Chernobyl, 40 anos depois. Amnésia e reconstrução da memória. Artigo de Alfredo Pena-Vega

Foto: Oleksandra Bardash/Unsplash

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08 Agosto 2026

“Como podemos conviver com um perigo que não podemos ver, cheirar ou tocar? A questão atômica levanta questões fundamentais que transcendem o domínio exclusivo da física nuclear: a relação com a morte, a negação como estratégia de sobrevivência psicológica entre os jovens e a reconfiguração radical da relação com a natureza imposta permanentemente às populações afetadas pela contaminação radioativa”. A reflexão é de Alfredo Pena-Vega, antropólogo, em artigo publicado por Les Temps Qui Restent, 01-08-2026. A tradução é do Cepat.

“Time is the most real aspect of our perception of the world.
Everything that is true and real is so at a moment of time,
which is a succession of moments”.
(Lee Smolin, Time Reborn)

Um desastre sempre atual

As páginas a seguir são o resultado de mais de 20 anos de pesquisa realizada entre 1996 e 2017 nos territórios contaminados da Bielorrússia e da Ucrânia, a propósito das consequências humanas e sociais do desastre nuclear de Chernobyl. Essa pesquisa foi encerrada em maio de 2017, após o início das hostilidades armadas iniciadas pela Rússia – da qual a Bielorrússia era aliada; essa situação impossibilitou a continuidade das observações de campo em condições aceitáveis de segurança e independência científica. Seguiram-se duas missões de campo, em 2016 e 2017, à região de Fukushima.

Por que revisitar esses dois desastres nucleares da era moderna agora? A resposta parece óbvia: 40 anos após Chernobyl, o aniversário explica tudo. Mas a comemoração não deve negligenciar o que foi parte essencial desse evento, a saber, a negação.

Pois o esquecimento, ativamente cultivado, acompanhou o desastre de Chernobyl desde o seu início. O evento pertence, na escala das temporalidades históricas, ao que Fernand Braudel chamou de “tempo de curta duração” – o da ruptura súbita. A proximidade temporal com o acidente, pouco mais de uma geração, não permitiu a formação de uma memória coletiva, devido à vontade deliberada das autoridades pós-soviéticas e, posteriormente, de seus sucessores institucionais, de incutir nas mentes das populações afetadas não a lembrança, mas a amnésia. A gestão da crise nuclear na França também foi inicialmente caracterizada por uma lógica da negação e do silêncio oficial, revelando as tensões entre o imperativo da transparência e a razão de Estado.

Os eventos recentes serviram como um lembrete contundente da realidade trágica e contínua desse desastre. A invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, viu tropas russas ocuparem a zona de exclusão de Chernobyl, espalhando partículas radioativas à medida que seus veículos blindados se deslocavam pelo terreno contaminado. Soma-se a isso os ataques com drones contra o arco de aço que protege o sarcófago da usina – uma estrutura cuja integridade é essencial para conter materiais radioativos – e os combates em torno da usina nuclear de Zaporizhzhia, que reacenderam os temores de outro desastre nuclear na Europa. Esses desdobramentos geopolíticos servem como um lembrete contundente de que a catástrofe de Chernobyl não é coisa do passado: ela permanece uma realidade sanitária, ambiental e geopolítica atual, passível de ser reativada a qualquer momento pela irresponsabilidade humana.

O contexto: minha primeira experiência de campo nos territórios contaminados de Chernobyl, na região de Stolyn, a sudeste de Pinsk, ocorreu em junho de 1996. Essa experiência foi financiada pela Comissão Europeia como parte do programa de pesquisa em proteção radiológica da Euratom. Realizado em parceria com o Ministério de Situações de Emergência da Bielorrússia, este estudo marcou uma mudança de uma abordagem primordialmente técnica e científica para a proteção radiológica, para uma que integra as dimensões sociais, éticas e participativas da gestão pós-acidente.

Entre 1990 e 2000, a Euratom financiou inúmeros projetos focados nas consequências para a saúde a longo prazo, incluindo o projeto “Viabilidade de Estudos sobre os Efeitos na Saúde após o Acidente no Reator de Chernobyl”, coordenado pelo INSERM, que avaliou a viabilidade da implementação de estudos epidemiológicos em larga escala. Contudo, algumas questões permanecem sem resposta 40 anos após o acidente: por que a Euratom se interessou em compreender as consequências do acidente? Como explicar que esse programa epidemiológico não tenha se concretizado nas áreas contaminadas da Bielorrússia? Qual era o objetivo desses novos projetos e de sua investigação sobre a dimensão social dos acidentes nucleares? Diversos elementos fatuais, extraídos das nossas próprias observações, sugerem que o objetivo, sob o pretexto de uma “dimensão social e participativa” da gestão pós-desastre, era minimizar as consequências irreversíveis de Chernobyl. Foi essa constatação que nos levou, após essa experiência inicial (1996-1998), a formar uma equipe de pesquisa para dar continuidade à pesquisa, entre 1999 e 2017, nas áreas mais contaminadas do sudoeste de Gomel, na periferia da zona de exclusão, desta vez de forma totalmente independente da Euratom.

A questão sanitária, 40 anos depois

A história dessa tragédia – humana, ecológica, sanitária e socioeconômica – só adquiriu sua dimensão única como uma catástrofe sem precedentes vários anos após o ocorrido, quando cientistas bielorrussos independentes finalmente conseguiram mensurar sua verdadeira extensão, que as autoridades nacionais se esforçaram para minimizar com a cumplicidade ativa das organizações nucleares internacionais. (1) O trabalho de Yablokov, Nesterenko e Nesterenko (2009), baseado em milhares de fontes científicas anteriormente ignoradas ou ocultadas pelo lobby nuclear, revelou a extensão das patologias induzidas pela contaminação radioativa, principalmente o câncer de tireoide em crianças e adolescentes, mas também uma infinidade de distúrbios hematológicos, imunológicos e neurológicos. Diante dessa realidade, as populações dos territórios contaminados se viram em um estado de profunda desorientação, confrontadas com a imensidão de um desastre para o qual não existia nenhum parâmetro de comparação.

Apesar das repetidas garantias das autoridades e organizações internacionais, 40 anos após o acidente, famílias que vivem nas “zonas contaminadas” ainda temem os efeitos desastrosos que o contato com a natureza pode ter na saúde das crianças. Esses temores não são infundados. Alguns produtos florestais – frutos silvestres, cogumelos, caça – continuam sendo vetores diretos de contaminação interna, capazes de causar sérios problemas de saúde a longo prazo. O aumento de doenças entre os jovens atribuíveis ao consumo desses produtos naturais é um fato objetivamente documentado. Ao consumirem diariamente os chamados produtos “contaminados”, as crianças nas áreas afetadas ficam expostas ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares, leucemia e outros tipos de câncer. Até o momento, os níveis de becquerel por quilograma medidos nos corpos de milhares de crianças continuam a exceder as doses consideradas aceitáveis. Segundo Alexey Nesterenko (2), diretor do Instituto BELRAD, o limite de alerta é inferior a 20 Bq/kg. No entanto, em 2024, de 10.000 crianças atendidas em 60 escolas, 70% apresentavam níveis acima desse limite. Além disso, está comprovado que danos orgânicos podem ocorrer em níveis de 50 Bq/kg ou superiores. Esses dados demonstram a persistência da contaminação radioativa. A negação institucional também persiste: as autoridades bielorrussas, de fato, cortaram todo o apoio financeiro ao Instituto BELRAD desde 2001, privando assim as populações mais expostas de seu principal sistema independente de monitoramento e proteção da saúde; e certos “especialistas” ligados ao lobby nuclear continuam a descrever como patologia psicológica coletiva o que, na realidade, é uma resposta racional a uma situação de saúde altamente preocupante.

Diante dessa negação institucional, o antídoto não reside na narrativa ou na comemoração, mas na própria crise sanitária, obstinada e cumulativa: é a persistência documentada dessas doenças, ano após ano, que impede com maior eficácia o esquecimento. Pesquisadores independentes atestam a contaminação interna, observada e documentada durante mais de 40 anos. Até hoje, os níveis de becquerel por quilograma medidos nos corpos de milhares de crianças continuam a exceder as doses consideradas aceitáveis. Essas constatações, estabelecidas por meio da análise de registros individuais do Hospital de Narovlya entre 2007 e 2010, encontram uma confirmação impressionante a longo prazo. A incidência de câncer de tireoide em crianças e adolescentes, que subiu de 0,09 para 0,57-0,63 por 100.000 na década de 1990 – um aumento de seis a sete vezes – não foi um pico isolado ligado aos primeiros anos após o acidente. Em entrevista concedida em 2018, o vice-diretor do Hospital de Narovlya confirmou a continuidade dessa tendência quase 30 anos após o desastre, mencionando explicitamente “um aumento nas doenças, particularmente no número de casos de câncer de tireoide”. Essa constatação do hospital local também está alinhada com dados independentes coletados pelo centro de pesquisa BELRAD, cujo fundador, Vassili Nesterenko, destaca que, ao contrário de uma interpretação otimista baseada unicamente no decaimento físico do iodo-131 de curta duração, mais de 50% do césio-137 depositado em 1986 ainda estava presente no solo em 2018 – invalidando, assim, qualquer conclusão de retorno à normalidade baseada apenas na passagem do tempo.

No 40º aniversário do desastre, a Associação Americana para Pesquisa do Câncer (2026) confirmou, desta vez em escala internacional, a persistência dessa mesma dinâmica: as crianças expostas em 1986 desenvolveram carcinomas papilíferos da tireoide em taxas significativamente altas, e a pesquisa sobre o câncer agora se concentra no estudo dos efeitos transgeracionais do desastre, além das populações diretamente expostas. A combinação dessas fontes – dados hospitalares longitudinais de Narovlya, confirmação institucional local, medições de campo independentes e síntese internacional de pesquisas oncológicas 40 anos depois – delineia, portanto, uma trajetória sanitária contínua, desde o nível distrital até o da comunidade científica internacional, amplamente ausente das avaliações que, desde 1986, continuaram a limitar a avaliação do impacto do acidente apenas aos primeiros anos após o desastre.

A catástrofe, o tempo interrompido

Uma das primeiras perguntas que nos fizemos ao nos depararmos com a realidade dos territórios contaminados – nas aldeias localizadas no sudeste da Bielorrússia, distrito de Stolyn, região de Brest, especialmente na aldeia de Olmany, bem como, mais tarde, nas aldeias localizadas no sudoeste, distrito de Narowlya, região de Gomel – foi esta: como crianças, adolescentes e adultos poderiam lidar com algo tão enigmático quanto o invisível? Pela imersão, queríamos entender como, nessas paisagens de florestas, pântanos, lagos e rios, esse mal invisível – a contaminação radioativa – havia se enraizado no âmago da vida cotidiana. Observamos que essa vida se construía em um mundo de destruição silenciosa (patologias decorrentes da contaminação radioativa, um ambiente devastado invisivelmente); a experiência carregava consigo uma relação de vida e morte, mas desta vez considerada dentro da irreversibilidade do tempo…

Esse ponto de partida transmitia algo ontológico em si mesmo: nos deparávamos com uma imersão onde era praticamente impossível separar, por um lado, o ser, a vida, as percepções, as emoções e a imaginação, e, por outro, o evento e suas incertezas – estas últimas tornando-se um elemento estruturante da própria realidade do desastre nuclear de Chernobyl. Assim, enfrentávamos um grande desafio: esforçar-nos para tornar tangível, legível, uma realidade que colocasse aqueles que a vivenciam nessa situação sem precedentes – viver sob a espada de Dâmocles da contaminação e seus componentes radioativos (césio-137, estrôncio-90), ou recusar-se a aceitar essa situação por meio da negação.

Num primeiro momento, concentramo-nos em compreender a vida cotidiana em toda a sua profundidade, priorizando as narrativas individuais e coletivas numa tentativa de reconstruir a “trama da contaminação”. Por meio desses relatos, aprendemos sobre os sentimentos de uma população mal informada, desiludida e perplexa diante de uma tragédia cujas consequências incalculáveis não conseguiam compreender. Tratava-se de relatos da “vida”, mas também relatos do “cotidiano”, que naturalmente continham lacunas, erros, contradições e, às vezes, omissões.

Numa segunda etapa, foi necessário, portanto, forjar um quadro explicativo, inicialmente baseado no significado das palavras, dos sinais e da linguagem – a construção do significado –, justapondo-o ao passado (a vida de antes) e ao presente, nas memórias dos habitantes da aldeia de Olmany. Observamos, assim, que as narrativas do presente estão ancoradas numa pluralidade de tempos: um antes, um durante e um depois do acidente de Chernobyl. Este “jogo existencial” apresentou-nos um desafio significativo: como apreender, através da multidimensionalidade do tempo, os modos de representação e compreensão de uma realidade que transcende qualquer história estritamente individual ou coletiva e que, consequentemente, requer múltiplos quadros de referência?

O tempo não é uma abstração filosófica: constitui, segundo o físico Lee Smolin, “o aspecto mais real da nossa percepção do mundo” (3). Durante os 20 anos que passamos na Bielorrússia, investigamos a profunda perturbação do tempo resultante da amnésia induzida politicamente em torno da catástrofe, aliada às suas consequências muito reais. Como crianças, adolescentes e suas famílias compreendem a invisibilidade e a irreversibilidade da contaminação radioativa, e como constroem – ou lutam para construir – sua relação com um futuro fundamentalmente incerto? Trata-se de estabelecer uma espécie de fenomenologia do invisível: como vivenciar um perigo que não pode ser visto, sentido ou ouvido, mas que está indelevelmente inscrito em corpos, territórios e memórias coletivas?

Nossas observações de campo revelaram uma dificuldade recorrente nas populações afetadas em articular os três modos da temporalidade humana: devido à persistência de mentiras institucionais e à ausência de uma narrativa coletiva confiável, uma compreensão falha do passado – “O que realmente aconteceu?”; uma atitude de negação em relação ao presente – “Não quero ouvir falar nada disso, não me interessa” –, funcionando como um mecanismo de defesa psicológica contra uma realidade percebida como insuportável; e, finalmente, o apagamento de qualquer projeção para o futuro – “de qualquer forma, não há nada que possamos fazer” –, o que reflete uma profunda resignação existencial, a antítese de qualquer possibilidade de mobilização coletiva. A temporalidade produzida pela conjunção do desastre radioativo, das mentiras institucionais organizadas e do abandono deliberado da população pelas autoridades é uma temporalidade deslocada. A disseminação invisível do átomo no cotidiano e o processo de desintegração radioativa inerente a ele, obedecendo à sua própria temporalidade física, introduzem no tecido da vida ordinária uma temporalidade estranha, incontrolável e irredutível, que desloca internamente a relação com o tempo das populações afetadas.

Também em Fukushima…

Quinze anos após o acidente nuclear de Fukushima-Daiichi, vemos as mesmas atitudes no Japão: a minimização da tragédia pelas autoridades, que inicialmente alegaram que não havia perigo de radioatividade e que os medos estavam relacionados a questões psicológicas: “Se você estiver muito preocupado e estressado, ficará psicologicamente doente; em Chernobyl, havia medo entre a população no início porque as pessoas não tinham informações precisas”, disseram as autoridades japonesas. Assim como em Chernobyl, em Fukushima, o átomo cristaliza todas as angústias (totalmente justificadas) das famílias, conscientes do perigo real que seus filhos enfrentarão a longo prazo.

Alguns meses após o acidente, na região de Fukushima, um quadro mais claro começa a surgir, graças a uma infinidade de depoimentos. (4) Por exemplo: “A paisagem parecia congelada; era como se ninguém tivesse tocado em nada. Tudo estava em ruínas, como no dia seguinte a um bombardeio. O que para mim era um monte de entulho e destroços havia sido para outros um lugar de vida. Eu começava a entender que o desastre nuclear era a origem de uma catástrofe de longo prazo, causando danos ainda maiores do que terremotos e tsunamis”. (5) Nessas palavras, revela-se a ruptura radical provocada pelo desastre nuclear na relação com o lugar, o tempo e a memória coletiva. A consciência de estar imerso em um espaço – a “zona contaminada” – onde o desconhecido reina absoluto desperta angústias que só podem ser superadas por uma compreensão clara e compartilhada da situação. Ao espaço conhecido, o do mundo vivido e familiar, soma-se o perigo imaginado de uma ameaça interna – o desconhecido da contaminação radioativa do corpo – que se combina a uma ameaça externa: a dos radionuclídeos suspensos e dispersos pelo ambiente. As crianças e os adolescentes se veem sob uma dupla ameaça: a invisibilidade do átomo e a ignorância de seus efeitos incertos. Quando as pessoas conseguem se manifestar, emerge um sentimento amplamente compartilhado entre as populações afetadas: o desejo de transgredir as proibições – de retornar às zonas proibidas, de consumir os produtos da floresta, de retomar uma vida normal apesar de tudo.

Essa tentação de negar a realidade é precisamente o que encontramos, de certa forma, nas declarações de alguns cientistas japoneses. Um deles, entrevistado em novembro de 2012, afirmou: “Felizmente, a quantidade de radiação recebida hoje pelos habitantes da região de Fukushima não é tão alta [...]. Os números exibidos nas telas de monitoramento indicam níveis entre 0,3 e 0,7 microsieverts por hora. A radiação externa, especialmente aquela causada pela emissão de raios gama do césio-137, é obviamente mais significativa em Fukushima do que a radiação interna causada por alimentos contaminados [...]. Muitos testes e análises são realizados para medir essa contaminação dos alimentos e, no fim das contas, os resultados não são muito altos. Felizmente, isso é muito diferente de Chernobyl”. (6) Mas será que é realmente tão diferente? Os dados das próprias autoridades japonesas indicam que 37% das crianças na região de Fukushima apresentam sintomas de problemas na tireoide – uma proporção maior do que a observada em Chernobyl nos primeiros anos após o acidente. Esse dado exige muita cautela em relação a declarações tranquilizadoras.

Testemunhos japoneses

A comparação entre Chernobyl e Fukushima não é um exercício acadêmico. Ela é feita, espontânea e lucidamente, por aqueles que trabalham no local. Isso fica evidente na entrevista que realizamos em Nikko, em abril de 2026, com um médico japonês que atua na região de Fukushima e que realizou diversas missões de observação nos territórios contaminados da Bielorrússia. (7)

Em relação à temporalidade do desastre, esse médico afirma que as consequências de Fukushima para a saúde não podem ser reduzidas às suas manifestações mais visíveis e imediatamente documentadas. “É um problema de longo prazo”, declara. Essa afirmação, de um médico que lida diariamente com as consequências do desastre para a saúde, reflete perfeitamente o que nossos 20 anos de observação longitudinal na Bielorrússia nos permitiram documentar: o desastre nuclear não termina simplesmente; ele deixa sua marca a longo prazo, nos corpos, nos territórios e nas memórias coletivas.

Em relação à natureza do estresse vivenciado pelas populações deslocadas, o médico identifica como fator patológico central não apenas o medo do câncer, mas também a ruptura com o local onde se vivia: “Talvez eles queiram retornar à sua aldeia. Mas não podem”. Ele menciona o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), a insônia e os pesadelos recorrentes ligados à violência inicial do desastre: trata-se da profunda ruptura da relação com o tempo e o espaço que já mencionei.

Em relação à contaminação alimentar persistente, as palavras deste médico ecoam nossas próprias observações de campo: “É preciso ter muito cuidado com os alimentos. E isso é impossível porque a população é muito pobre. As pessoas que não têm dinheiro vão para a floresta”. Essa realidade – a pobreza como fator agravante da exposição à radiação – é uma dimensão fundamental da injustiça social produzida pelos desastres nucleares, muitas vezes obscurecida pela retórica oficial da segurança. Quanto à diferença entre as duas catástrofes em sua gestão institucional, o próprio médico afirma claramente: “No Japão, eles sabem que a situação é grave. Mas não em Chernobyl, porque estavam se preparando para o Dia do Trabalhador”. A entrevista conclui: “Em Chernobyl, o presidente disse, um ano atrás, que estava tudo bem”. Essa declaração concisa, por si só, resume 40 anos de amnésia institucional – e serve como um lembrete de que o esquecimento de uma tragédia nunca é simplesmente o resultado da passagem do tempo: é sempre, também, produto da vontade política.

Em Fukushima, um dos pontos mais significativos, segundo nossas observações, é a crise de confiança nas autoridades. Um dos habitantes de Fukushima com quem conversamos descreveu essa situação como uma “patologia institucional”. Segundo ele, “90% dos habitantes não confiam” nas informações oficiais sobre a contaminação. Os sistemas de monitoramento implementados atingem apenas 10% da população exposta, enquanto os 90% restantes permanecem no escuro. Diante dessa realidade, esse entrevistado defende uma inversão de estratégia: em vez de esperar que as pessoas venham aos centros de monitoramento, é necessário “ir até as pessoas”; essa é precisamente a metodologia de imersão residencial que adotamos nos territórios contaminados da Bielorrússia.

Em termos clínicos, certos sintomas convergem entre as crianças do desastre de Chernobyl e as crianças de Fukushima: dores de cabeça recorrentes, fadiga crônica, distúrbios do sono, dificuldade de concentração na escola e problemas de tireoide e gastrointestinais nas crianças. Uma das pessoas que entrevistamos em Fukushima fez uma observação antropologicamente crucial: “Elas sentem a radioatividade”. Esta é a inscrição somática de uma contaminação invisível: o corpo registra o que a instituição nega, e essa percepção difusa e indefinível, não objetivada por instrumentos comuns, constitui precisamente o cerne do que chamamos de fenomenologia do invisível. Esta frase, “Elas sentem a radioatividade”, ressoa com um testemunho que coletamos muitos anos antes nos territórios contaminados da Bielorrússia – como se, através das fronteiras e das décadas, os corpos das populações expostas estivessem desenvolvendo a mesma linguagem somática diante do invisível. Um guarda florestal que encontramos durante nossas missões de campo confidenciou que era capaz de identificar áreas de alta contaminação radioativa não por meio de instrumentos de medição, mas por meio da percepção física direta: ao atravessar essas áreas florestais, ele sentia a força da radioatividade. Seu corpo, exposto por anos à contaminação crônica, havia desenvolvido uma forma de conhecimento somático do território, um mapa íntimo do invisível, inscrito em sua carne. Separados por um intervalo de 40 anos e milhares de quilômetros, o guarda florestal bielorrusso e as crianças de Fukushima estão, portanto, ligados pelo mesmo conhecimento somático do invisível.

Em termos políticos, nosso entrevistado aborda sem rodeios a mentira patrocinada pelo Estado que acompanhou a candidatura de Tóquio aos Jogos Olímpicos: a declaração de que “a usina está sob controle” e “a situação é segura” é percebida por quem está no local como uma repetição do mecanismo soviético de minimização do risco. A tentação de normalizar institucionalmente o desastre, já documentada em Chernobyl, está sendo replicada em Fukushima de maneiras estruturalmente idênticas.

Por fim, sobre a questão da contaminação dos alimentos, ele descreve uma prática que também observamos na Bielorrússia: a comercialização de produtos contaminados sob denominações de origem que ocultam sua verdadeira procedência. “Na Bielorrússia, vendem mirtilos na beira da estrada”, observa. “No Japão também. Pêssegos de Fukushima são vendidos em outros lugares, bem longe”. Esse comércio do invisível constitui mais uma forma de amnésia organizada – desta vez a do mercado, que prolonga e amplifica aquela do Estado.

Por uma fenomenologia do invisível: nas fronteiras da contradição

Tim Ingold demonstrou que os seres humanos estão sempre inseridos em seu ambiente por meio da prática, do movimento e da habitação. (8) Essa relação de habitação – esse dwelling por meio da qual as populações dos territórios contaminados teceram, ao longo de gerações, um vínculo orgânico com suas florestas, seus rios, seus solos e seus animais – é precisamente o que a contaminação radioativa destrói por dentro. Cogumelos, frutos silvestres, caça, leite e água subterrânea deixam de ser os componentes familiares de um ambiente habitado: tornam-se vetores invisíveis de um perigo que o corpo sente sem conseguir nomeá-lo e que a ciência oficial se esforça para minimizar.

É precisamente nesse ponto de invisibilidade que a comparação entre Chernobyl e Fukushima revela uma diferença fundamental, muitas vezes negligenciada. Em Fukushima, o desastre deixou cicatrizes materiais marcantes: paisagens devastadas, infraestruturas destruídas, vestígios tangíveis da violência do evento. Em Chernobyl, a situação é muito mais sutil e insidiosa: não havia cicatrizes visíveis na natureza. A paisagem permaneceu intocada; as florestas, os campos e as aldeias parecem inalterados. É essa ausência de vestígios perceptíveis que constitui a armadilha antropológica específica de Chernobyl: um perigo onipresente e imperceptível.

Como podemos conviver com um perigo que não podemos ver, cheirar ou tocar? A questão atômica levanta questões fundamentais que transcendem o domínio exclusivo da física nuclear: a relação com a morte, a negação como estratégia de sobrevivência psicológica entre os jovens e a reconfiguração radical da relação com a natureza imposta permanentemente às populações afetadas pela contaminação radioativa.

Na literatura dedicada ao impacto da contaminação radioativa, as crianças – em termos de sua representação e compreensão do desastre – são as que mais frequentemente estão ausentes. O debate se concentra na percepção dos adultos, seja imaginando as crianças incapazes de compreender, seja omitindo-se de lhes contar toda a verdade: que o átomo pode matar se não formos cuidadosos. No entanto, são elas as mais diretamente afetadas.

Na Bielorrússia, as escolas têm arquivado sistematicamente todos os exames médicos realizados em crianças desde o acidente. Os resultados clínicos comprovam que esse núcleo invisível, ativo tanto em doses baixas quanto altas, causa danos irreversíveis nas crianças. Em uma das regiões onde realizamos um dos nossos primeiros estudos – a vila de Olmany, na região de Stolyn – 80% dos alunos da escola local sofreram diretamente os efeitos da contaminação: a presença de estrôncio-90 nos alimentos, de césio-137 no leite, na forragem e em frutas silvestres e – ainda mais grave – vestígios de plutônio-239 na água subterrânea. Sabe-se que apenas um milionésimo de grama de plutônio-239 fixado nos ossos pode causar a morte. No entanto, nas áreas mais contaminadas de Chernobyl e Fukushima, a presença desse tipo de radionuclídeo está objetivamente documentada – mas é minimizada ou ignorada pelas autoridades. Da mesma forma, em certos distritos da província de Fukushima, as autoridades detectaram a presença de plutônio em 10 locais distintos. Os dados divulgados indicam uma atividade máxima de Pu-238 medida em 11 Bq/m² na vila de Namie, no limite norte da zona de exclusão de 20 quilômetros ao redor do complexo de Fukushima Daiichi.

Nem a pedagogia, nem o diagnóstico clínico, nem os professores, nem o corpo médico, sozinhos, conseguem compreender plenamente o significado desses dados: é necessária uma abordagem antropológica e fenomenológica, capaz de transcender as categorias comuns de percepção e de conhecimento.

Compreender os medos e os antimedos

Uma dupla invisibilidade se impõe às populações de territórios contaminados: a do próprio átomo e a de um futuro radicalmente imprevisível, onde a radioatividade se combina com a devastação. Essas duas invisibilidades se reforçam mutuamente, gerando uma forma de angústia existencial sem um objeto atribuível, sem um horizonte temporal definível, sem qualquer possibilidade de resolução. Tudo acontece como se, parafraseando o antropólogo Marc Augé, “o futuro não pudesse mais ser imaginado senão como a memória de um desastre do qual agora temos apenas uma premonição” (9): nos territórios contaminados de Chernobyl, assim como em Fukushima, o futuro não é mais um horizonte aberto; ele é habitado pela certeza de um mal cujas manifestações plenas ainda estão por vir.

Como as crianças estão amplamente ausentes da literatura sobre desastres nucleares, foi a elas que direcionamos nossa atenção especial. As crianças e os adolescentes que observamos desenvolvem estratégias cognitivas e comportamentais para lidar com essa invisibilidade ameaçadora. Alguns se recusam a reconhecê-lo – um mecanismo de negação –, enquanto outros desenvolvem uma hipervigilância ansiosa que permeia seu cotidiano. A maioria oscila entre esses dois polos, buscando um equilíbrio precário entre a normalização necessária para a vida cotidiana e o reconhecimento do perigo. Esse estado de ambivalência permanente constitui, em si, uma forma de sofrimento existencial e social cujos efeitos sobre o desenvolvimento cognitivo e emocional das gerações mais jovens permanecem em grande parte inexplorados.

Como explicar a onipresença do medo nessa população, um medo gerado pela invisibilidade, pela duração extrema e pelo perigo da contaminação radioativa? Como torná-lo compreensível? Como captar, nas crianças, esse medo – ou essa angústia – gerado por um futuro incerto em suas dimensões social, médica e existencial? Elas têm consciência disso? E como abordar os comportamentos e estados emocionais das crianças que vivem em áreas contaminadas, em comparação com aquelas que vivem em áreas não afetadas pela contaminação? Elas reconhecem o que sentem? Negam? Querem – conseguem – falar sobre isso? Deveríamos modificar nossa abordagem explicativa com elas para priorizar narrativas de suas experiências vividas, testemunhos situados e expressões gráficas e orais por meio das quais talvez seja possível dar forma ao informe?

Diante dessas questões, rejeitamos deliberadamente uma abordagem baseada unicamente na transmissão de conhecimento sobre os perigos da radioatividade. Em vez disso, optamos por construir um sistema de linguagem que nos permita falar sobre o desastre – ou seja, uma estrutura metodológica e relacional onde a palavra da criança não é solicitada para verificar o que ela sabe, mas para reconhecer o que ela vivencia, sente e imagina. A abordagem baseada na fala que desenvolvemos em colaboração com o Dr. Michel Grappe consiste não em explicar o perigo para a criança, mas em fornecer a ela as condições para dar forma – linguística, gráfica e fisicamente – ao que ela percebe, sente e pressente no “mundo da contaminação”, sem que os adultos predeterminem seu significado.

Para conviver com átomos radioativos, os alunos em áreas contaminadas se deparam diariamente com situações que não conseguem compreender totalmente. Quando falam sobre isso, raramente usam o termo “contaminação”. Preferem a palavra “infortúnio” – um termo da linguagem cotidiana que traduz uma experiência vivida em vez de uma realidade objetiva. O mundo deles é de fato um mundo de contaminação, mas é um mundo sem rosto: um perigo sem forma, cor ou cheiro. Crianças e adolescentes tentam não identificar – ou mesmo negar – essa realidade ilusória. “De onde eu moro, não dá para ver a natureza contaminada”, diz um deles. Será que a invisibilidade do estado de contaminação lhes permite obscurecer sua realidade objetiva? Se sim, isso significa que as práticas de coleta – mirtilos, frutas silvestres, diversos cogumelos – desempenham o papel de um “escudo protetor” ou de um antimedo na economia psíquica e social das populações afetadas: um comportamento que não nega o perigo por ignorância, mas que escolhe deliberadamente não reconhecê-lo para continuar a viver.

Mas esse desejo de negar o perigo das áreas contaminadas não impede que as crianças experimentem uma ambivalência fundamental. Na mesma consciência coexistem uma negação do perigo e uma sede de conhecimento sobre o que está acontecendo nesses “territórios de infortúnio” – uma curiosidade aguçada, às vezes fascinada, às vezes ansiosa, sobre os mistérios do átomo. Esse fascínio fatal constitui, paradoxalmente, um recurso pedagógico e antropológico: sinaliza que a criança não é indiferente, que está esperando que alguém lhe ofereça um espaço para fazer suas perguntas.

O trabalho que realizamos com diversas escolas não teve a intenção de tornar a contaminação “aceitável” por meio de um discurso de resignação. A frase ouvida repetidamente nesse contexto resume, com uma lucidez desarmante, o impasse dessa perspectiva: “Diante desse infortúnio, o que vocês esperam que façamos... medir a radioatividade – e depois?” Essa pergunta, feita pelos próprios jovens, destaca a inadequação fundamental de uma abordagem de educação para o risco que se limita à medição sem abordar o significado.

Por meio de suas palavras, ajudamos as crianças a questionar sua nova relação com a natureza – não percebê-la como uma natureza condenada e definitivamente perdida, mas construir gradualmente uma relação renovada, lúcida e habitável com um ambiente irrevogavelmente transformado. Pois este é o desafio fundamental da educação e da antropologia: não negar a realidade da contaminação, nem nos resignarmos a ela em impotência, mas aprender a pensar, habitar e transmitir um mundo alterado.

O tempo que resta… reviver a memória

Gostaria de concluir aqui sobre a questão do tempo – e mais especificamente sobre a questão da memória entre as gerações mais jovens. Pois é talvez aí que reside o desafio mais fundamental e duradouro de qualquer catástrofe nuclear.

A minimização dos riscos da energia nuclear – impulsionada pelo dogma da energia nuclear e pelos interesses estruturais da indústria que a sustenta – faz parte daquilo que Günther Anders, em Le Temps de la fin (10), descreveu como a cegueira estrutural das sociedades modernas em relação às consequências de suas próprias criações tecnológicas. Essa minimização não se restringe aos círculos científicos e institucionais; ela também opera no âmbito da memória coletiva, reduzindo a catástrofe a um incidente localizado, apagando progressivamente os testemunhos dos sobreviventes e privando as gerações mais jovens das narrativas que lhes permitiriam compreender o que seus corpos e suas comunidades sofreram.

Não foi como psicólogos que a questão da memória se apresentou a nós em campo, mas, como psicólogos, nos interessamos, por meio da observação e do questionamento direto, pelo que acontece na mente de crianças e adolescentes quando são convidados a refletir sobre o passado. A partir de que as crianças constroem suas memórias? Elas conseguem se lembrar de algo – e reviver um passado de forma consistente – quando, estritamente falando, não têm um passado próprio anterior à catástrofe? Como podem as mentes dessas crianças localizar a memória de um evento que não vivenciaram diretamente, ou do qual tiveram consciência apenas em fragmentos, em trechos, através dos silêncios e das palavras dos outros? A narrativa do acidente – transmitida por pais, professores, mídia, instituições – pode estruturar e guiar as memórias das crianças, mas não pode substituir uma experiência vivida que, para muitas delas, simplesmente não existe, ou existe apenas como uma presença difusa e indistinta.

Rapidamente percebemos que, se quiséssemos trabalhar com suas memórias, primeiro precisaríamos aceitar uma verdade fundamental: a maioria dessas crianças possuía apenas lembranças vagas, fragmentadas e, muitas vezes, indiretas. Portanto, não precisávamos evocar uma memória preexistente, mas empreender um processo de rememoração ativa, para ajudá-las a reviver gradualmente sua relação com o antigo território, auxiliando-as a forjar conexões entre o passado e o presente. É nesse espaço – entre a memória transmitida e a memória vivida, entre os relatos dos adultos e a experiência única da criança – que reside, em última análise, a possibilidade ou a impossibilidade de construir uma relação com um mundo habitável em um território irrevogavelmente transformado pela bomba atômica.

Por meio de uma abordagem baseada na representação gráfica, buscamos compreender a consciência individual das crianças e dos adolescentes e como ela estrutura seu cotidiano nas áreas contaminadas. Pedimos a essas crianças que desenhassem suas memórias do desastre.

 

Desenho criado por um menino de 12 anos sobre a tragédia em Chernobyl (Foto: Reprodução/Les Temps qui restent)

Este desenho foi criado por um menino de 12 anos, aluno da escola rural de Kirov, no distrito de Narowlya, uma das áreas mais contaminadas da Bielorrússia. (11) Nascido após o desastre, este menino retratou espontaneamente o vazamento de átomos radioativos da usina nuclear de Chernobyl, sua dispersão na atmosfera e sua migração para o norte sob a influência dos ventos predominantes, resultando na contaminação de um vasto território. O desenho revela que este adolescente compreendeu a tragédia de forma fundamentalmente precisa. A memória do desastre não é transmitida apenas por palavras: ela é reconstruída, reinterpretada e reencarnada em cada geração, uma memória de um passado que não vivenciaram, mas cuja marca irreversível permanece em seus corpos e em sua terra.

Embora o tema fosse difícil de compreender – e talvez justamente por isso –, é notável que todas as crianças envolvidas tenham expressado espontaneamente, por meio do desenho, sua angústia diante da onipresença do átomo. Nas obras de arte reunidas, vemos que a criança nos oferece um fragmento de sua imaginação baseado em uma história transmitida por um adulto. Portanto, não é a catástrofe em sua forma devastadora, abstrata e tecnológica que a criança representa, mas sim, em fragmentos, a catástrofe tal como lhe foi relatada, filtrada pelo olhar, pelas palavras e pelos silêncios do adulto que a contou, e que ela reapropriou através das categorias de sua própria experiência vivida.

Esses filtros e substituições metafóricas revelam os processos de apagamento da memória e as táticas defensivas desenvolvidas pelas crianças diante do insuportável – sua maneira de desviar a ansiedade, deslocando-a para um registro simbólico mais habitável do que a realidade crua da contaminação. Voltemos ao Japão. Um depoimento coletado de um trabalhador de proteção radiológica em Fukushima também relata essa realidade da memória construída no silêncio e na vida cotidiana. Este homem nos conta que, durante uma visita à escola em Oyama, as crianças falaram espontaneamente com ele sobre o pai doente, a relação delas com a comida – “ele comia grama” – e a falta de orientações claras sobre o que era seguro comer. “Então, consegui entender os sentimentos delas”, diz o entrevistado. A terapia da fala que praticamos na Bielorrússia nos ensinou justamente isso: não é a medição da radioatividade que nos dá acesso à realidade vivida pelas crianças, mas a escuta de suas palavras, seus silêncios, suas histórias fragmentadas. É nesses interstícios da vida cotidiana que se constrói, pouco a pouco, uma memória do desastre – uma memória que ainda não está totalmente formada, mas que já é uma memória vivida.

O que as crianças de Oyama vivenciam em 2026, as crianças de Olmany e Narowlya vivenciaram entre 1996 e 2017. Trinta anos separam essas duas experiências – e, no entanto, o mesmo processo está em curso: a construção silenciosa, incerta e dolorosa de uma relação com o mundo, na qual o perigo é onipresente, mas não nomeado.

Não concluindo…

Quarenta anos após o acidente de Chernobyl e 15 anos após o desastre de Fukushima, o que essas duas grandes catástrofes nucleares – as mais significativas na história da energia nuclear civil – nos ensinaram? Elas afetaram de forma semelhante os ecossistemas das regiões envolvidas: florestas, rios, solos agrícolas e vastos territórios habitados permanecem e permanecerão contaminados por diversos radionuclídeos por décadas, de acordo com dinâmicas não lineares e em grande parte imprevisíveis que desafiam as narrativas oficiais de uma suposta queda da radioatividade ao longo do tempo. E essas consequências de longo prazo têm sido sistematicamente minimizadas pelas autoridades e organizações nucleares internacionais.

Um segundo ponto de convergência entre esses dois desastres reside na tragédia humana da evacuação forçada das populações. Em ambos os casos, milhares de habitantes foram deslocados à força, arrancados de suas terras, seus lares e suas redes locais, em nome de um imperativo sanitário apresentado como indiscutível. Este é um paradoxo inerente à gestão institucional de desastres nucleares: dependendo do contexto, dos atores envolvidos e dos interesses políticos, o mesmo risco à saúde pode ser simultaneamente minimizado na esfera pública e usado como justificativa para intervenções coercitivas contra as populações.

Em Fukushima, essa situação se arrastou por vários anos em moradias temporárias, transformando o que deveria ser uma medida paliativa em uma forma permanente de deslocamento. O rompimento abrupto dos laços familiares, profissionais e de vizinhança enfraqueceu profundamente o tecido social das comunidades afetadas. (12) Essa perda, irreparável em muitos casos, constitui uma forma de violência social e antropológica que o discurso oficial muitas vezes obscureceu sob uma justificativa puramente sanitária.

Os promotores da indústria nuclear – os mercadores do átomo – alegam ter “aprendido as lições” de Chernobyl e Fukushima. Munidos dessa suposta lição, eles agora se mobilizam em favor de um renascimento nuclear, apresentado como um “verdadeiro setor do futuro” – essencial, dizem, para a transição energética e o combate às mudanças climáticas. Mas que futuro aguarda essas centenas de milhares de pessoas arrancadas de suas vidas? Que futuro existe – se é que existe algum – para esses milhares de jovens, agora adultos, que carregam em seus corpos as patologias irreversíveis causadas pela contaminação radioativa? A amnésia discutida aqui não é apenas institucional: é também econômica e ideológica, produzida por aqueles que têm mais a perder se a verdade sobre Chernobyl e Fukushima for totalmente reconhecida.

Na zona de exclusão da Bielorrússia – cerca de 96 localidades –, praticamente não resta nenhuma atividade humana organizada. No entanto, durante nossa última missão de campo, em maio de 2017, observamos que algumas casas abandonadas haviam sido reocupadas clandestinamente – habitadas por pessoas das antigas repúblicas soviéticas, sem recursos, sem alternativas, sem proteção. O que aconteceu com elas? Ninguém sabe. Ninguém, ao que parece, está perguntando.

Talvez seja esta a lição mais sombria destes 40 anos: não só Chernobyl e Fukushima ainda não revelaram todas as suas consequências, como existem, no próprio âmago destas zonas de silêncio, vidas humanas invisíveis sobre as quais ninguém fala, que ninguém acompanha – e cujo esquecimento constitui, em última análise, a forma mais radical de amnésia de uma tragédia.

Bibliografia

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Andreï Filine, Oublier Fukushima, s.l., Les Éditions du bout de la ville, 2012.

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Alfredo Pena-Vega, “Leben in einer Welt der Verbote. Eine Vergangenheit, die nicht vergeht”, Osteuropa, vol. 56, n° 4, 2006, p. 71–78.

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Jeremy Smith, “Une longue ombre sur Fukushima”, Nature, vol. 472, 7 avril 2011, p. 7.

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Alexey V. Yablokov, Vassili B. Nesterenko; Alexey V. Nesterenko, Chernobyl : Consequences of the Catastrophe for People and the Environment, New York, New York Academy of Sciences, 2009.

Notas

1. Pena-Vega, A., Tchernobyl, catastrophe écologique et tragédie humaine. Récit & Mémoire, Éditions Atlantique, 2016.

2. Enquanto finalizo estas páginas, recebo a notícia da morte de Alexey Nesterenko, em 27 de julho de 2026, vítima de câncer.

3. Smolin, L., Time Reborn, New York : Houghton Mifflin Harcourt.

4. Smith, J., “A long shadow over Fukushima”, Nature, 472, 7-04-2011.

5. Filine, A., Oublier Fukushima, p. 49. Les Éditions du bout de la ville, 2012.

6. Entrevista com Ikuro Anzai, nov. 2012.

7. Entrevista realizada em Nikko, Japão, em abril de 2026, com um médico que atua na região de Fukushima e que realizou diversas missões de observação nos territórios contaminados da Bielorrússia. A entrevista foi conduzida em francês. Os trechos citados foram extraídos da transcrição da gravação de áudio. Algumas passagens foram parafraseadas devido às limitações da transcrição automática.

8. The Perception of the Environment, 2000.

9. Augé, M. (1999). O sentido dos outros: atualidade da antropologia. Petrópolis, RJ: Vozes.

10. Anders, G. (2025). Le temps de la fin. Essais. Paris : L’Herne.

11. Alfredo Pena-Vega & Michel Grappe, Dans les yeux des enfants, la catastrophe de Tchernobyl. Imaginaire et construction d’une tragédie, Brasilia, Fundação Astrojildo Pereira, 2016.

12. A. Pena-Vega, Tchernobyl, catastrophe écologique et tragédie humaine. Récit & Mémoire. Éditions Atlantique, 2016.

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