Onde estão os justos. Artigo de Giorgio Agamben

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08 Julho 2026

"O mistério do direito, isto é, o mistério da culpa e da pena, não deve ser confundido com o mistério da justiça. Por isso seja, talvez, bom que os culpados sejam punidos, mas não é, todavia, seguro de que os justos devam ser premiados.  Eles caminham pelo mundo sem serem reconhecidos até o fim dos tempos e é apenas dessa maneira, reza a lenda, que salvam o mundo."

O artigo é de Giorgio Agamben, filósofo italiano, em artigo publicado por Quodlibet, 03-07-2026. A tradução é de Ricardo Evandro S. Martins.

Eis o artigo. 

Quem são os justos? O que significa ser justo? Certamente não se trata de uma qualidade de um sujeito, de um atributo deste ou daquele homem, desta ou daquela mulher. A justiça — escreveu Benjamin — é um estado do mundo, é uma dimensão do ser, não da vontade ou da intenção. Justas são as coisas, dizia Espinosa, quando as vemos não em um certo tempo ou em um certo lugar, mas quando as vemos em Deus. Por isso a justiça é qualquer coisa que não se pode jamais possuir, mas apenas contemplar. E, no entanto, quando vemos as coisas como elas são em Deus, o ser flor daquela flor, o ser sorriso daquele sorriso, o ser inocência daquela pessoa inocente, então provamos uma necessidade da qual não podemos escapar, uma necessidade que não te pede nem te comanda nada, mas que age em ti para além de toda vontade ou de todas as intenções – é assim, e não há mais nada a fazer.

Nunca vou me esquecer das palavras de uma jovem que pertencia a uma organização de resistência em um país ocupado pelos nazistas. Ela havia sido presa e torturada, mas não havia falado nada. Quando foi libertada, os companheiros quiseram celebrá-la como uma heroína, diziam a ela que se ela havia conseguido suportar a tortura era por conta da força de suas convicções políticas, pela sua fidelidade à causa, e outras bobagens assim. Mas ela balançava a cabeça e só dizia: não, eu fiz isso porque me agradava, por capricho. Ela havia visto a justiça, havia sentido uma necessidade que a tomava por toda parte, mas não havia pensado num só instante de que teria sido justa, de que a justiça pudesse pertencer a ela. Se ela tivesse apenas acreditado na causa justa, mas não tivesse visto a justiça, teria cedido à tortura, teria falado.

Por isso, segundo a tradição judaica, os justos, os zaddiqim, estão ocultos no mundo, ocultos sobretudo a si mesmos. E por isso que há algo de paradoxal em se querer premiar os justos, como se se tratasse da outra face daquela justiça que consiste em punir os culpados. Assim como a pena não pode mais provir da justiça, mas apenas do direito, tampouco a recompensa e o reconhecimento pertencem à justiça. O justo reconhecido e premiado, o zaddiq que não está mais oculto, não é mais um justo.

O mistério do direito, isto é, o mistério da culpa e da pena, não deve ser confundido com o mistério da justiça. Por isso seja, talvez, bom que os culpados sejam punidos, mas não é, todavia, seguro de que os justos devam ser premiados. Eles caminham pelo mundo sem serem reconhecidos até o fim dos tempos e é apenas dessa maneira, reza a lenda, que salvam o mundo. 

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