01 Julho 2026
Narciso Trump não consegue mais desviar o olhar da água, embriagado e extasiado consigo mesmo, em seu reflexo perpétuo. Ele não vê mais ninguém.
O artigo é de Antoni Gutiérrez-Rubí, especialista em comunicação política e diretor do Ideograma, em artigo publicado El País, 30-06-2026.
Eis o artigo.
Os autocratas são fascinados por arquitetura e escultura. Acreditam que a pedra imortaliza e consolida o seu poder, tornando-o eterno e memorável: arcos triunfais, estátuas imponentes, monumentos com colunas, grandes avenidas e edifícios. Também lagos, jardins... e piscinas. Tudo para projetar o culto à liderança.
Donald Trump tem como objetivo intervir na capital, Washington. A cidade é o símbolo da política americana, portanto, sua transformação é um passo fundamental para mudar o sistema e o país. Além disso, ele nutre uma animosidade particular em relação à capital, fruto de um orgulho ferido: nas eleições de 2024, 90% dos eleitores votaram em Kamala Harris, a candidata democrata. E Trump não perdoa, como vimos nos constantes confrontos entre seu governo e os líderes eleitos de Washington.
Trump, o magnata imobiliário, não se contenta em definir os horizontes das grandes cidades com seus arranha-céus e torres douradas. Agora, Trump, o presidente sem limites, professa um culto à arquitetura imperial. Com esse objetivo em mente, o presidente iniciou inúmeras reformas, desde o tão desejado arco do triunfo até a grandiloquência kitsch de modificar a estrutura da Casa Branca, passando pela alteração do espelho d'água em frente ao Lincoln Memorial para que projete e reflita uma cor azul mais próxima à da bandeira americana. O fracasso de suas reformas é uma metáfora perfeita para seu governo: improvisação técnica, desprezo pela natureza, arrogância institucional e má gestão orçamentária. Mas Trump não reconhece nenhum fracasso e, com total impunidade, atacou todos e tudo para justificar o fiasco.
Este último e constrangedor episódio com o espelho d'água é altamente simbólico de sua personalidade presidencial. O mito conta a história de Narciso, um jovem de grande beleza. Ele estava destinado a uma longa vida, contanto que nunca visse seu próprio reflexo. Os anos se passaram e muitos se apaixonaram por ele, mas o jovem rejeitou todos. Sua arrogância era incompatível com o amor. Uma de suas vítimas foi a ninfa Eco, que definhou de tristeza. Em vingança, a deusa Nêmesis levou o jovem Narciso a um rio onde ele viu seu próprio reflexo. Instantaneamente, ele ficou cativado por sua própria imagem. Tanto que não conseguiu desviar o olhar e acabou morrendo na margem do rio. Ele morreu por contemplar a si mesmo por tanto tempo.
A presidência de Donald Trump é a mais egocêntrica da história dos EUA. Um culto à personalidade caracteriza muitas das mudanças que ele implementa em Washington: seu rosto foi estampado nas fachadas de prédios federais, e ele tentou colocar seu nome no Kennedy Center, embora um juiz tenha anulado a decisão. Mas ele não para por aí. Para celebrar o 250º aniversário da Independência, o Departamento de Estado emitiu um passaporte comemorativo com o retrato seu ao lado da Declaração de Independência e dos Pais Fundadores. Esta é a primeira vez na história que um documento de viagem americano inclui o rosto de um presidente em exercício. Ele pretende fazer o mesmo com notas e moedas.
Mas Trump é verdadeiramente obcecado pela pedra. O desejo de Trump de ser incluído ao lado de George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln tem sido uma aspiração obsessiva de seu governo e de seus seguidores. Recentemente, o próprio presidente compartilhou uma imagem editada digitalmente no Truth Social, mostrando-o esculpido no Monte Rushmore. Isso não acontecerá na realidade, mas Trump já confundiu os limites entre o que é real e o que é imaginado. A inteligência artificial que ele usa provocativamente, como parte de sua guerra cultural, o transforma, quando lhe convém, em Jesus Cristo ou na quinta estátua de pedra dos fundadores da nação.
Sua vaidade é o epicentro institucional e político de seu governo e de sua agenda. Como todos os autocratas, ele celebra seu aniversário como uma extensão de seu ego e submete à servidão instituições e símbolos que deveriam representar a nação e são patrimônio de todos. No ano passado, ele realizou um desfile militar em seu aniversário e, este ano, promoveu um evento do UFC no gramado da Casa Branca.
Trump não vai recuar. E nunca recuará. Há poucos dias, em uma entrevista para o livro "Regime Change", dos jornalistas Maggie Haberman e Jonathan Swan, ele próprio questionou, demonstrando uma análise histórica duvidosa, se alguém na história já teve mais poder do que ele exerce hoje. E vangloriou-se de ser o homem mais poderoso da história, comparando-se a Átila, o Huno, Gengis Khan, Alexandre, o Grande, Júlio César, Napoleão Bonaparte, Stalin, Mao e Hitler. Narciso Trump não consegue mais desviar o olhar da água, embriagado e extasiado consigo mesmo, em seu reflexo perpétuo. Ele não vê mais ninguém além de si mesmo.
Nos próximos dias, durante as festividades e comemorações do 250º aniversário da Independência dos EUA, veremos imagens vergonhosas e deploráveis que mancharão a imagem de uma nação e de uma história tão exemplares em tantos aspectos. Mas ela perdurará, como sempre, apesar da atual situação desanimadora.
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