O país que precisa de imigrantes… e tem medo deles! Artigo de Evaristo Villar

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04 Agosto 2026

Algumas mentiras têm sucesso não porque sejam verdadeiras, mas porque são extraordinariamente úteis. A maior mentira do nosso tempo é apresentar a imigração como o maior problema da Europa quando, paradoxalmente, ela é uma das condições para a sua sobrevivência.

O artigo é de Evaristo Villar, professor de teologia, em artigo publicado por Religión Digital, 04-08-2026.

Eis o artigo.

A cerca e o espelho

O amanhecer chega a Ceuta. Do outro lado da cerca, um grupo de jovens espera em silêncio. Eles não gritam. Não carregam bandeiras. Apenas uma mochila, uma garrafa de água e aquela mistura de medo e esperança que os impulsiona a atravessar desertos, gangues criminosas e fronteiras. À sua frente, guardas, arame farpado e protocolos. Atrás deles, o Sahel, guerras esquecidas, fome, mudanças climáticas e a ausência de um futuro.

Entre esses dois mundos, existem apenas alguns metros. Mas esses metros agora separam duas maneiras de entender a civilização. Porque o verdadeiro muro não está em Ceuta. Está em nossas mentes.

A mentira útil

Algumas mentiras têm sucesso não porque sejam verdadeiras, mas porque são extraordinariamente úteis.

O maior problema do nosso tempo é apresentar a imigração como a maior questão da Europa quando, paradoxalmente, ela é uma das condições para a sua sobrevivência.

A Espanha está envelhecendo rapidamente. Tem uma das taxas de natalidade mais baixas do mundo. O Banco da Espanha, a OCDE e a Comissão Europeia concordam que a imigração é crucial para sustentar o crescimento econômico, o mercado de trabalho e, a médio prazo, o sistema público de previdência. Basta observar as colheitas em nossos campos, as estufas de Almería, os hotéis ao longo da costa, os hospitais, os lares de idosos ou as obras em nossas estradas e cidades para constatar isso.

Precisamos de imigrantes. Mas falamos deles como se fossem um problema do qual tivéssemos que nos defender. Esse é o paradoxo.

Foto: Gémes Sándor | SzomSzed | Wikimedia Commons

O negócio do medo

A Espanha não está sozinha nesse debate. Donald Trump fez da imigração um pilar de suas políticas erráticas e cruéis. Em diversos países europeus, a extrema-direita está crescendo, culpando os estrangeiros pela insegurança, pela perda da identidade nacional e até mesmo pela crise do Estado de bem-estar social. A União Europeia oscila entre a defesa dos direitos humanos e a tentação de fortificar suas fronteiras.

O medo sempre rendeu bons resultados eleitorais. A história, por outro lado, tem sido muito pior. Zygmunt Bauman escreveu que os imigrantes acabam se tornando "estranhos batendo à porta", nos quais projetamos todas as nossas inseguranças. É mais fácil culpar o recém-chegado do que perguntar por que uma sociedade rica gera tanto medo.

A imigração tornou-se, portanto, o espelho no qual o Ocidente vê as suas próprias incertezas. E não gosta do que vê.

A pergunta errada

Na Espanha, temos respondido à pergunta errada por tempo demais. Não se trata apenas de quantos imigrantes podem entrar. A questão crucial é outra completamente diferente: que tipo de país queremos construir com eles?

Porque a integração começa exatamente onde termina a fronteira. Na escola. Na aprendizagem de línguas. No trabalho. Na vizinhança. No acesso a uma habitação digna. No respeito pela lei. Na igualdade de direitos e também de responsabilidades.

A regulamentação não basta. Nem o fechamento. Uma sociedade inteligente não escolhe entre portas abertas ou muros intransponíveis. Ela escolhe entre integração ou divisão; entre construir cidadania ou criar guetos.

A coesão social não nasce do medo. Ela nasce de um projeto compartilhado.

Uma velha questão em Salamanca

Há quase quinhentos anos, Francisco de Vitoria levantou uma questão revolucionária: os estrangeiros possuem a mesma dignidade que nós? Essa percepção mudou a história do direito internacional.

Cinco séculos depois, ainda estamos discutindo exatamente a mesma coisa, embora usemos palavras diferentes.

Jürgen Habermas fala de um patriotismo baseado em valores democráticos, não em laços de sangue. Porque cada pessoa possui múltiplas identidades. Reduzi-las a uma única é o princípio do fanatismo.

O Evangelho, por sua vez, vai ainda mais longe. Começa com uma criança que foge com os pais para o Egito para salvar suas vidas. E termina com uma frase que continua a perturbar tanto crentes quanto não crentes: “Eu era estrangeiro e vocês me acolheram” (Mt 25,35). Não se trata de um programa de governo. É uma demonstração da nossa humanidade.

Foto: Ibex73 | Wikimedia Commons

Quem está realmente batendo à porta?

Talvez daqui a cinquenta anos os historiadores não perguntem quantos imigrantes chegaram a Ceuta, Melilla ou às Ilhas Canárias.

Você pode se perguntar como um continente envelhecido, que precisa de milhões de trabalhadores e se orgulha de ter proclamado os direitos humanos, conseguiu convencer uma parcela de seus cidadãos de que aqueles que sustentavam uma parte crescente de sua prosperidade eram justamente sua maior ameaça.

Esse será o verdadeiro enigma do nosso tempo. Porque o arame farpado acabará enferrujando. Governos, rotas migratórias e acordos internacionais mudarão. O difícil será derrubar o muro que carregamos dentro de nós.

Porque as civilizações não começam a morrer quando chegam muitos estrangeiros. Elas começam a morrer quando perdem a fé em si mesmas e precisam criar inimigos para esconder suas contradições.

Talvez um dia, num futuro não muito distante, algum historiador resuma nossa era com uma frase repleta de ironia: "Eles precisavam de imigrantes para sustentar sua prosperidade; preferiam encontrar bodes expiatórios para garantir seus votos."

E então entenderemos que a maior crise da Europa nunca foi a imigração. Foi o medo. 

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