Teólogas alemãs questionam o mito de Santa Maria Goretti como "mártir da pureza"

Santuário de Santa Maria Goretti (Foto: Wikimedia Commons)

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11 Julho 2026

Na segunda-feira, 6 de julho, a Igreja Católica celebrou a festa de Santa Maria Goretti. Ainda hoje, em certos ambientes católicos, essa jovem é venerada como "mártir da pureza" ou "mártir da virgindade". Mas que mensagens essa devoção transmite, especialmente quando analisada sob a ótica das pesquisas dos abusos, da psicologia do trauma e de uma teologia sensível às questões de gênero? É hora de abrir o debate.

O artigo é de Philippa Haase, Judith König e Ute Leimgruber, publicada por Katholisch.de, 06-07-2026.

Philippa Haase é mestra em Teologia, professora na Cátedra de Teologia Pastoral e Homilética da Universidade de Regensburg.

Judith König é professora de Exegese e Hermenêutica do Novo Testamento na Universidade de Regensburg.

Ute Leimgruber é teóloga pastoral de Regensburg.

Uma menina, vítima de um ato de violência

Maria Goretti nasceu em 1890, na Itália, em uma família muito pobre. Em 5 de julho de 1902, Alessandro Serenelli, então com vinte anos, tentou estuprar a menina, que tinha 11 anos na época. Maria opôs resistência, e Serenelli a esfaqueou repetidamente. Ela morreu no dia seguinte, em decorrência dos ferimentos.

A maneira como a história de Maria Goretti é contada, e os aspectos de sua morte que são enfatizados, não são questões secundárias. A Igreja apressou-se a interpretar sua morte como martírio, concentrando-se na ideia de que Maria havia sacrificado a vida para preservar sua "pureza". Ela foi canonizada pelo Papa Pio XII em 1950. Desde então, ela tem sido - e continua sendo - apresentada como um modelo a ser seguido para gerações de meninas católicas, transmitindo a mensagem de que é melhor morrer do que perder a própria inviolabilidade sexual.

Maria Goretti foi, em primeiro lugar, uma menina de 11 anos, vítima de um crime violento. No entanto, a tradição hagiográfica e a devoção eclesiástica instrumentalizaram sua história para impor um papel específico a mulheres e meninas. Não é, de forma alguma, inofensivo o fato de que a construção de sua santidade se concentre quase exclusivamente em dois requisitos impostos à vítima: a "pureza" sexual e o perdão ao agressor.

Um detalhe dos procedimentos eclesiásticos é particularmente relevante: o autor do crime citou "a beleza e o desenvolvimento físico precoce da menina" como fator atenuante. Vale ressaltar que Maria tinha apenas 11 anos quando os fatos ocorreram. Existe uma narrativa profundamente enraizada que retrata meninas e mulheres como sedutoras - em que até mesmo o corpo de uma menina pré-púbere é percebido como uma ameaça ao desejo masculino! - e que apresenta as agressões sexuais masculinas como uma espécie de reação "natural" (e, portanto, de certa forma, compreensível) à atração sexual feminina.

Esse tipo de narrativas faz parte do que se conhece como "mitos do estupro". Em vez de focar no agressor e em seu crime, a atenção se volta para as meninas, as mulheres e sua sexualidade. Nos estudos contemporâneos sobre violência, esse esquema é definido como a inversão dos papéis de vítima e agressor. No entanto, o que hoje é claramente identificado como uma estratégia problemática para se eximir de culpa, geralmente era - e continua sendo - ignorado nas interpretações da Igreja.

O que Maria Goretti transmite às mulheres e meninas católicas

Definir Maria Goretti como uma "mártir da pureza" baseia-se em várias premissas implícitas. Primeiramente, atribui-se valor normativo ao fato físico de ser "virgem" - isto é, nunca ter tido relações sexuais com um homem - e se equipara isso com a "pureza" moral, ligando diretamente o status ético ao status sexual. Em segundo lugar, transmite-se a ideia de que mesmo uma agressão sexual forçada possa privar a mulher dessa "pureza", como se fosse um estado que se perde com o ato sexual, independentemente das circunstâncias. Dessa forma, as mulheres são consideradas responsáveis pela preservação de sua própria integridade sexual, enquanto a sexualidade masculina é apresentada como uma força incontrolável da natureza. Uma das consequências diretas é que a obrigação de fazer respeitar os limites sexuais recai sobre as vítimas potenciais.

Em terceiro lugar, sugere-se que a proteção da "inviolabilidade" sexual é mais importante do que a própria vida. Esse conceito está sintetizado no famoso - e ainda difundido - lema "antes morrer do que pecar", muito comum na devoção a Maria Goretti e a outras "mártires da pureza". Dessa forma, o estupro é reinterpretado como um pecado cometido pela vítima caso ela não consiga impedir a violência sexual. Em outras palavras, também quem "sofre" e sobrevive a um estupro estaria cometendo um pecado, não apenas a pessoa que perpetra a agressão. Ao fazer isso, o crime violento e a responsabilidade do agressor tornam-se completamente invisíveis.

A simbologia e a interpretação da história de Maria Goretti também entram em jogo no contexto dos abusos dentro da Igreja. No relatório sobre os abusos na Diocese de Fulda, uma vítima recorda como essa narrativa a afetava: "Forçavam-me a interpretar essa santa várias e várias vezes; eu tinha de desempenhar o papel de Maria Goretti que se defendia. Isso sempre me aterrorizava". Em seu depoimento, a memória da santa está diretamente entrelaçada às suas experiências de violência sexual. Seu agressor identificava-se abertamente com Serenelli, forçando a vítima a encarnar a "santa" que resiste aos abusos. Aqui, vemos como uma mensagem religiosa pode ser profundamente nociva (capaz de ferir): longe de ser vivenciada como um refúgio ou uma proteção, se torna mais uma forma de agressão.

O que Maria Goretti transmite às vítimas

Após ter sofrido uma agressão, as vítimas de violência sexual se veem repetidamente tendo de responder à pergunta se ofereceram resistência suficiente. A história de Maria Goretti torna-se, assim, uma advertência dirigida às mulheres: se as vítimas tivessem se comportado de outra forma ou feito algo diferente, não teriam acabado naquela situação. Isso apenas reforça os mitos sobre o estupro e transfere a culpa do agressor para a vítima. A esse respeito, Virginie Despentes observa: "Se realmente nossa preocupação fosse não ser estupradas, teríamos preferido morrer (...). É disso que os agressores se convencem a cada situação: se a vítima sobrevive, é porque, no fundo, ela não achou tão ruim assim".

A atual psicologia do trauma demonstra que as pessoas reagem à violência de maneiras muito distintas. Muitas vítimas não se defendem ativamente, mas entram em um estado de dissociação: algumas paralisam, outras se submetem à situação e outras vivenciam a cena como se a observassem de fora. Nenhuma dessas reações implica consentimento; pelo contrário, constituem mecanismos de defesa psicológica diante de um perigo de morte iminente. Precisamente por isso, as histórias de santas que, segundo os relatos, lutaram até a morte contra uma agressão sexual podem resultar tão problemáticas para as vítimas, pois impõem implicitamente uma comparação dolorosa: Por que não reagi daquela maneira? Por que sobrevivi?

Em seu livro Ich bleibe. Katholisch. Trotzdem (Permaneço. Católica. Apesar de tudo"), a psicóloga e vítima de abusos Christina Zumdieck descreve como a história de Maria Goretti influenciou sua vida. Após ter sofrido abuso sexual por parte de um padre, sua mente concentrou-se imediatamente em seu suposto fracasso: "Essa história me fazia sentir constantemente culpada por não ter defendido minha inocência com todas as minhas forças". Ela não conseguia se libertar desse círculo vicioso da autoculpabilização, nem mesmo quando, mais tarde, foi estuprada fora do ambiente eclesiástico. Naquela ocasião também, sua prioridade não foi responsabilizar o agressor; em vez disso, ela vivenciou um "tsunami de culpa" por não ter sido capaz de defender sua "inocência" uma segunda vez.

Há outro aspecto da hagiografia de Maria Goretti que, de nosso ponto de vista, é altamente problemático. Segundo a tradição, Maria perdoou Serenelli em seu leito de morte. Mais tarde, enquanto estava na prisão, ele passou por uma conversão (fala-se até em uma visão na qual ela lhe entregava lírios), ingressou em uma ordem religiosa e, por fim, compareceu à canonização da santa. Dessa forma, Maria Goretti, a guardiã exemplar de sua própria "pureza" física e moral, torna-se também a "salvadora" de seu assassino. Sua santidade reside em abrir-lhe as portas da salvação. Assim, a transformação do agressor não é atribuída principalmente às suas próprias ações (arrependimento, penitência ou a aceitação da responsabilidade pelo crime), mas às orações e ao perdão dela no momento da morte. A questão aqui não é o perdão em si, mas a sequência de fatores e a obrigação implícita imposta à vítima: resistir, permanecer "pura", perdoar e, se necessário, morrer. Não existe um pedido equivalente para o (potencial) agressor.

Uma interpretação diferente dentro da tradição

Interpretar Maria Goretti como uma "mártir da pureza" é apenas uma das muitas maneiras de analisar a violência sexual a partir da perspectiva cristã, e certamente não é a única obrigatória. Já o Padre da Igreja Agostinho abordou - e rejeitou categoricamente - a posição daqueles que argumentavam que mulheres cristãs estupradas deveriam cometer suicídio, antes ou depois da agressão, para demonstrar sua castidade ou expressar sua vergonha. Para Agostinho, é claro que o pecado do estupro deve ser sempre e exclusivamente atribuído ao agressor e que "a castidade corporal não se perde devido à violência sofrida à força".

Portanto, no âmbito do cristianismo, não é inevitável interpretar a violência sexual como uma ameaça à integridade moral e sexual da vítima. Um estupro nunca é um pecado de quem o sofre, embora as visões misóginas de pureza dentro da tradição cristã tenham contribuído repetidamente para que assim parecesse.

Conclusão

Como abordar santas como Maria Goretti e suas interpretações?

As experiências das vítimas demonstram que narrativas normativas sobre meninas e mulheres que preferem morrer a sofrer uma violência sexual, intensificam os sentimentos de culpa, aumentam a vergonha e podem criar a impressão de ter fracassado simplesmente pelo fato de terem sobrevivido à violência. Nossa intervenção visa sensibilizar a opinião pública sobre o impacto dos mitos sobre o estupro e sobre a complexa problemática ligada às "mártires da pureza". Acreditamos que essa categoria não é mais sustentável, especialmente à luz dos milhares de mulheres e meninas que sofreram abusos dentro da Igreja.

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