11 Julho 2026
"O ser humano, que hoje conta com cerca de 8,3 bilhões de pessoas, representa uma quantidade de biomassa (massa viva) que é insignificante diante de toda a biomassa do planeta, ou seja, apenas um décimo de milésimo (0,01%). As plantas ocupam um lugar de destaque, com mais de 80% da biomassa. Só os cogumelos perfazem uma biomassa seis vezes maior que a representada pelos animais. Há domínios da natureza que estão longe da ocular humana, que se concentra apenas na parte clara da Terra. Há todo um movimento de vida que ocorre alhures".
O artigo é de Faustino Teixeira, teólogo e colaborador do IHU e do Canal Paz e Bem.
Faustino Teixeira (Foto: Ricardo Assis/UFJF/divulgação)
O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui.
Eis o artigo.
Talvez um dos mais importantes livros lançados no Brasil na última década tenha sido A queda do céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert [1]. Tem razão Eduardo Viveiros de Castro ao dizer no prefácio do livro que a obra traduz “um acontecimento científico incontestável, que levará (...) alguns anos para ser devidamente assimilado pela comunidade antropológica” [2]. Penso que essa compreensão está ainda em curso, e traz desafios novidadeiros para todos nós. Há que levar, de fato, a sério o que os povos originários vêm nos advertindo há séculos. Trata-se de uma sabedoria ancestral, com poderosa cosmologia, e as inquietudes apresentadas ali são realmente preocupantes, que devem contagiar nossas reflexões e ações preventivas [3]. Estamos diante de um saber potente, calejado nas artimanhas para lidar com fins de mundo.
Além do livro de Kopenawa, temos também o singular trabalho de Francy Baniwa e Francisco Baniwa, Umbigo do mundo, onde uma mulher indígena e antropóloga dialoga com seu pai sobre os mitos da tradição baniwa, no Alto Rio Negro (Amazônia). Toda a singular narrativa aponta para um mundo integrado, dos animais humanos com todo o entorno vital. Como diz a autora, todo o circuito de habitabilidade é marcado pela vitalidade: “Vejo uma pedra, vejo um pássaro, vejo um peixe, vejo uma árvore, e sei o porquê de tudo isso, pois aprendi outra linguagem, diferente...” [4].
Acrescento hoje outro grande desafio para a comunidade dos humanos, que é a possibilidade de ampliar o olhar para perceber que o campo de resistências às intempéries vêm também do mundo invisível dos fungos e cogumelos. É impressionante o poder de resistência desses seres invisíveis, com criatividade única para sobreviver através de compromissos evolutivos simbióticos. Nesses três bilhões de anos de história, esses organismos singulares resistiram a numerosos impactos, com incrível poder de resiliência e adaptação. “A vida, sobretudo bacteriana, é flexível. Ela se alimenta do desastre e da destruição desde o início” [5]. E hoje percebemos com maior clareza esses pequenos organismos, dentre fungos, cogumelos e plantas, que são dotados de extraordinária cognição, ou seja, de “comportamentos sofisticados que nos levam a repensar o significado de 'resolução de problemas', 'comunicação', 'tomada de decisão', 'aprendizado' e 'memória'” [6].
Os dois desafios elencados estão, em verdade, profundamente vinculados. Ao recuperarmos o valor das sabedorias ancestrais estamos igualmente sensibilizando o olhar para a profunda interligação entre todas as coisas, e nossa integração nessa profunda teia cósmica. Quebra-se o recorrente antropocentrismo, e desvela-se uma nova compreensão do humano como parte integrante do todo. O que vislumbramos é a retomada de uma perspectiva animista, presente no mundo dos povos originários, que nos ajuda a ressignificar o meio ambiente, entendendo-o agora como “um mundo no qual vivemos, e não um mundo para o qual olhamos" [7]. Davi Kopenawa prefere falar em “natureza inteira”, onde a ecologia ganha um significado novidadeiro. Como ele diz, “na floresta, a ecologia somos nós, os humanos. Mas são também, tanto quanto nós, os xapiri, os animais, as árvores, os rios, os peixes, o céu, a chuva, o vento e o sol! É tudo o que veio à existência na floresta, longe dos brancos; tudo o que ainda não tem cerca” [8]. A vida, como apontou com pertinência Lynn Margulis, “é um sistema muito mais amplo. A vida é uma interdependência incrivelmente complexa da matéria e energia entre milhões de espécies fora (e dentro) de nossa própria pele” [9].
Temos na antropologia grandes pioneiros que lançaram esse desafio essencial de ultrapassar a barreira da dicotomia entre natureza e cultura, a começar por Lévi-Strauss. Para o antropólogo francês, essa separação acabou provocando um “humanismo pervertido”, que instaura barreiras e não pontes. Ele fala igualmente em “humanismo generalizado” [10]. Outro importante nome é Philippe Descola, com sua obra Para além de natureza e cultura [11]. O autor fala na importância de um “movimento generoso”, ou de um “olhar mais cândido, ou ao menos despido do véu dualista que a evolução das sociedades industrializadas tornou em parte obsoleto, e que foi a causa de várias distorções na compreensão de cosmologias muito diferentes da nossa” [12]. De fato, há bem mais do que o anthropos na teia da vida. Nessa nova compreensão, que hospeda igualmente o animismo dos povos originários, processa-se “uma extensão do estado de ´cultura` aos não humanos com todos os atributos que isso implica, da intersubjetividade ao domínio das técnicas, passando pelos comportamentos ritualizados e à deferência pelas convenções” [13].
O ser humano, que hoje conta com cerca de 8,3 bilhões de pessoas, representa uma quantidade de biomassa (massa viva) que é insignificante diante de toda a biomassa do planeta, ou seja, apenas um décimo de milésimo (0,01%). As plantas ocupam um lugar de destaque, com mais de 80% da biomassa. Só os cogumelos perfazem uma biomassa seis vezes maior que a representada pelos animais. Há domínios da natureza que estão longe da ocular humana, que se concentra apenas na parte clara da Terra. Há todo um movimento de vida que ocorre alhures. Como disse precisamente Eliane Brum, em artigo sobre os fungos, “existe o que a gente vê, que é quase nada. Existe o que a gente sabe que existe porque alguém pesquisou, que é um pouco mais, mas ainda é quase nada. E existe o que a gente não sabe que existe, que é quase tudo” [14]. Há sob os nossos pés verdadeiros “labirintos vivos”, “cidades cosmopolitas”, profundamente conectadas por uma arquitetura de teias e filamentos. Tudo marcado por vida e movimento [15].
O ser humano chegou bem depois da presença da vida na Terra. Os fósseis mais antigos que reconhecemos hoje, de vestígios de bactérias, datam de cerca 3,5 bilhões de anos. Dentre os primeiros organismos do planeta estão os fungos, facultando o exercício vital no ambiente [16]. A vida já florescia na Terra, em dinâmica reprodução e crescimento, há cerca de 1,1 bilhão de anos. Somos apenas uma dentre as “dezenas de milhões de espécies que hoje habitam o planeta Terra” [17]. O grande desafio que se coloca para todos nós hoje em dia é buscar uma relação de hospitalidade e reciprocidade com todas as outras “espécies companheiras”, sem distinção. É o caminho possível para a ressurgência de uma humanidade nova, capaz de possibilitar uma diversa paisagem para o mundo, marcada pela habitabilidade criativa.
Notas
[1] Davi Kopenawa & Bruce Albert. A queda do céu. Palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
[2] Ibidem, p. 15 (Prefácio: O recado da mata).
[3] Ibidem, p. 35.
[4] Francy Baniwa & Francisco Baniwa. Umbigo do mundo. Rio de Janeiro: Dantes, 2023, p. 23 e 9.
[5] Lynn Margulis. Planeta simbiótico. Um novo olhar sobre a evolução. Rio de Janeiro: Dantes, 2022, p. 167.
[6] Merlin Sheldrake. A trama da vida. Como os fungos constroem o mundo. São Paulo: Fósforo/Ubu, 2021, p. 25.
[7] Tim Ingold. Estar vivo. Ensaios sobre movimento, conhecimento e descrição. Petrópolis: Vozes, 2015, p. 153 e 126.
[8] Davi Kopenawa & Bruce Albert. A queda do céu, p. 480.
[9] Lynn Margulis. Planeta simbiótico, p. 156.
[10] Emmanuelle Loyer. Levi-Strauss. São Paulo: Sesc, 2018, p. 560-561.
[11] Philippe Descola. Para além de natureza e cultura. Niterói: Eduff, 2023.
[12] Ibidem, p. 15.
[13] Ibidem, p. 161.
[14] Eliane Brum: A Amazônia dos fungos. Sumaúma, 04/10/2023: https://sumauma.com/a-amazonia-dos-fungos/ (acesso em 01/07/2026).
[15] Anna Tsing. Viver nas ruínas. Paisagens multiespécies no Antropoceno. Brasília: IEB Mil Folhas, 2019, p. 43.
[16] Lynn Margulis & Dorian Sagan. O que é vida? Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002, p. 184.
[17] Ibidem, p. 11.
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