Peru. A soma dos medos. Artigo de José Carlos Agüero

Keiko Fujimori. (Foto: Wikimedia Commons | La Prensa Gráfica Noticias de El Salvador)

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30 Junho 2026

Vinte e seis anos após a queda do regime de Alberto Fujimori, sua filha, ligada a grupos de interesse autoritários, assumirá a presidência.

A opinião é de José Carlos Agüero, escritor e historiador. É autor de Persona (Comisura), obra que recebeu o Prêmio Nacional de Literatura do Peru. O artigo é publicado por El País, 30-06-2026.

Eis o artigo.

Apesar da enorme sombra que projeta sobre a história recente, subestimamos o medo. As eleições na América do Sul, com o triunfo nos últimos anos de figuras da extrema-direita que não escondem a sua violência e que praticam uma política de crueldade, são um exemplo disso. Bolsonaro, Milei, Kast, de la Espriella e, agora, Keiko Fujimori, parecem se alimentar de medos semelhantes.

No Peru, a vitória da filha do ex-ditador Alberto Fujimori é dada como certa. Seus laços com grupos de interesse autoritários, que controlam economias e redes de tráfico em um espaço onde as fronteiras entre o legal e o ilegal se confundem, não são segredo. Seu desprezo pelos processos democráticos também é flagrante; pelo contrário, é ostensivo.

Por que eleger alguém que não esconde sua violência? Nas semanas que antecederam a eleição, o fujimorismo exerceu seu poder, já que governa o país efetivamente a partir do Congresso. Aprovou leis para criar uma nova lei de anistia, para dar mais poder à polícia, para controlar o judiciário e para perseguir jornalistas. Essas ações são visíveis. Não são maquinações secretas à espera de uma proclamação para serem executadas.

É evidente para todos que estas eleições estão dando mais poder a alguém que já o detém e abusa dele. Um indivíduo temível. Que medos poderiam ser maiores, tornando-o preferível?

No Peru, os pesadelos não pertencem ao reino dos sonhos. Entre 1980 e 2026, períodos de extrema violência, epidemias, pobreza, caos político e regimes autoritários se sucederam. Pelo menos quatro gerações internalizaram o medo não dos problemas da vida contemporânea, mas da própria tragédia. Uma forma de habitar o mundo como testemunhas e sobreviventes.

O passado é tudo o que foi sofrido. Uma época de extrema vulnerabilidade, onde quase não havia controle sobre nada, nem sobre o país, nem sobre a própria vida. É repleta de eventos traumáticos, impossíveis de processar: carros-bomba do Sendero Luminoso, massacres militares, valas comuns, repressão. Cristalizados na memória, esses eventos não envelhecem. Formam um pacote completo, tão destrutivo que, quando evocados, seus efeitos são enfatizados e seus perpetradores são "esquecidos".

Grupos de poder, mídia corporativa e figuras da nova direita vinculam o passado, em seu discurso, a uma única entidade que engloba a violência política, as lutas cidadãs e o ativismo de esquerda como um único "mal". Essa ameaça imaginária, embora fantasiosa, é vivenciada intensamente, desencadeando impulsos racistas e sexistas que, em tempos menos turbulentos, costumam ser reprimidos.

Esse medo é compartilhado por vastos setores da população, que o vivenciam como uma perda, como um risco de desintegração da ordem mínima que os mantém à tona sob o capitalismo brutal do Peru. Inúmeras mensagens nas redes sociais pedem votos para Fujimori, reconhecendo sua natureza antipolítica, mas preferindo-a ao que é percebido como um retorno ao caos. Paradoxalmente, para milhões que trabalham no setor informal, a precariedade é uma mercadoria que pode ser perdida, porque existe algo pior do que a incerteza: a certeza do insuportável.

Uma forma desse medo é particularmente triste. Aos olhos de uma parcela considerável da população, a resistência, as práticas dissidentes e até mesmo a solidariedade são percebidas como perigo. Essa reinterpretação é promovida pelos defensores de uma neolinguagem desinibida e irracional, imposta pelos influenciadores da nova direita.

O uso da categoria “terrorismo” para resumir as práticas dissidentes é interpretado por aqueles no poder como uma forma de permitir abusos desproporcionais e impunidade. Diante desse desafio, os detentores do poder aniquilam, massacram e ampliam suas punições sem limites claros, criando a impressão de que podem afetar qualquer pessoa.

Os diversos candidatos de esquerda, seus apoiadores, organizações de direitos humanos, líderes indígenas ou sociais e cidadãos que se opõem ao autoritarismo geram medo, não pela justiça ou natureza de suas ações, mas pela violência que será desencadeada em retaliação e pelos imensuráveis ​​danos colaterais que a repressão por parte daqueles que estão no poder causará.

Isso não é uma hipótese. Em 2023, os protestos contra o governo de Dina Boluarte, apoiado por Fujimori e seus aliados, foram recebidos com um massacre. Nas semanas que se seguiram à eleição, como se preparassem o terreno para o início do governo de Keiko Fujimori, o Congresso apressou-se a aprovar leis que garantiam que crimes cometidos pelas forças de segurança não seriam investigados nos tribunais comuns, limitando o escopo dos crimes contra a humanidade e criando um cadastro nacional de organizações terroristas.

O medo mobiliza sensibilidades feridas, acelera traumas por meio da manipulação e recompensa uma mentalidade conservadora, tanto entre as elites quanto na população em geral. Assim começa um novo regime Fujimori, 26 anos após a queda do primeiro. Capitalizando sobre esses medos. Prometendo novos. Este mapa de medos é o que a cidadania deve enfrentar, com uma coragem igualmente inabalável.

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