11 Julho 2026
As notícias sobre feminicídios são lidas hoje em meio à indiferença generalizada, perdidas no fluxo diário das notícias secundárias, como se fossem meros acontecimentos acidentais aos quais estamos nos acostumando. No entanto, há algo profundamente perturbador nesse aumento da violência contra as mulheres. Um fenómeno que afecta não apenas a Itália, mas o mundo inteiro.
A informação é de Dacia Maraini, publicada por Corriere della Sera, 07-07-2026.
Relatos do exterior são alarmantes. A ONU informa que 85 mil mulheres foram mortas em todo o mundo neste ano, uma a cada dez minutos. Essas mulheres são espancadas e assassinadas não no meio da rua, não por um estranho, mas por seus próprios maridos ou companheiros. Não deveríamos nos questionar mais profundamente por que esse fenómeno é tão disseminado e crescente?
Como interpretar essa onda de agressividade entre homens que antes amavam uma mulher, mas depois, quando ela demonstra um sinal de independência, transformam-se em assassinos, chegando por vezes a matar os próprios filhos? Não se trata de casos isolados ou surtos de loucura desencadeados por crises familiares fortuitas; trata-se, antes, de algo que tem uma base cultural específica. Poderíamos chamá-la de uma revolta da mais arcaica "vontade de poder", um impulso que, em certos homens, aqueles que identificam a sua virilidade com a posse e o comando, leva a uma perda total de controlo.
Os homens sábios e, felizmente, há muitos deles, adaptam-se às mudanças, mesmo quando isso significa aceitar a perda de antigos privilégios. Outros, porém, ao verem questionada sua concepção interior de virilidade, preferem acabar na prisão a aceitar a liberdade da mulher que consideram sua propriedade. Desse estado de terror nasce o desejo de vingança, como se quisessem provar a si mesmos que ainda são homens capazes de reacção e de autonomia. Para uma alma rígida arcaica, a vingança é a única maneira de o homem lembrar a si mesmo de que é um senhor, um guerreiro capaz de afirmar sua própria superioridade.
Trata-se de uma verdadeira tragédia de identidade, e fica claro que algemas e proibições não resolvem nada. A única solução é uma educação fundamental voltada para o respeito ao outro e para o conceito da sacralidade do corpo humano. O facto de que, mesmo quase um século após a Unificação da Itália e a proclamação da República, ainda não se consiga incluir nas escolas uma educação ao respeito do outro tanto no campo erótico sentimental como naquele social e político, explica por que o fenómeno do feminicídio possa ser mostrado como apenas mais um crime, rotulado simplesmente como "homicídio".
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