"É quando, pois, a salvação gratuitamente oferecida se nos revela como autodoação do Deus trino e uno e se exprime na promessa de nossa divinização, da transformação da história e da transfiguração do universo. É quando, ainda, através da profissão de fé no Pai e no Filho e no Espírito Santo, os fiéis batizados assumem o compromisso de se deixar conduzir pelo Espírito Santo para serem incorporados a Cristo, tornando-se, para todos os efeitos, corpo de Cristo."
A reflexão é de Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM, para a Solenidade da Santíssima Trindade, ciclo C do Ano Litúrgico. Leituras: Deuteronômio 4,32-34.39-40; Romanos 8,14-17; Mateus 28,16-20.
Sinivaldo Silva Tavares, frade franciscano, é doutor em Teologia Sistemática pela Pontificia Università Antonianum (1998) e pós-doutor pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2018). De 1999 a 2011 foi professor de Teologia Sistemática na Faculdade de Teologia dos franciscanos em Petrópolis. Desde 2012, é professor e pesquisador junto ao Programa de Pós-graduação em Teologia da FAJE.
É membro dos grupos de pesquisa: “Ecoteologia, religião e consciência planetária” (FAJE); “Transdisciplinaridade, Ecologia integral e Justiça socioambiental” (UNISINOS) e “Common Home and new ways of living interculturally” (Universidade Católica Portuguesa). Possui mais de dez livros publicados, dentre os quais: A cruz de Jesus e o sofrimento no mundo. A contribuição da Teologia da Libertação latino-americana (2002); Jesus, Parábola de Deus. Cristologia narrativa (2007); Trindade e Criação (2007); Teologia da Criação. Outro olhar – novas relações (2010); Evangelização e interculturalidade (2010); Evangelizar em Diálogo. Novos cenários a partir do paradigma ecológico (2014); Cuidar da Casa Comum. Chaves de leitura teológicas e pastorais da Laudato Si’ (com A. Murad) (2016); Ecologia e decolonialidade. Implicações mútuas (2022). Possui ainda inúmeros estudos publicados em revistas especializadas e em obras
coletivas.
Sinivaldo Silva Tavares | Foto: Arquivo Pessoal
O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui.
As comunidades eclesiais cristãs de tradição romano-católica celebrarão no próximo domingo a solenidade da Santíssima Trindade. Com pesar, reconhecemos que, não raras vezes, a Trindade Santíssima nos foi apresentada como um enigma sem solução. A palavra mistério soava aos nossos ouvidos como censura a todo tipo de entendimento. Sequer ousávamos compreender! Contudo, o termo grego mystérion, que deu origem ao neologismo latino mysterium, nos remete ao ilimitado de toda compreensão e não, propriamente, aos limites do conhecimento. Mistério é aquela realidade que suscita em nós fascínio, nos atrai, e abraçando-nos faz com que nos sintamos sempre mais empapados por sua imensidão. Sentimo-nos atraídos pela beleza do mistério e nunca desistimos de indagar a seu respeito: jamais nos furtamos a perscrutá-lo.
Já o termo alemão para dizer mistério, Geheimnis, nos reenvia à experiência de uma proximidade paradoxal. Etimologicamente, Ge-heim-nis significa aquele recolhimento e aquela intimidade (Ge-) oferecidos pelo lar (Heim). Nesse sentido, portanto, mistério se refere àquilo que se prova quando se está recolhido na intimidade da própria casa, desfrutando do gozo oferecido pelo aconchego do lar. Compreendido assim, o mistério não se subtrai ao nosso conhecimento, nem se furta à nossa apreensão, à maneira de uma exclusão arbitrária. Ao contrário, é justamente por sua inusitada proximidade que, desbordando por todos os lados, falta-nos a suficiente perspectiva para compreendê-lo. Não nos encontramos, portanto, diante de um caso de deficiência na compreensão, mas de excesso de inclusão e proximidade.
Por essa razão, ao discorrermos acerca do mistério da Trindade santa, o fazemos conscientes da ousadia de uma incumbência, muito bem expressa pela grande escritora Clarice Lispector: "Será preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar à enorme surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita".
Cremos que uma possível senda para a compreensão do mistério da Santíssima Trindade se nos abra a partir da escuta dos textos sagrados de nossa tradição de fé que narram a presença do Pai e do Filho e do Espírito Santo no sinuoso curso da história bíblica da salvação. Surpreende-nos, antes de tudo, a experiência de desconcertante "proximidade" que culmina em inaudita "familiaridade". Façamos atenção, por exemplo, às seguintes palavras de Moisés dirigidas ao povo: "Interroga os tempos antigos que te precederam, desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra, e investiga de um extremo ao outro dos céus, se houve jamais um acontecimento tão grande, ou se ouviu algo semelhante. Existe, porventura, algum povo que tenha ouvido a voz de Deus falando-lhe do meio do fogo, como tu ouviste, e tenha permanecido vivo?" (Dt 4,32-33). A proximidade se revela como dádiva amorosa do Senhor. É Ele, de fato, quem toma a iniciativa de se aproximar de seu povo no intuito de lhe propor aliança dirigindo-lhe a palavra em meio às realidades e fenômenos do cotidiano. Oferecida gratuita e generosamente ao povo eleito, essa proximidade se traduz na promessa de vida longa e feliz sobre a terra (cf. Dt 4,40).
Paradigmáticas, nesse sentido, as palavras de Paulo comunicando-nos a boa notícia de que, aos nos deixarmos conduzir pelo Espírito de Deus, nós nos tornaremos, de fato, filhos do Pai: filhos no Filho na ternura e no vigor do Espírito: "Todos aqueles que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. De fato, vós não recebestes um espírito de escravos, para recairdes no medo, mas recebestes um espírito de filhos adotivos, no qual todos nós clamamos: Abá — Ó Pai!" (Rm 8,14-15). A efusão do Espírito Santo, dom que Pai e Filho fazem de si, santificando-nos, constitui o evento da máxima proximidade de Deus. Santifica-nos na medida em que, presente na interioridade de cada pessoa, ele se torna "mais íntimo nosso que nós mesmos", segundo as palavras de Agostinho em suas Confissões. A promessa de salvação, bem compreendida, remete-nos à experiência de sermos reconduzidos à comunhão com a vida do próprio Deus. Pois, segundo Paulo: "O próprio Espírito se une ao nosso espírito para nos atestar que somos filhos de Deus. E, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo" (Rm 8,16-17a). Derramado em nossos corações, presente no seio da comunidade eclesial, na intrincada trama dos processos históricos e nos meandros sutis da Criação, o Espírito nos vai conduzindo pelos caminhos de Jesus Cristo "até que Deus se torne tudo em todos" (1Cor 15,28).
Aqui precisamente reside o sentido profundo do batismo "em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28,16-20). Pois, de fato, é no batismo que o dom divino se torna conscientemente acolhido. É quando, pois, a salvação gratuitamente oferecida se nos revela como autodoação do Deus trino e uno e se exprime na promessa de nossa divinização, da transformação da história e da transfiguração do universo. É quando, ainda, através da profissão de fé no Pai e no Filho e no Espírito Santo, os fiéis batizados assumem o compromisso de se deixar conduzir pelo Espírito Santo para serem incorporados a Cristo, tornando-se, para todos os efeitos, corpo de Cristo. Pois, de fato, o Espírito Santo é quem realiza o lento e persistente processo de "conformação a Cristo" em cada fiel, no seio da comunidade eclesial, nos processos históricos e na inteira realidade criada.
Em razão do que dissemos, não há como escapar da seguinte incumbência: indagar acerca das eventuais implicações desse augusto mistério no que diz respeito à concreta maneira de testemunharmos nossa fé nos dias que correm. Somos interpelados, portanto, a perscrutar e discernir: os vestígios da Trindade na complexa trama da Criação; as pegadas do Deus trino e uno nos sulcos profundos da história; a imagem da comunhão trinitária refletida no seio de nossas comunidades eclesiais; os traços indeléveis da Trindade santíssima no rosto de cada pessoa humana.
Diante, pois, desse inefável mistério só nos restam, ao final, mudez e silêncio. Mas calamos no fim e não no começo. Só no fim mudez e silêncio se revelam dignos e respeitosos. No início, trairiam preguiça e irreverência. Pois como escreve Clarice Lispector: "Só posso alcançar a mudez se eu antes tiver construído toda uma voz. Ah, mas para chegar à mudez, que grande esforço de voz!".