Leão acabou de citar uma música pouco conhecida de Bob Dylan? Artigo de James T. Keane

Papa Leão XIV e Bob Dylan | Montagem das Fotos: America Media

Mais Lidos

  • Entre rios e distâncias: o desafio de ser uma Igreja das margens na Amazônia. Artigo de Gabriel Vilardi

    LER MAIS
  • Proposta faz parte da receita eleitoral brasileira, diz sociólogo

    "A redução da maioridade penal será um novo elemento a reforçar o crime e a violência no Brasil". Entrevista especial com Marcos Rolim

    LER MAIS
  • O tarifaço e a hora do Brasil. Artigo de José Luís Fiori

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

29 Julho 2026

"E agora temos o Papa Leão dando indícios de que é um profundo conhecedor da obra de Dylan", escreve James T. Keane, editor sênior da America, em artigo publicado por America, 24-07-2026.

Eis o artigo.

Os papas gostam de citações. Não é preciso ler uma encíclica papal para perceber isso; praticamente tudo o que sai da pena de um pontífice — de uma constituição apostólica a um motu proprio ou uma homilia publicada — inevitavelmente inclui dezenas, e às vezes centenas, de referências ao patrimônio intelectual da Igreja. As Escrituras e os documentos eclesiais costumam dominar essas citações e, nos últimos cinquenta anos, os documentos do Concílio Vaticano II frequentemente ocuparam lugar de destaque nas notas de rodapé.

Às vezes, porém, os papas fogem do roteiro. O Papa Francisco gostava de citar o sacerdote e romancista inglês Robert Hugh Benson, assim como Fiódor Dostoiévski. Como acontece com qualquer papa que permanece muitos anos no pontificado, os documentos dos últimos anos de Francisco também passaram a trazer diversas referências à sua própria produção papal. (Se quisermos ser rigorosos, até São Lucas fazia isso: qual é a frase de abertura dos Atos dos Apóstolos? “Em meu primeiro livro, Teófilo...”). Já o papa Bento XVI apreciava incluir Platão e outros autores da Antiguidade greco-romana tanto quanto os Padres da Igreja.

O que nenhum papa havia feito até agora, porém, era citar Bob Dylan.

Mas eis que isso aconteceu. No prefácio de um novo livro que reúne seus escritos sobre a construção da paz, Disarmed and Disarming: Peace Is a Gift (Desarmada e desarmante: a paz é um dom), o pontífice citou a canção de Bob Dylan de 1963, Go Away You Bomb (“Vá embora, bomba”), reproduzindo um verso em que Dylan se dirige às armas nucleares: “Eu odeio você porque foi feita pelo homem, pertence ao homem e é manipulada pelo homem.”

Se você nunca ouviu falar desse verso ou dessa canção, não está sozinho: “Go Away You Bomb” nunca chegou a ser gravada por Bob Dylan. Ao que tudo indica, ele escreveu a música em um único dia, em 1963, a pedido de Izzy Young, do Greenwich Village Folklore Center, e ela sobrevive apenas como um manuscrito datilografado. A letra tem o mesmo tom e a mesma atmosfera de “Masters of War”, clássico lançado naquele mesmo ano no álbum The Freewheelin' Bob Dylan. Mas o Papa Leão não citou essa faixa famosa; preferiu buscar uma raridade, como um apreciador de música que deixa de lado Bob Dylan's Greatest Hits para escolher o lado B de um vinil obscuro de Self Portrait.

É justo dizer que Dylan não é o foco do prefácio, que também menciona Dorothy Day, Giorgio La Pira e o beato Floribert Bwana Chui como importantes exemplos de construtores da paz. E Leão já havia surpreendido antes: em Magnifica Humanitas, incluiu uma citação de Gandalf. Um mago, afinal! Ainda assim, a inclusão de uma canção inédita de Dylan levanta a possibilidade de que este papa nascido nos Estados Unidos — ao menos na época em que era apenas Bob, de Chicago — fosse um verdadeiro admirador do cantor. Além disso, serve como lembrança da curiosa história de encontros, reais e simbólicos, entre Dylan e os papas ao longo dos últimos cinquenta anos.

O exemplo mais conhecido é, sem dúvida, a apresentação de Dylan diante de 300 mil jovens e do próprio Papa João Paulo II, durante o Congresso Eucarístico Internacional, realizado em Bolonha, em 1997. Na ocasião, Dylan interpretou “A Hard Rain's Gonna Fall”, “Forever Young” e “Knockin' on Heaven's Door”. No discurso daquela noite, João Paulo II retomou versos do famoso hino “Blowin' in the Wind”, em uma tentativa que hoje parece quase um esforço para "batizar" a canção. Segundo relatos da imprensa, ao comentar a pergunta “quantas estradas um homem precisa percorrer antes de se tornar um homem?”, o papa afirmou que “há apenas um caminho para o ser humano, e esse caminho é Jesus Cristo, que disse: ‘Eu sou o Caminho e a Vida’”. Também declarou que a proverbial “resposta” não estava “no vento que tudo leva ao nada, mas no vento que é o sopro e a voz do Espírito, a voz que chama e diz: ‘Vem’”.

A imprensa adorou o encontro. “É o tipo de acontecimento que entra para a história”, escreveu Candice Hughes, da Associated Press. “O rebelde que passou a vida batendo à porta do céu encontra o homem que tem as chaves do Reino.”

Nem todos no Vaticano, porém, ficaram satisfeitos com a apresentação. Entre os críticos estava o futuro sucessor de João Paulo II, o então cardeal Joseph Ratzinger.

Em um livro publicado em 2007, John Paul II: My Beloved Predecessor (João Paulo II: meu amado predecessor), Ratzinger, que àquela altura já era o Papa Bento XVI, revelou que havia se oposto à participação de Dylan e tentado impedir sua apresentação.

“O papa chegou cansado, exausto” ao Congresso Eucarístico, escreveu. “Foi justamente naquele momento que Bob Dylan, a ‘estrela’ dos jovens, e outras pessoas cujos nomes não recordo apareceram. Eles transmitiam uma mensagem completamente diferente daquela à qual o papa estava comprometido. Havia motivos para ser cético — e eu era, e em certo sentido continuo sendo — e para duvidar se era realmente correto envolver ‘profetas’ desse tipo.”

Justo. Afinal, ninguém nunca apontou Joseph Ratzinger como um grande entusiasta da cultura pop, e seus gostos musicais sempre penderam muito mais para a música clássica. E ele estava em boa companhia: Pete Seeger também tentou, certa vez, impedir um show de Bob Dylan.

O sucessor de Bento XVI, o papa Francisco, nunca mencionou nem chegou a se encontrar com Dylan. Ainda assim, os dois acabaram sendo ligados de forma inesperada após a morte do pontífice, em 2025.

No dia seguinte ao falecimento de Francisco, em 21 de abril daquele ano, diversos veículos de imprensa e publicações nas redes sociais começaram a compartilhar uma suposta homenagem de Bob Dylan ao amado papa — um texto eloquente e comovente que dizia:

O Papa Francisco foi uma voz de misericórdia em tempos de tanto ruído. Caminhou com humildade, falou com coragem e ousou amar aqueles que eram esquecidos e rejeitados. Lembrou ao mundo que a compaixão não é sinal de fraqueza e que a fé não precisa gritar para ser ouvida. Que ele descanse na paz eterna que tantas vezes pregou.

Uma bela despedida. Exceto por um detalhe: Bob Dylan nunca escreveu essas palavras. Ninguém sabe ao certo como essa citação surgiu. O fato é que ela se espalhou rapidamente nas semanas seguintes à morte do papa Francisco e, até hoje, continua circulando na internet como um curioso exemplo do chamado efeito Mandela — quando muitas pessoas passam a acreditar coletivamente em uma informação falsa.

E agora temos o papa Leão dando indícios de que é um profundo conhecedor da obra de Dylan. Como foi possível, em apenas vinte anos, passarmos de um futuro papa que sequer queria permitir que Dylan se apresentasse diante de João Paulo II para um pontífice que cita uma de suas obras mais obscuras?

Apesar de uma breve — e extremamente controversa — conversão ao cristianismo evangélico no fim da década de 1970, Dylan nunca demonstrou publicamente grande simpatia pela religião organizada. Basta lembrar “It's Alright, Ma (I'm Only Bleeding)”, sua contundente crítica, lançada em 1965, à hipocrisia da vida moderna. Se você fosse um bispo católico nos Estados Unidos — naquela época ou mesmo hoje — talvez sentisse que alguns dos versos de Dylan eram dirigidos diretamente a você:

Enquanto alguns são batizados em nome de princípios,
presos aos rígidos laços das plataformas partidárias,
clubes sociais disfarçados,
criticam livremente os que estão de fora,
nada dizem além de indicar quem deve ser idolatrado,
e então concluem: "Deus o abençoe."

No entanto, ao longo dos anos, Dylan conquistou admiradores entre alguns católicos influentes nos Estados Unidos. O bispo Robert Barron, da Diocese de Winona-Rochester, já afirmou que Dylan é um de seus grandes heróis e elogiou suas letras pelas profundas ressonâncias bíblicas e espirituais. (Barron, inclusive, gravou uma versão da canção “You're Gonna Make Me Lonesome When You Go”, de Dylan.)

Em The Monk's Record Player: Thomas Merton, Bob Dylan, and the Perilous Summer of 1966 (O toca-discos do monge: Thomas Merton, Bob Dylan e o perigoso verão de 1966), livro publicado em 2018, o autor Robert Hudson observa que Thomas Merton, embora nunca tenha conhecido nem trocado correspondência com Dylan — e fosse mais de vinte anos mais velho que ele —, admirava profundamente o cantor iconoclasta e desejava receber sua aprovação. Em 1966, Merton registrou a seguinte reflexão em seu diário:

Será que um eremita deveria gostar de Bob Dylan? Para mim, ele significa pelo menos tanto quanto parte da nova liturgia — talvez, em alguns aspectos, até mais. Quero conhecê-lo. Quero que ele venha aqui, e quero que leia um dos meus poemas. Quem sabe até o use em alguma de suas músicas.

É claro que existe uma boa chance de que, se Thomas Merton realmente tivesse conhecido Bob Dylan, este acabasse arruinando o encontro ao se comportar como um completo antipático. Acontece. Mas não há dúvida de que Merton sentia uma conexão com Dylan pelo menos tão forte quanto aquela que nutria por Romano Guardini e por outros grandes intelectuais da Igreja de sua época.

Naquele tempo, porém, Dylan era um jovem e um dos principais ícones do movimento estudantil contra a guerra. Ainda em 2007, o papa Bento XVI referia-se a ele como “a ‘estrela’ dos jovens”. (Embora Dylan já tivesse 66 anos na época e, poucos meses antes, quase tivesse morrido em decorrência de uma pericardite.) Hoje, ninguém mais associa esse artista de 85 anos — uma verdadeira lenda viva, que sobreviveu a Merton e já atravessou o pontificado de sete papas — à rebeldia juvenil. Talvez justamente essa condição de estadista da cultura o torne hoje mais aceitável para papas, bispos e escritores espirituais, bem como para seus leitores e ouvintes.

Talvez também a própria cultura tenha mudado — e não necessariamente com as consequências desastrosas que Bento XVI via na popularidade de cantores como Dylan décadas atrás. Robert Prevost tinha apenas sete anos quando Bob Dylan escreveu “Go Away You Bomb”. A música popular norte-americana — o pop e o rock — fez parte de sua vida desde a infância. E, ao que tudo indica, isso não o impediu de se tornar um excelente líder da Igreja. O mesmo pode ser dito de muitos outros dirigentes eclesiais que cresceram ouvindo suas canções e encontrando eco nas letras de Dylan.

No próximo ano, completarão 30 anos desde o encontro entre João Paulo II e Bob Dylan. Que bela ocasião seria ver um Bob do Meio-Oeste cantar algumas músicas para outro Bob do Meio-Oeste. Meu voto vai para “Tryin' To Get To Heaven” ("Tentando Chegar ao Céu").

Leia mais