EUA ameaçam revogar os vistos de empresários argentinos caso contratem a Huawei, provocando uma reação da China

Foto: Wikimedia Commons

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07 Agosto 2026

A embaixada dos EUA alega razões de segurança para justificar a pressão. O governo de Milei, aliado de Trump, não se pronunciou sobre o assunto.

A reportagem é de Javier Lorca, publicada por El País, 07-08-2026.

Um novo conflito diplomático entre os Estados Unidos e a China envolveu inesperadamente a Argentina. A disputa gira em torno da aquisição de tecnologia da empresa chinesa Huawei pela Cooperativa de Serviços Públicos e Comunitários (CALF), sediada na província patagônica de Neuquén. A Embaixada dos EUA em Buenos Aires pressionou a cooperativa a suspender as negociações para a compra de materiais da gigante asiática, argumentando que se tratava de uma questão de segurança estratégica, dada a influência da Huawei na região da formação de xisto de Vaca Muerta, e ameaçou os executivos da CALF com a revogação de seus vistos de entrada nos Estados Unidos. A Embaixada da China acusou Washington de "grave falta de respeito pela soberania de outros países".

A CALF é uma das maiores cooperativas da América Latina e uma das maiores distribuidoras de energia elétrica da Patagônia. Ela também fornece serviços de internet por fibra óptica e, nessa qualidade, iniciou negociações com a Huawei para a compra de materiais para a construção de um centro de dados em Neuquén, a mais de 1.100 quilômetros de Buenos Aires.

Segundo uma denúncia apresentada pela CALF à Embaixada dos EUA e ao Ministério das Relações Exteriores da Argentina, em 12 de julho, um de seus gestores começou a receber mensagens de um diplomata americano do departamento de assuntos econômicos: “Essas mensagens se referiam a uma política do governo dos Estados Unidos que restringiria ou revogaria vistos para executivos ligados à expansão das operações da Huawei na Argentina, expressavam a preocupação dos superiores do remetente com uma iniciativa desta cooperativa e questionavam se havia possibilidade de cancelamento ou se a CALF havia extrapolado seus limites ”, descreve um comunicado do conselho diretor da CALF, datado desta quarta-feira.

A rápida expansão global da Huawei tem sido motivo de preocupação para os EUA há anos, refletida em inúmeras medidas destinadas a combatê-la. No caso agora em discussão na Argentina, a embaixada americana admitiu à imprensa local a pressão exercida sobre a CALF (a empresa estatal argentina de energia elétrica). O embaixador Peter Lamelas declarou ao jornal Clarín que não se trata de interferência na "soberania argentina", mas sim de uma questão de segurança para os Estados Unidos, dado o risco que a entrada da empresa chinesa na rede de negócios relacionada a Vaca Muerta, o estratégico campo de petróleo e gás não convencional, representaria para seus interesses.

Nesta quinta-feira, o embaixador Lamelas enfatizou a autoridade de seu país para conceder entrada em seu território. “Cada país cuida da sua própria casa. Os Estados Unidos não são exceção. Decidir quem entra e quem não entra é responsabilidade de qualquer nação. Negar ou revogar um visto não é uma punição; é uma decisão para proteger a segurança e os interesses do país”, destacou em uma mensagem publicada em suas redes sociais.

A China respondeu com uma declaração contundente de sua missão diplomática em Buenos Aires, divulgada na noite de quarta-feira. “A Embaixada dos EUA na Argentina alimentou deliberadamente a 'teoria da ameaça chinesa' [...] e, ao revogar vistos, impediu flagrantemente uma empresa argentina de cooperar normalmente com a empresa chinesa Huawei. Essas práticas refletem plenamente a arrogância e o preconceito dos Estados Unidos, constituem uma grave falta de respeito pela soberania de outros países e minam seriamente os princípios do livre mercado”, afirmou a embaixada chinesa. Os EUA, concluiu, “sempre se vangloriaram de seus valores de democracia e liberdade, mas não toleram que uma empresa privada estrangeira sobreviva e se desenvolva normalmente em um terceiro país, o que expõe completamente sua natureza hipócrita”.

A CALF, por sua vez, exige que os EUA comuniquem formalmente “se houver alguma objeção técnica concreta” aos seus projetos. A cooperativa esclareceu que opera “uma rede de múltiplos fornecedores, escolhidos com base em critérios técnicos, comerciais e de serviço”, para a qual conta com “fornecedores norte-americanos, europeus e asiáticos”. Sobre a pressão exercida sobre seus gestores, a cooperativa alertou: “Uma coisa é um Estado decidir sobre vistos; outra bem diferente é essa possibilidade ser invocada informalmente, na frente de um funcionário, juntamente com a questão de se um projeto – que é de responsabilidade exclusiva dos órgãos diretivos de uma cooperativa argentina – pode ser cancelado”. Em carta enviada nesta quarta-feira, a cooperativa solicitou que o Ministério das Relações Exteriores da Argentina “tome as medidas necessárias” junto à Embaixada dos EUA para resolver a disputa.

Até o momento, o governo argentino não se posicionou sobre o assunto. O presidente de extrema-direita, Milei, mantém alinhamento total com o presidente dos EUA, Donald Trump, e aspira a se tornar sua principal figura na região. Seus recentes ataques contra o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que levaram ao maior conflito diplomático entre os dois países no coração do Mercosul, podem ser interpretados à luz desses interesses. Mas, ao mesmo tempo, a economia argentina tem um parceiro fundamental na China. Esta semana, o Banco Central da Argentina concordou com o Banco Popular da China em renovar um acordo de swap cambial de 130 bilhões de yuans, equivalente a aproximadamente US$ 19,5 bilhões. O swap permite ao país sul-americano fortalecer suas reservas monetárias, gerenciar a liquidez cambial e, assim, segundo o comunicado oficial, "apoiar a estabilidade financeira".

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