Odisseia: entre o navio e a jangada, a navegação. Artigo de Lucia Serrano Pereira

Um dos cartazes do filme "A Odisseia" | Foto: Divulgação

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31 Julho 2026

O filme de Christopher Nolan propõe novas reflexões com a Odisseia, de Homero, e o livro L’Odyssée au Louvre, da filósofa e escritora francesa Barbara Cassin.

O artigo é de Lucia Serrano Pereira, psicanalista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, publicado por Sul21, 28-07-2026.

Eis o artigo.

Recém-chegado, o filme A Odisseia de Christopher Nolan coincide com um momento em que, justamente, começamos a trabalhar a partir de um novo encontro com a Odisseia, de Homero. Neste contexto, circulam associações — a Odisseia e Ran, de Kurosawa, Solaris, de Tarkovski, 2001: Uma Odisseia no Espaço e tantas outras, nas matérias que vão surgindo.

Minha contribuição é a de uma associação a mais, transitando por um livro recente publicado na França (2025): L’Odysée au Louvre, un roman graphique. A autora francesa Barbara Cassin é filósofa e escritora. Publicou, entre outros, um livro que nos encantou e que trabalhamos muito: “Nostalgia, quando afinal se está em casa?”

Livro "L'Odyssée au Louvre: Um gráfico romano", de Barbara Cassin (Flammarion, 2024)

Na obra, a pergunta que se anima é enunciada também em torno de Ulisses (ou Odisseus): ele é de certa forma aquele que “não para de retornar”, e a narrativa homérica de seu percurso constitui uma das obras fundantes da Literatura Ocidental. Toda a navegação de Ulisses tem como horizonte o retorno à Ilha de Ítaca e à Penélope, após os anos dedicados à Guerra de Tróia.

A nostalgia vem nessa vertente, a da volta à casa. Barbara Cassin busca a origem do termo “nostalgia” — que foi de início um diagnóstico. Criado por um jovem médico que se viu interrogado pela doença que surgia a partir do mal que tomava os soldados suíços que haviam ficado na França, no século XVII, por ocasião da guerra. Eles experimentavam um desejo incontornável de voltar a seu país: nostos – retorno, e algos – dor; assim surge a nostalgia, herdeira desse “mal du pays” dos soldados suíços que definhavam ao ouvir as canções de sua pátria, adoeciam de tristeza pela falta da casa, de seu lugar, do “torrão natal”; não aceitavam alimentos ou remédios, podendo se deixar morrer na melancolia. Claro, sentimentos presentes na história da humanidade muito antes de se receber essa leitura, mas assim mesmo algo faz diferença, se inaugura quando se nomeia, quando se reconhece. Então, esta é uma primeira abordagem do “quando se achar em casa”. Da falta de se achar em casa.

Com Ulisses acontece diferente, não se deixa morrer, mas está sempre orientado pela questão do retorno. O retorno ao lar. Cassin vai então situar a perspectiva com uma nuance totalmente nova para o termo, um outro caminho para dizer nostalgia, que chega a ser bastante surpreendente. E que tem relação com a pergunta de Penélope depois que Ulisses volta à Ítaca e dos tempos (que não foram poucos) do reconhecimento. Ele não se apresenta diretamente como Ulisses; vai ter todo um desvio, a chegada como mendigo, as aproximações. Mas mais adiante, já retornado e reconhecido, Penélope o interpela — como entender o que ele afirma, que se tratava sempre de voltar, mas que leva dez anos para poder realizar esse retorno? Como “justificar” todo esse tempo?

Aí aparece o traço de Ulisses em outra direção: como aquele que constituiu também algo de casa na experiência da aventura, da própria navegação. Onde aquele vazio — que na dor da falta da casa poderia ser lido como a nostalgia, o mal du pays — agora se refere a um vazio do mar aberto, que abriu espaço para que Ulisses dissesse algo como — às vezes o mar se torna nossa casa. Quando se achar em casa, pode ter a ver com um “ter lugar”. Onde o vazio é uma busca, um relançamento, uma nostalgia aberta, mais orientado por um “se achar em seu lugar”, em seu exercício desejante, em seu movimento.

A “Odisséia no Louvre” reúne cinco conferências de Barbara Cassin em Paris, onde ela toma no Museu as obras referentes à pintura, à escultura e à cerâmica e vai elaborando seu “romance gráfico”. É forte o efeito de como acompanhamos a Odisséia através das diferentes leituras e obras dos artistas pela mão dessa forma de curadoria, que podemos chamar assim, que cria sua abordagem.

Homero é um julgamento estético” — com isso ela abre as falas. E apresenta sua escolha: vai tomar um museu como uma língua. Diz que ama os textos gregos e os desenhos dos vasos, as imagens traçadas sobre as cerâmicas. “Eu sempre me perguntei como os textos e os desenhos vibram juntos, como eles rimam. Qual é a relação entre a beleza dos textos e a beleza das imagens?”

Aqui temos algo valioso. Podemos sublinhar o termo da vibração, da ressonância. Sabemos da importância que Lacan deu a esse enlace — não basta a razão, na clínica psicanalítica, é preciso a réson, a ressonância, como isso faz vibrar o corpo, o terreno do pulsional. Essa trama da linguagem e do corpo.

Como Barbara Cassin aponta, o lugar de onde vai falar, produzir, montar esse romance gráfico? (que na ideia já tem uma originalidade incrível — abordar e recortar de um museu um romance gráfico).

Ela nos diz: “Não ilustrando o texto para ali redesenhar os momentos, sob a forma de um romance gráfico contemporâneo, como de uma revista em quadrinhos contemporânea — mas fazendo résoner — ressoar, e contrastar, corroborar, deslocar, mudar, dialogar.”

Vai ser a conversa entre textos e obras, através do recorte que escolhe seu ângulo de abordagem. Desenvolve cinco episódios, como ela chama, para dizer da Odisséia neste diálogo, neste romance gráfico: ser mortal; ter um nome; ser si mesmo; ser reconhecido. Compondo com episódios da OdisséiaCalypso, Os infernos, o Cíclope, as Sereias, Helena, Circe, Penélope.

Retomo aqui um fragmento da minha leitura da Odisséia, também fazendo escolhas: o dia em que Ulisses chegou à Ítaca foi um estranhamento. Os Feácios eram grandes marinheiros e iriam conduzir Ulisses à Ítaca, junto com seus presentes; era a promessa do final da viagem. Todos embarcados, tudo em ordem, começa a navegação. Nesse momento em que a amarra se desata e eles ganham o mar, “um sono invencível baixou sobre os cílios do grande guerreiro, muito suave e profundo, qual cópia perfeita da Morte”.

Quando a embarcação chega a Ítaca, os marinheiros depositam Ulisses e os presentes nas margens, com o cuidado de não despertá-lo. E quando, por fim, sozinho, desperta, vem a reação. Ele pensa que os Feácios o enganaram. “Pobre de mim! A que terra cheguei? Quais os homens que a habitam? São, porventura, selvagens violentos, que leis desconheçam, ou estrangeiros amigos e afeitos ao culto dos deuses? Para onde devo levar essas riquezas? E eu próprio, para onde devo seguir?[…] Não procederam conforme a justiça e a prudência que os conselheiros e guias ilustres dos homens Feácios prescreveram, ao me trazerem para outro país. Prometeram, realmente, que à costa de Ítaca me levaram. Eis que nada cumpriram […]”.

Ulisses faz seu lamento, “o de estar longe da terra pátria, arrastando-se ao longo da praia marinha, a suspirar incessantemente.” Era mesmo um Unheimliche, encontro de um estranhamento junto ao familiar. Paradoxalmente, era o dia do retorno.

Atena, a deusa que o protege durante toda a jornada, é quem vai ter que nomear a ilha para Ulisses. Ela aparece inicialmente transformada em um jovem pastor que responde às perguntas do recém-chegado: sua tentativa de se situar. Descreve a ilha e suas grandes qualidades e termina por nomear: estamos em Ítaca. E mesmo assim, mesmo quando a deusa se revela e afirma, ainda ele duvida.

Como chegado a Ítaca por fim, depois de 20 anos, mas ter a enorme sensação de desamparo e mesmo de um profundo desreconhecimento?

Sabemos, pela via da experiência da vida, que não há retorno possível, no sentido de voltar ao mesmo lugar. Mesmo o que pode constituir um retorno configura de alguma forma um outro caminho, não idêntico. Mas pode nos interessar pensar — como, em vez de retornar/voltar, podemos construir outro caminho?

Pergunta que, trazendo para o nosso campo, poderia ser formulada com relação ao percurso de uma análise. Está em jogo, na clínica, a possibilidade, a aposta de criação de novos percursos simbólicos. Que a navegação pela fala possa animar caminhos que valham a pena, que impulsionem a produção de sujeito, que permitam novos enlaces entre gozo, amor e desejo. Que permitam enfrentar o real e o mal-estar, as contingências que se apresentam em nossas vidas, achar nossas implicações.

Com o que precisamos “contar com” nesse movimento? Que “lastros” precisamos perder? Onde e como cortar? Com quais traços precisamos lidar e transportar para fazer sequência com nosso desejo? Onde é preciso “retornar”/retomar a falar de novo, na repetição e na transferência, para que o algo novo possa ser achado nessas mesmas voltas da repetição?

Antes de concluir essas breves associações, quero dizer algo da experiência de ter assistido A Odisséia” de Nolan, há poucos dias. Ainda em processamento, precisa de algum tempo para reunir e decantar. Ver o que ficou ou vai surgindo depois de dormirmos as noites seguintes. Dou o tempo, e o encontro me vem por cenas, por momentos diferentes do filme. O canto das sereias, a loucura, a tentação e sua insuportabilidade, em que Ulisses só não sucumbe por estar amarrado ao mastro do navio.

O encontro com o Cíclope e estar como ovelha do rebanho (a ser comido). Os homens amontoados por dias dentro do Cavalo de Tróia (entre urina e fezes, como se diz do nascimento).

Circe e a transformação dos homens que são lidos como glutões sem limites, e onde ela tem de um lado o histórico desses apetites vorazes naquele contexto (ontem?hoje?), e de outro a certeza delirante de que os que ainda não a atacaram apenas aguardam a oportunidade. E ela molda literalmente, com suas mãos, a transformação dos corpos dos homens em porcos, uma das cenas mais impactantes do filme. A forma pela qual Ulisses consegue que ela devolva a condição humana aos seus marinheiros é não aceitando (não se atirando, como os outros) comida ou bebida, abstendo-se, e dizendo à feiticeira: o único que eles querem é voltar para casa.

E, claro, central no filme, o manifesto contra as guerras, o testemunho de Ulisses endereçado a Penélope e comoventemente sustentado por Atenas, presença silenciosa, mas expressiva, emocionada, já apontada como um quase duplo seu no campo dos deuses. O que, por um lado, faz as qualidades de Ulisses — sua astúcia, estratégia, como a ideia do cavalo de Tróia —, por outro, fez ruína. Ele se diz responsável por uma destruição sem limites, e agora se enfrenta com o que resultou disso em seu mundo. Aqui Nolan escrevendo/filmando diretamente para nós, hoje.

O que fazemos hoje com “a lei de Zeus”, a lei da hospitalidade, que vai ao longo do filme sendo fio condutor, mostrando o paradoxo do que se faz com ela, de seus ângulos, seja do seu exercício como lei simbólica, orientadora, ou de sua instrumentalização gerando o pior?

Deixo a escolha de um recorte, aquele que mais vezes retornou nos dias que se seguiram ao filme: a torção dos lugares na relação entre Ulisses e Calypso. Ulisses vive com ela, mas sem ter noção do tempo. Prisioneiro há sete anos da ninfa que oferece imortalidade, vida com harmonia, lugar paradisíaco. Tudo se sustenta com a ingestão das pétalas da flor de lótus, a flor que produz o esquecimento, o se deixar ali, a anestesia. A droga que garante a manutenção da situação.

Mas tem algo que não fecha, que impede o recobrimento total do que ele foi um dia, da vida dos mortais. E Calypso, ao mesmo tempo em que fornece a flor — que Ulisses come com uma nuance de urgência, sofreguidão, até, é exemplar da adição; vai mudando de posição. Entre um e outro vai surgindo um novo movimento. Ela testemunha algo de um sofrimento indizível, insituável. Se altera o contínuo das pétalas de lótus. A descontinuidade vai abrindo as brechas. Os flashes, coisas fugazes que aparecem para ele como cenas e que apontam, havia uma outra vida que era a sua. Ulisses começa a lembrar alguns fragmentos, pouco a pouco, escolhe querer saber, mesmo com a ambivalência instalada entre os dois. Se ele sai do domínio do esquecimento, pode querer ir embora, e ela sabe disso. Ele hesita, diz que está feliz.

E é então que ela aponta o incontornável: que felicidade é essa que faz com que ele passe na praia recolhendo os cacos, os destroços dos barcos e com as madeiras esboçando a feitura de uma jangada?

Uma jangada precária, solitária, não o barco do herói (no navio talvez a ilusão do domínio, o Titanic afinal era impossível de naufragar, na jangada, algo da entrega ) Por vezes, é preciso confiar que se pode timonear e dirigir, ao mesmo tempo, poder saber se deixar estar em uma jangada, com alguma dose de confiança. Ulisses escolhe pela finitude, sua verdade de humano, mas com a mulher, o filho, sua vida, o aceite de suas contingências e escolhas. Precisava partir, aceitando os riscos. O que permite relançar a navegação.

P.S.: Depois do escrito, me veio a lembrança de que meu pai passou anos construindo um barco. Era coisa de fim de semana, em que íamos toda a família para um clube de vela, onde ele e um amigo compraram um barco para reformar, e essa era a diversão. Lixar, pintar, consertar, preparar. Passaram anos nessa feitura, e eu pensava — mas afinal nunca terminavam! Até que em algum momento me veio algo diferente – talvez o que contasse para eles naqueles tempos era a feitura e o compartilhar, nos finais de semana, do ofício do fazer, dessa circulação, marceneiros mais do que barqueiros, com uma porção de ajudantes pequenos, grandes, familiares. O encontro mesmo é um sonho de navegar. E por último, me veio — que gosto o trabalho do significante! — O nome do clube: Jangadeiros.

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