29 Julho 2026
"Às vezes é justamente neste caminho da dor, que Deus (...) me permitiu fazer a experiência profunda do ser humano e de uma comunicação humanizadora", escreve Marcus Tullius, mestre em Comunicação, coordenador de comunicação da Cáritas América Latina e Caribe e pesquisador de comunicação e religião.
Eis o artigo.
Ao aconselhar os presbíteros sobre como deveria ser a homilia, o Papa Francisco sempre lhes recomendava que deveria ser breve a partir de uma imagem, um pensamento e um sentimento. Resolvi tomar este conselho, embora seja difícil eleger apenas um de cada para retratar o que vivi em uma semana na Venezuela, depois dos terremotos de 24 de junho. Escrevo este texto, em primeira pessoa, há exatos trinta dias dos acontecimentos, na tentativa de expressar-me. Não é um texto jornalístico, tampouco científico.
Aqueles dois sismos nos deixaram todos atônitos, aos que vimos as notícias sendo difundidas em questão de minutos, e mais ainda àqueles milhões de venezuelanos que o sentiram. Estar como Cáritas - e não só como profissional de comunicação -, naquele momento e naquele lugar, me possibilitou, mesmo diante da dureza dos fatos e da situação, me permitiu lançar um olhar distinto para apoiar e acompanhar aos irmãos na missão árdua e, ao mesmo tempo, reconfortante de ser carícia de Deus junto aos seus filhos.
Às vezes é justamente neste caminho da dor, que Deus - que estava aí o tempo todo - me permitiu fazer a experiência profunda do ser humano e de uma comunicação humanizadora. Foi ver e acreditar na possibilidade de vida, mesmo quando tudo ao redor mostrava o contrário; foi encontrar esperança, mesmo diante do desespero instalado; foi enxergar os pequenos gestos de solidariedade, mesmo quando os interesses de uns tendem a mobilizar o coletivo.
Tornei-me um comunicador sem palavras diante daquilo que vi e vivi. Desde quando comecei a percorrer as ruas de La Guaira e ver todos aqueles sinais, só restou o silêncio e a contemplação. Estava no carro com outros colegas e havia um silêncio por parte de todos. Este também foi o sentimento compartilhado com os companheiros que estávamos junto no carro. A realidade que se descortinava diante dos nossos olhos não pedia outra coisa a não ser o silêncio, que não é apenas a ausência de palavras, senão uma outra forma de ser habitado por elas.
Ao chegar naquela zona que parecia um cenário de guerra, com os edifícios caídos, resgatistas e pessoas, tive uma sensação de impotência e, por instantes pensei: o que posso fazer diante disso tudo? Tomei a decisão de que eu precisava ouvir alguém. Eu precisava ouvir alguém que pudesse compartilhar como estava vivendo, como estava naquele lugar, como estava levando a vida depois de tudo o que aconteceu.
Uma imagem: a senhora que buscava a si mesma
A resposta não tardou muito e, ali mesmo perto dos escombros, encontrei uma senhora que estava procurando algumas roupas. Depois de saudá-la, sem fazer perguntas, comecei a escutá-la. Tive certeza de que não precisava de nenhuma pergunta. Só precisava ouvir para situar minha alma e meu coração diante daquela tragédia, colocar o meu coração no mesmo compasso dela e de tantas pessoas que compartilhavam do mesmo sentimento. Nessas situações em que queremos fazer muitas perguntas, a escuta é sempre uma escola para acomodar todos os demais sentidos.
Ouvir essa pessoa que me contou sobre sua vida, sua casa, seus entes queridos, seus sonhos e também suas angústias foi a chave para continuar abrindo as portas dos encontros que eu teria nos dias seguintes e das histórias que ainda iria ouvir.
Recordo-me do seu olhar que, além das roupas, buscava também a si mesma, buscava o sentido da vida. O seu olhar saltava de acordo com as suas palavras e os seus sentimentos.
No dia seguinte, uma dor na garganta pela incapacidade de dizer com todas as palavras o que eu tinha visto. Isso me impactou muito. Aquelas imagens, os cheiros, os sentimentos… tudo o que ainda vou levar por muito tempo.
Um pensamento: não ter direito à escolha
Uma coisa incrível que me aconteceu é que, às vezes, não é preciso buscar as histórias, pois elas chegam de maneira inesperada por gente que tem a necessidade de ser escutada. Assim foi com aquela mulher que não dormia há duas semanas, desde que tudo aconteceu, e que esteve por alguns dias na lista de desaparecidos.
Sentada diante de três comunicadores, o que poderia ser uma sabatina tornou-se numa verdadeira aula cheia de vida. Ela não hesitou em dizer que o som dos dois tremores e dos edifícios caindo foi o som mais assustador que ouviu em sua vida e que aqueles minutos pareciam eternos.
Golpeou-me o coração quando narrou os minutos antes e durante o tremor. O alerta de terremoto soou no celular do marido. Na casa ao lado, algo estava despedaçando e parte do edifício próximo estava desabando. A tentativa de sair pela única porta, a da cozinha, foi inútil, então aquela mulher e seu esposo só tiveram uma ação: proteger com os próprios corpos o filho autista não verbal e que, dentre as suas coisas preferidas, estava passear na praia e ver a montanha. “Pensei: ‘Meu Deus, é assim que tudo vai acabar. Vou morrer, e quem vai cuidar do meu filho? Ele precisa de mim’”, disse ela.
Escrevo e vem muito nítido aos ouvidos a sua voz. Essa última frase revela aquele instinto materno que não tinha direito a escolher. Era como se ela dissesse: eu não posso morrer. Meu Deus, eu preciso viver porque meu filho precisa de mim. Ela não teve direito à escolha.
Eu disse, no início, que seria difícil eleger só uma coisa, então também partilho outro pensamento daquela mulher. “A única coisa que vale a pena é a vida. É preciso desapegar-se do material. Basta viver a vida e ajudar o próximo.”
Um sentimento: gracias por venir, gracias por escucharme
Sempre acreditei que a gratidão é o que pode brotar de mais bonito de um coração. É ainda mais nobre quando parte de corações que estão dilacerados pelo sofrimento e, ainda assim, tem espaço para gratidão.
Chamou-me a atenção um momento em que paramos para comer e estávamos todos ali com as camisetas da Cáritas, com os coletes, e alguém disse: obrigado pelo que estão fazendo.
Nos demais encontros, foram recorrentes as frases: obrigado por vir, obrigado por nos ouvir, obrigado por estar conosco. Um senhor, a quem ouvimos, disse: “obrigado por me escutar, eu precisava desabafar”. Então, diante de todo o sofrimento e do desastre, ainda é possível ver os pequenos sinais de beleza que florescem nos gestos de gratidão, na amabilidade, na gentileza e no reconhecimento de quem vai para doar algo, mas acaba recebendo muito mais.
Gracias, Venezuela! Gracias, venezolanos! Gracias a essas pessoas que mencionei, sem nomeá-las, porque sei que são as vozes de milhares. Gracias por me receber de braços abertos e por deixar uma marca profunda no coração e na alma deste comunicador.
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