O projeto de inviabilização do voto à esquerda no Brasil. Artigo de Sérgio Ricardo Gonçalves Dusilek

Foto: Gabriella Clare Marino/Unsplash

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03 Julho 2026

"O que proponho, então? Defendo que caberia ao MEC viabilizar, mediante avaliações e recredenciamentos, um processo de acompanhamento que valorize um bom corpo docente nas IES credenciadas e que fornecem cursos de Teologia, bem como a manutenção do pensamento crítico, dialogal e de uma literatura de apoio que também seja criteriosa e instigadora da reflexão. Todavia, reforço: não deveria caber ao MEC do Governo Lula a certificação de uma teologia fundamentalista", escreve Sérgio Ricardo Gonçalves Dusilek, mestre e doutor em Ciência da Religião pela UFJF/MG, com estágio pós-doutoral concluído em 2025 pelo PPG Letras da UEMS com bolsa CAPES; professor e pastor batista.

Eis o artigo.

"Um semeador saiu a semear. E, ao semear, uma parte caiu à beira do caminho, foi pisada, e as aves do céu a comeram" (Lucas 8.5)

Há um processo silencioso em curso e que pode implicar no encolhimento da esquerda como legítima opção eleitoral que é: falo da conformada formação de pastores no molde fundamentalista. Só que com um agravante: o MEC de Lula reconhecendo seus diplomas de Teologia.

A bem da verdade o fundamentalismo sempre flertou com o preparo de lideranças, de pastores, em diversas fases das casas teológicas do protestantismo histórico. Para você ter uma ideia, na década de 1960 o ataque foi entre os presbiterianos da IPB; já na década de 80 foi entre os batistas da CBB [1]. Mas a partir de 2000 passou a haver um pesado investimento do fundamentalismo estadunidense visando tomar a cátedra dos seminários e determinar o futuro das lideranças e das igrejas. E eles conseguiram quando reverteram a lógica da ação, semeando nas bases.

Não foram poucos os recursos derramados no Brasil oriundos do fundamentalismo estadunidense. A promoção de congressos cuja explícita doutrinação tem sido a tônica de sua infidelidade ao ensino do Mestre foi em muito ampliada, assim como a interiorização das chamadas "Clínicas de Pregação Expositiva" que nada mais são do que uma forma levar o pacote fundamentalista para os rincões deste país, sempre sob a tutela de um missionário norte-americano.

A questão é que a pregação fundamentalista não prepara o solo, antes o compacta, endurece. Joga para às margens, para à beira do caminho, o que deveria estar no centro. De tanto pisar e repisar a doutrinação fundamentalista o solo da vida e das interações se torna duro, compacto. Eis o motivo porque nada mais consegue germinar; as sementes lançadas pela vida e que chegam ao longo do viver, não penetram terra pisada. Seu fim acaba sendo como alimento das aves do céu (figura bíblica associada à deliberada ação do Maligno) ou terminam por secar diante da menor exposição ao sol.

Estas intervenções, assim como as produzidas pelos diversos cursos livres de Teologia ou de preparo de líderes ofertados pelas mais diferentes igrejas, por "vibrarem em subwoof", não podiam ser detectados pelos instrumentos pertencentes à formalidade governamental. Entretanto, quando voltamos nossa análise para os cursos com reconhecimento formal do MEC, o governo deveria ser capaz de identificar a semeadura antidemocrática que vem acontecendo sob seus auspícios, debaixo do seu nariz.

O quadro não podia ser pior. Na minha percepção, calculo que somente 5 (talvez sete, se tanto) cursos de Teologia ligados às denominações evangélicas e reconhecidos pelo MEC, ainda não foram subjugados pelos fundamentalistas. Há ainda os cursos de Teologia atrelados à Universidades, Centros de Ensino e, portanto, não confessionais. Nestes casos, não quer dizer que não sofram ataques, mas que tais inserções ainda não chegaram à cátedra; as ações fundamentalistas miram o ambiente externo, mediante uma sistemática campanha de descredibilização para que potenciais alunos e interessados não procurem tais instituições.

Os cursos de Teologia de caráter confessional (evangélico, no caso) que ainda não se dobraram a "Baal" seguem sendo torpedeados pelo fundamentalismo. Todavia, seu qualificado corpo docente e a presença de uma liderança lúcida nos estamentos decisórios de tais denominações têm preservado tais casas de ensino teológico e formação ministerial da cooptação fundamentalista.

No tocante as demais, está tudo dominado. Não há estímulo ao pensamento crítico. Na verdade os currículos e atuais professores preparam técnicos braçais para a respectiva estrutura denominacional. A tônica é no fazer e não no pensar. É o rebaixamento do Curso de Teologia para curso técnico, uma espécie de "pronatec teológico" [2].

Mas qual é o problema deste processo? Isto não deveria dizer respeito somente às respectivas denominações? Não. Estamos falando da formatação de uma nova geração de líderes dentro da pequenina moldura fundamentalista na qual não existe a possibilidade eleitoral à esquerda. Estamos também falando de sementes antidemocráticas cujo florescimento em forma de espinhos, machucarão o povo e provocarão profundas ranhuras na democracia. Segundo esta linha, "os comunistas" querem destruir a igreja, não sendo possível que sequer sejam crentes. É posicionado na mente dos futuros pastores que ser crente e de esquerda seria algo incompatível, irreconciliável, uma vez os termos serem, segundo eles, mutuamente excludentes.

Ora, daqui a no máximo 10 anos, teremos a grande maioria das igrejas evangélicas no Brasil sendo pastoreadas por fundamentalistas, que trabalharão noite e dia para inviabilizar a esquerda neste país. Neste projeto de mundo evangélico cada vez mais distante do Evangelho de Jesus de Nazaré, o mundo perde a palheta de cores, tornando-se cinzento, fruto de uma univocidade. O que hoje está ruim, visto que parece haver uma resistente redoma sobre os evangélicos que, somada a inapetência histórica do PT em lidar com tal segmento religioso, impede o diálogo e a aceitação do governo Lula-3, pode ficar ainda pior, caminhando para uma intolerância e, quem sabe, atingir o paroxismo de uma hostilidade frontal e aberta a quem se diz de esquerda. O que hoje aparece como acontecimento lamentável, porém pontual, findaria. Não falaremos mais de casos aqui e alhures, mas de uma repulsa em massa.

Mesmo que a taxa de crescimento dos evangélicos arrefeça, a continuar sua expansão a tendência é que a esquerda seja inviabilizada como possibilidade eleitoral para cargos majoritários, relegando-a a disputa de vagas para deputado e vereança. Isto seria trágico para a democracia como um todo e para o chamado "Brasil profundo" em particular.

Penso que se as denominações evangélicas querem optar pela "mediocridade" dos seus quadros, precisa ser respeitado como um lamentável (por sinal) direito que lhes assiste. Agora, que façam isso como curso livre e não debaixo da chancela do MEC dirigido pelo PT. A esquerda está nutrindo a áspide que a devorará em uma década, se tanto.

O que proponho, então? Defendo que caberia ao MEC viabilizar, mediante avaliações e recredenciamentos, um processo de acompanhamento que valorize um bom corpo docente nas IES credenciadas e que fornecem cursos de Teologia, bem como a manutenção do pensamento crítico, dialogal e de uma literatura de apoio que também seja criteriosa e instigadora da reflexão. Todavia, reforço: não deveria caber ao MEC do Governo Lula a certificação de uma teologia fundamentalista.

Notas

[1] DUSILEK, S. R. G. (2025). Secaram o Oásis: Gestões e In-digestões da res Batista no caso e ocaso do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil. Protestantismo Em Revista, 44(1), 180–206.

[2] Nada contra o Pronatec. Mas em geral, as humanidades não podem ser resumidas a um curso técnico. Pense: como seria uma terapia com um psicólogo habilitado por um curso técnico de Psicologia? Que tipo de historiador pode-se ter de um egresso do que seria um curso técnico de História?

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