14 Julho 2026
A tolerância ao machismo recreativo constrói o piso do caminho para a barbárie de fato.
O artigo é de Carlos Eduardo Nery Paes, médico, publicado pro Sul21, 12-07-2026.
Eis o artigo.
Era junho de 1970, a minha primeira copa do mundo como torcedor infantil, e o futebol se apresentava como um espetáculo de magia pura. O tricampeonato no México criava em mim a ilusão de um mundo heroico e invencível. Minha torcida era a de um menino que sabia as escalações de diversas seleções, e tinha no torneio um parque de diversões. Quatro anos depois, em 1974, chorei muito com a derrota para o carrossel holandês. Aquela foi a primeira vez que a realidade dura invadiu o campo dos sonhos, mostrando que a frieza técnica e a organização implacável poderiam engolir o talento romântico. Hoje, percebo que aqueles estádios monumentais também eram celeiros de uma masculinidade construída na força e na vitória a qualquer custo, sempre abafando qualquer demonstração de vulnerabilidade.
No universo da gestão em saúde e da segurança do paciente, utilizamos a teoria do Queijo Suíço. Ela foi criada por James Reason, e é a mesma que a aviação utiliza para avaliar seus incidentes. Nela, um evento adverso raramente é fruto de um único erro, mas sim do alinhamento trágico de várias falhas em sucessivas barreiras de proteção. Descobrimos que não há acidentes, mas processos sucessivos que culminam no trágico. Nossa sociedade funciona da mesma forma. A permissividade é o primeiro grande buraco no queijo. Quando um homem escuta uma piada machista, homofóbica ou racista e escolhe rir, ou optar pelo silêncio para não quebrar a estrutura do grupo, ele alinha a primeira fatia que permitirá a passagem da violência estrutural. A tolerância ao machismo recreativo é o que constrói o piso que viabilizará o caminho para a barbárie de fato. No limite, cada vez mais percebido, os feminicídios.
Por idas e vindas, apareceu no meu Instagram a cerimônia do Oscar que culminou no tapa de Will Smith em Chris Rock, em 2022. Hoje, percebo o sintoma perfeito desse alinhamento de falhas. Começou com a piada infame de Rock, naturalizando o escárnio público sobre o corpo e a condição de uma mulher negra com alopecia. E desabou com a reação de Smith, que sob o verniz da proteção, fez emergir sua masculinidade tóxica, anulando a mulher de sua própria resposta e criando um fator adicional com a agressão física. Ambos materializaram o pacto de que o feminino é apenas um território de disputa e afirmação para os homens. Não aceitar a piada como normal foi o ponto de partida, mas responder a ela assumindo o papel do “salvador poderoso” foi apenas trocar a farda do opressor.
Esse modelo permissivo que fracassa nos palcos de Hollywood e da porta para dentro dos lares é a mesma engrenagem que elege aberrações políticas em escala global. As ascensões de figuras como Donald Trump, Javier Milei e Jair Bolsonaro não são acidentes, mas a manifestação de um conservadorismo misógino que se alimenta do medo e da frustração de homens que perderam seu protagonismo absoluto. Quando um neto do general João Figueiredo, verdadeiro netobabyssauro, foragido da justiça e orientador político da famiglia Bolsonaro, afirma que “mulher vota estatisticamente muito mal, especialmente a solteira”, percebemos onde vai a permissividade da sociedade. A mesma que tolera que seu orientando Flávio passe pano sobre a observação, dizendo “contestar no público”, mas se acertando no privado, como confidenciou a seguir o neto do ditador. Fica evidenciado que o domínio sobre a liberdade feminina é a fundação inegociável de qualquer projeto totalitário.
O contraponto a essa espiral de dominação passa, inevitavelmente, por abrir o espaço, escutar e ser aliado da potência intelectual e criativa das mulheres que sustentam as trincheiras culturais do Brasil. Pessoas como Isildinha Baptista Nogueira, Conceição Evaristo, Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Aline Midlej e tantas outras demonstram lucidez implacável e coragem de decodificar a realidade com uma precisão que nos obriga a enxergar as fraturas raciais e sociais do país. Por sua força, elas se somam em vozes de mulheres que reescrevem nossa subjetividade. A força não reside na brutalidade, mas na capacidade de reconstruir o mundo através da reflexão, da palavra crítica e do ativismo. Não há mais espaço para o “pode ser”.
Se compreendemos a mecânica dos furos no queijo suíço, a inércia deixa de ser uma opção. O papel do homem ativo no mundo de hoje exige a coragem de ser o elemento de atrito. Ao mesmo tempo que precisamos cultivar um pensamento humanista, escrever crônicas bem elaboradas ou nos emocionar com as memórias de infância em copas do mundo, também devemos romper a cumplicidade silenciosa no grupo de mensagens, recusar o riso diante da piada e não ser o fiador envergonhado da opressão. A extinção da masculinidade tóxica exige que nossa copa do mundo seja abdicar do conforto do nosso próprio privilégio. Somente ao taparmos os buracos da nossa fatia de responsabilidade seremos capazes de impedir que o monstro desperte e devore as conquistas civilizatórias que ainda nos restam, e abra as câmaras frias dos necrotérios.
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