.

Ao dizer, “bendito seja Deus, Senhor do Universo...”, Jesus reconhece o Pai como origem de tudo o que existe, reconhece o mundo como um dom que deve ser acolhido e reconhece os outros como irmãos com os quais procura participar do único banquete da vida.

“Bendizer significa revelar a última identidade das coisas, sua profunda interioridade, que consiste em fazer entrar em relação com o Criador” (C. di Sante). Os objetos, a atividade, o trabalho, as relações... podem se tornar opacos e ser ocasião de desencontro; mas a benção faz com que a realidade se torne translúcida: ilumina nossa visão e a faz chegar até Deus, que é sua origem.

Abençoar é também o verbo central da Eucaristia e a medula de nossa vida. Quando dizemos “eucaristia” estamos recolhendo toda a herança de benção, de louvor e de agradecimento transbordante que percorre todo o Antigo Testamento e se revela de maneira plena em Jesus.

A eucaristia, que nasceu nesse contexto de benção, é para nós a ocasião de converter em benção nossa vida inteira, de trazer até ela todo o peso de nosso agradecimento, tudo o que em nós e em toda a Criação é chamado a se converter em canção, em “um hino à sua gloriosa generosidade” (Ef. 1,14).

Portanto, a mensagem do evangelho deste domingo é muito profunda. Cada vez que partilhamos o pão, partilhamos a vida e Deus, que é Vida-Amor, se faz presente. Não há outra maneira de nos identificar com Deus e de mover os outros a se aproximarem d’Ele. A Eucaristia é memória desta atitude de Jesus que se parte e se reparte. Ao partir-se e repartir-se, fez presente o Deus que é dom total. O pão que verdadeiramente alimenta não é o pão que comemos, mas o pão que se doa.

A mais importante cerimônia de nosso culto cristão está estruturada como uma refeição. O fato do nosso seguimento de Jesus desembocar numa refeição, não nos deve estranhar. O verdadeiramente importante é que nessa refeição todo aquele que tenha algo a trazer, colabora, e o que não tem nada, se sinta acolhido fraternalmente.

A referência à eucaristia pode nos oferecer uma chave importante sobre o nosso modo de celebrá-la: não tanto como o “santo sacrifício da Missa”, mas como momento festivo e prazeroso de encontro e partilha, de onde brota a compaixão ativa.

Para meditar na oração:

O mais nobre e o mais original que há em todo ser humano não é o que ele sabe ou o que tem, mas a qualidade de sua sensibilidade, que se expressa naquilo com o qual se sintoniza.

Na vivência cristã, ter uma sensibilidade com os mais excluídos e sofredores é o verdadeiramente extraordinário, fora do normal, chamativo... E a Eucaristia é celebração primordial para o despertar desta sensibilidade solidária.

- “Dai-lhes vós mesmos de comer!”: como este apelo de Jesus ressoa em seu coração diante do drama da fome, da violência e da concentração dos dons nas mãos de poucos?

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