30 Junho 2026
Enquanto o presidente eleito visita santuários em sua "turnê de ação de graças pela Pátria Milagrosa", o presidente cessante viaja ao Vaticano para um encontro com o Papa Leão XIV.
A informação é de Juan Esteban Lewin, publicado por El País, 30-06-2026.
No sábado, Abelardo de la Espriella ajoelhou-se diante do Santíssimo Sacramento no Santuário do Senhor dos Milagres, em San Pedro de los Milagros, Antioquia. Horas e centenas de quilômetros depois, na fronteira com o Equador, rezou o terço diante da fachada neogótica do Santuário de Las Lajas e orou em voz alta pela paz, reconciliação e unidade nacional. O tempo e as restrições o impediram de chegar a Chiquinquirá, em Boyacá, onde planejava visitar a Basílica de Nossa Senhora do Rosário, então o dia terminou no Santuário do Menino Jesus, onde o presidente eleito pediu sabedoria para governar e renovou a consagração da Colômbia ao Sagrado Coração de Jesus. Ele batizou a viagem de “Peregrinação da Esperança pela Pátria Milagrosa”, uma expressão que resume bem o tom com que o presidente eleito decidiu inaugurar sua viagem à Casa de Nariño: antes dos anúncios do gabinete, vêm o incenso e a oração.
Não se trata de uma narrativa nova para um presidente recém-eleito que, ao receber suas credenciais, colocou a religião em primeiro lugar. Ele agradeceu a "Deus Todo-Poderoso, fonte de sabedoria e guia das nações" e aos mais de 13 milhões de colombianos que votaram nele, a quem descreveu como portadores de "um mandato de esperança". No domingo, quando a Marinha, a Força Aérea e um grupo de pescadores resgataram dois jovens perdidos em Barú, o político de extrema-direita rapidamente chamou o evento de "verdadeiro milagre" e atribuiu parte do mérito à proteção da "Virgem" com seu manto. Nem todos acreditaram no discurso: em X, um cidadão disse para ele "pegar leve com essa coisa de religião", que ele já tinha vencido e que parecia "exagerando". Mas a maioria das respostas foi um coro de "Louvado seja Deus" e citações bíblicas, um sinal de que a mensagem de fé, que marcou sua campanha, encontrou eco.
Enquanto De la Espriella visitava santuários em seu próprio país, o presidente cessante embarcava em uma viagem na direção oposta. Gustavo Petro chegou a Roma nesta segunda-feira, feriado nacional, onde tem um encontro marcado com o Papa Leão XIV na quinta-feira, 2 de julho, com quem já havia agendado uma reunião para 2025. O objetivo declarado da viagem do presidente de esquerda cessante é pedir ao pontífice que apoie uma campanha internacional em defesa dos beneficiários da reforma agrária, após a Agência Nacional de Terras denunciar uma escalada de ameaças e ataques contra comunidades camponesas, indígenas e afro-colombianas que receberam terras durante seu governo. A agência documentou, entre outros casos, um ataque armado a uma família na aldeia de Nare, em Puerto López, Meta; ameaças de morte na fazenda La Palmira, em Córdoba; e intimidação contra o conselho comunitário de Sabaletas, em Tuluá. “Sabemos os nomes dos suspeitos que vêm da máfia que se apropriou das terras na Colômbia”, escreveu Petro em X, numa mensagem que misturava denúncia política e apelo moral: “Com humanidade construiremos a defesa do humilde povo da Colômbia”.
A coincidência é bastante reveladora. Na mesma semana, o líder de esquerda prestes a deixar o poder e o líder de extrema-direita prestes a assumi-lo recorreram, em seus respectivos campos, ao mesmo repertório simbólico: o catolicismo. Petro, que fez da causa camponesa e da redistribuição de terras uma de suas principais bandeiras, busca no Vaticano um fórum internacional para fundamentar sua luta na Bíblia e na hierarquia católica. De la Espriella, que chega ao poder com o apoio de um eleitorado mobilizado mais pela rejeição ao governo anterior do que por um programa detalhado, utiliza a consagração religiosa como um ritual de legitimação: antes de anunciar seu gabinete, apresenta uma narrativa providencial.
É um paradoxo com raízes profundas. Desde a Constituição de 1991, a Colômbia é um Estado formalmente laico, e grande parte de sua classe política — de direita ou de esquerda — tradicionalmente evita misturar explicitamente a linguagem da fé com a do governo. O historiador Jorge Orlando Melo descreveu a política colombiana como herdeira de uma dualidade de um século e meio entre uma tradição católica, familiar e conservadora, e uma reformista e igualitária que só encontrou um caminho eleitoral claro após o fim da guerra com as FARC em 2016. O que chama a atenção neste final de junho é que ambos os polos dessa dualidade — o que defende a herança conservadora e o que incorpora o projeto reformista — apelam, quase simultaneamente, ao mesmo panteão de santos.
Isso pode ser interpretado como uma mera coincidência de datas, mas também como um sintoma. Em um país onde instituições seculares como os tribunais, o Congresso e os órgãos de fiscalização estão enfraquecidas há meses pelo confronto entre os poderes e pela desconfiança em relação ao governo cessante, não surpreende que os dois extremos do espectro político encontrem o mesmo refúgio retórico: um que não depende de maiorias parlamentares ou decisões judiciais, mas de uma tradição religiosa que permanece a linguagem mais difundida entre os colombianos, mesmo diante da Copa do Mundo. O fato de essa linguagem servir agora tanto para pedir proteção internacional quanto para empossar um governo diz menos sobre a fé de Petro ou de De la Espriella do que sobre o estado dos instrumentos seculares nos quais nenhum dos dois, por diferentes razões, parece confiar plenamente.
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