Argentina, Honduras e agora Colômbia: Trump interfere nas eleições na América Latina com total impunidade e isso lhe traz bons resultados

Foto: Wikimedia Commons

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24 Junho 2026

O presidente dos EUA exerce uma ingerência baseada em ameaças e cenouras sobre países muito dependentes, cuja população termina votando sob uma poderosa influência externa.

A reportagem é de Andrés Gil, publicada por El Diario, 24-06-2026. 

Será que Javier Milei teria ganhado as eleições legislativas sem o apoio político e econômico de Donald Trump na campanha eleitoral? Teria ganhado o mesmo Milei que havia sofrido, pouco antes, uma sonora derrota na província de Buenos Aires? E Nasry Asfura? Teria ganhado em Honduras o candidato da extrema-direita sem o apoio explícito de Trump, inclusive com o indulto de um membro de seu partido, Juan Orlando Hernández, ex-presidente do país condenado em um tribunal dos EUA por introduzir 500 quilos de cocaína no país? O presidente dos EUA não teve escrúpulos em indultar Hernández antes das eleições e apostar em Asfura, que venceu por pouco, em uma votação acirrada, o liberal Salvador Nasralla, que se via vencedor até as ingerências de Trump.

E Abelardo de la Espriella? O que teria sido do ultra colombiano sem o cerco de Trump ao presidente colombiano, Gustavo Petro, e sem a repetida aposta em campanha contra o rival de Iván Cepeda? O que teria sido sem esses golpes na Colômbia de Petro e essas promessas a uma futura Colômbia presidida por De la Espriella?

A proximidade e as relações de dependência na América Latina em relação a Washington são fundamentais para entender o impacto do intervencionismo de Trump. Da mesma forma, já não funciona igual na distância europeia.

Por exemplo, por mais que se alinhasse com Viktor Orbán, o ultra húngaro acabou derrotado nas urnas. O mesmo aconteceu com a AfD, os ultras alemães apoiados por JD Vance e Elon Musk: não conseguiram a ultrapassagem nas últimas eleições gerais alemãs.

E é que, da mesma maneira que na América Latina Trump joga com seu poder de coerção para moldar os governos à sua imagem e semelhança, na Europa o trumpismo já perde força em muitos países. Por exemplo, na Itália, onde Giorgia Meloni tem sido uma pessoa próxima a Elon Musk e compartilha a maioria das ideias de Trump, mas abriu-se uma brecha entre eles após os ataques do presidente dos EUA ao Papa.

Pode-se ser muito trumpista, mas na Itália a Igreja Católica está em primeiro lugar.

Mas essa mesma distância em relação a Trump está sendo mostrada por outros líderes europeus, como se viu com as negativas em ajudar a Casa Branca a sair do vespeiro no qual ela própria se meteu em 28 de fevereiro passado no Irã. Isso aponta para uma mudança de paradigma que não ocorre na área em que o presidente dos EUA exerce mais a sua influência: o que a Casa Branca chama de quintal dos fundos ou Hemisfério Ocidental, que vem a ser a América Latina.

E todas essas manobras ficam impunes e não recebem nem o menor rastro de reprovação por parte das organizações observadoras dos processos eleitorais, tampouco por órgãos multilaterais como a ONU, a OEA ou a UE, apesar de o direito internacional preservar o princípio de não intervenção de agentes externos em processos eleitorais.

Dessa maneira, a democracia representativa na América Latina se vê rebaixada quando o país com maior poder do mundo se põe a ameaçar os cidadãos com repercussões negativas, ainda mais en países que têm tanta dependência dos EUA. De fato, Trump, a partir da impunidade que possui, pratica sem complexos a ingerência em países que dependem dos EUA, conseguindo governos aliados por poucos votos, como se está vendo na Colômbia e no Peru, onde a esquerda está sendo derrotada por décimos.

Para onde teriam se inclinado esses décimos sem as sanções, as ameaças, as coações e as intervenções da Casa Branca? E tudo isso em um contexto no qual os processos eleitorais refletem as desigualdades históricas entre esquerda e direita, com campanhas austeras para a esquerda frente a campanhas milionárias da direita, apoiada sempre pelas elites econômicas e políticas do continente.

A tudo isso deve-se somar o crescimento do consumo das redes sociais, ainda mais entre a classe trabalhadora latino-americana, que consome muito TikTok, o que torna muito difícil rastrear o financiamento dessas campanhas, que em alguns casos nasce no exterior e é direcionado para encher as redes sociais de anúncios dos candidatos de direita: o financiamento de anúncios nas redes sociais é caro, a própria elaboração desses anúncios também, e em um mundo tão mediado pelas telas isso transforma as campanhas de baixo orçamento em uma briga profundamente desigual.

“Os Estados Unidos não têm apenas as ferramentas das tarifas ou da pressão econômica”, explica Francesca Emanuele sobre as pressões de Trump na América Latina. A analista do think tank CEPR (Center for Economic and Policy Research) argumenta: “Na região vemos uma ameaça militar direta, vital, sem contar a retirada de vistos e os congelamentos de contas, por meio das sanções que os EUA podem impor a políticos que lhes sejam incômodos, como fizeram com o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que foi um dos poucos que enfrentou publicamente a Trump. Qualquer país da América Latina pode se transformar hoje em um alvo militar. E isso também se reflete nas reações dos governos da região; mesmo aqueles que antes denunciavam com clareza os abusos de Washington, agora parece que optam pela cautela, pela autocensura ou inclusive pelo silêncio”.

Emanuele acrescenta: “Estou convencida de que o mundo precisa que governos com maior capacidade de influência, com maior poder, por exemplo, os governos da Europa que dependem menos dos Estados Unidos, deixem de olhar para o outro lado e comecem não apenas a denunciar as políticas imperialistas dos Estados Unidos, mas também a construir mecanismos conjuntos capazes de frear essa deriva militarista, demencial, que está causando muitíssimo dano e que terá consequências duríssimas e multigeracionais se não pusermos um limite nisso agora mesmo”.

E o que fazem depois quando ganham? A Argentina de Milei é um exemplo de negacionismo da ditadura e das torturas, do apoio incondicional ao genocídio israelense na Palestina e de contorcionismo político: tão logo se declara ultraliberal como é capaz de defender o protecionismo tarifário de Trump. Milei é um incondicional do presidente dos EUA, porque sabe que sem o seu resgate econômico poderia já estar fora da Casa Rosada. Milei também é um exemplo de cortes sociais, de deixar desamparados os mais vulneráveis, de combater o feminismo e o que o presidente argentino ultra chama de “a agenda woke”.

O Equador, outro país aliado à Administração Trump, com Daniel Noboa à frente, sobre quem pesaram acusações que vinculavam empresas de seu entorno ao narcotráfico, tem o país com um dos níveis de violência mais altos da região. Mas, isso sim, é um aprendiz avançado de trumpismo e está desde a primeira hora no Escudo das Américas desejando contentar a Trump com suas ações militares conjuntas, que nem estão ajudando a reduzir os níveis de violência nem a reduzir o tráfico de cocaína. Pelo contrário, estão servindo para que caiam bombas na Colômbia e morram pessoas inocentes em fazendas.

No caso de Honduras, um dos acontecimentos mais alarmantes durante os primeiros 100 dias do Governo de Asfura foi o massacre, em 21 de maio, de 21 camponeses no departamento de Colón. Os assassinatos ocorreram no contexto de um conflito territorial na região do Bajo Aguán, que remonta aos anos setenta e oitenta e no qual estão envolvidos poderosos interesses econômicos.

O prolongado conflito do Bajo Aguán tem se centrado na concentração da terra nas mãos das grandes empresas de óleo de palma, em particular a Dinant e suas filiais, que consolidaram vastas extensões de terra por meio de uma rede de entidades comerciais que, em última análise, permaneceram sob o controle efetivo da família Facussé.

Segundo a InSight Crime, no final de junho Honduras havia registrado seu décimo oitavo massacre de 2026, o que deixa mais de 80 vítimas de matanças em massa no que vai do ano.

E no alvo continua Cuba, o governo que numerosos presidentes dos EUA quiseram derrubar durante sete décadas. Agora, como nunca, exerce-se uma pressão asfixiante, literal, com o bloqueio petrolífero e as sanções secundárias aprovadas em 1 de maio a qualquer empresa ou governo que tenha qualquer trato com empresas públicas cubanas ou com o Executivo cubano. E o fato de hoje a Venezuela ser um país tutelado pelos EUA acabou servindo para ameaçar e buscar derrubar o governo de Cuba com um destacamento militar estadunidense no Caribe sem precedentes desde o fim da Guerra Fria. E esse destacamento serve tanto para asfixiar Cuba como para assassinar de forma extrajudicial mais de duas centenas de pessoas em supostas lanchas rápidas de narcotráfico no Caribe e no Pacífico Oriental.

Washington começou também desde o ano passado a designar organizações criminosas e cartéis como organizações terroristas, e esta é uma estratégia que amplia a margem para justificar futuras ações militares na região”, explica Emanuele: “A lógica por trás dessas designações é absolutamente refutável. Os cartéis são organizações criminosas cujo objetivo principal é o lucro econômico, não os fins políticos ou ideológicos, que é precisamente o que tradicionalmente distingue o terrorismo do crime organizado. Na Venezuela, designou-se como organização terrorista o Trem de Aragua e uma organização fictícia como o Cartel dos Soles. E com essas designações artificiosas como terroristas, os EUA buscam manter sob ameaça diversos países, entre eles o México, e o mesmo ocorre com o Brasil, onde há apenas algumas semanas os EUA designaram duas organizações criminosas como terroristas. E essas designações funcionam como uma justificativa destinada a dar cobertura a possíveis ações militares futuras e a aumentar a capacidade de pressão dos Estados Unidos sobre os países da região e, na prática, criar a estrutura para intervir militarmente onde quer que Washington considere que seus interesses estão em jogo”.

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