Fiódor Dostoiévski: Noites Brancas e a emancipação da fantasia. Artigo de Alexandre Francisco

Foto: Fyodor Vasilyev | Wikimedia Commons

21 Mai 2026

"O deslocamento da realidade para a fantasia de um ideal a ser atingido. A multiplicação do artificial em detrimento do físico. O afastamento da realidade gera no indivíduo a angústia de uma não vida. O refúgio da fantasia é sedutor justamente porque possui o caráter alienante frente à realidade material da vida cotidiana, muitas vezes insuportável."

O artigo é de Alexandre Francisco, advogado, mestre em filosofia pela Unisinos, membro da equipe do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Eis o artigo.

Publicada em 1848, Noites Brancas é uma novela breve que revela um Dostoiévski ainda jovem, mas já capaz de escavar com precisão cirúrgica a alma humana. Antes dos grandes romances que o consagrariam, o autor russo entrega aqui algo incomum em sua obra: uma história de tonalidade romântica, quase lírica, em que a densidade psicológica emerge não da tragédia social, mas da intimidade entre dois desconhecidos.

O cenário é São Petersburgo em pleno verão, durante o fenômeno das noites brancas, quando o sol recusa se pôr completamente e a cidade permanece banhada por uma claridade crepuscular que embaralha os limites entre o dia e a noite, entre o sonho e o real. Nesse ambiente onírico, um homem sem nome vaga pelas ruas vazias da cidade e encontra Nastienka, uma jovem à beira de um canal, em lágrimas. O que se segue são quatro noites de conversas, confissões e uma intimidade que cresce rápido demais para durar.

O protagonista, chamado apenas de o Sonhador, é uma figura construída com uma honestidade quase incômoda: ele próprio reconhece que prefere a vida imaginada à vida vivida. Dostoiévski não o ridiculariza por isso, mas também não o absolve. Há uma ambiguidade generosa no modo como o texto trata esse homem que sente profundamente e age pouco, que ama com intensidade e chega tarde demais.

A efemeridade é um dos temas centrais do livro. As quatro noites funcionam como uma metáfora daquilo que não pode durar precisamente porque é belo demais para caber no cotidiano. O desfecho é inevitável, e Dostoiévski o conduz sem melodrama, com uma contenção que torna a dor ainda mais precisa.

Nesse cenário, podemos traçar paralelos com as doenças mentais advindas das redes sociais e mecanismos similares: o deslocamento da realidade para a fantasia de um ideal a ser atingido. A multiplicação do artificial em detrimento do físico. O afastamento da realidade gera no indivíduo a angústia de uma não vida. O refúgio da fantasia é sedutor justamente porque possui o caráter alienante frente à realidade material da vida cotidiana, muitas vezes insuportável.

Em Noites Brancas, Dostoiévski nos mostra um sujeito que vive mergulhado em suas fantasias. O niilismo que acompanha o emblemático personagem cujo nome é desconhecido, descrito como "O Sonhador", nos brinda com uma perspectiva completamente fora da realidade material. O sujeito inventa cenários e pessoas, narrativas e histórias; tudo através da enorme solidão que o assolou ao longo de sua vida.

O poder do livro está na possibilidade de olharmos para a realidade presente em nossa organização social moderna e nos depararmos com o fato de que cada vez mais estamos perdendo a capacidade de nos conectarmos com outros seres humanos de uma forma profunda no plano do real. As redes sociais e os algoritmos amplificam a sensação de isolamento e geram a redoma de fantasias que permeiam o imaginário social cibernético.

Com a perda do espaço social comum, escorrendo para telas de smartphones, a realidade conhecida se torna narrativa algorítmica, a vida agora diluída vira um frame digital reproduzido por imagens artificialmente editadas de uma versão idealizada do self. Consumido e mercantilizado, o ser humano torna-se objeto. Apartado da realidade, o usuário isola-se em esferas de disseminação de conteúdo tóxico e destrutivo. A implicação subjetiva desse processo de esvaziamento desidrata qualquer possibilidade de preservação de qualquer espaço de saúde mental. De consumidores a consumidos, o ser humano é dominado pela técnica.

A história termina com uma renúncia: Nástenka parte com outro homem, e o sonhador retorna à sua solidão, contentado novamente com suas fantasias. "Meu Deus! Um momento inteiro de felicidade! Será que isso é pouco para a vida inteira de um homem?" são as suas palavras finais.

Talvez a emancipação de sua fantasia, a aceitação da dor, da realidade e do caos que dela advém possam finalmente trazer ao Sonhador uma vida digna de ser vivida, mas isso não ocorre. Pelo menos não ainda.

Para quem deseja se aproximar do universo russo sem ainda enfrentar a vastidão de Crime e Castigo ou Os Irmãos Karamázov, Noites Brancas é uma porta de entrada extraordinária. Curta, mas de modo algum superficial.

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