"Martini deixou-nos seu método: a lectio divina da realidade, entendida não apenas como modalidade de ler a Bíblia, mas como modalidade de ler a própria realidade". Entrevista com Vito Mancuso

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30 Junho 2026

Há quem se opõe a ele e quem entende a profundidade do seu pensamento. É uma figura que divide opiniões, mas de imensa cultura teológica. É assim que o padre Umberto Ciullo, pároco de Roveleto, descreve o primeiro convidado da resenha "Voci dal castello": o professor Vito Mancuso, um profissional estimado por muitos, mas incômodo para tantos outros. Ele publicou mais de 30 ensaios (pelo menos um por ano), é um rosto conhecido na televisão, um convidado muito requisitado em diversos festivais e conta com um número expressivo de seguidores nas redes sociais (mais de 92 mil no Facebook e mais de 35 mil no Instagram).

A entrevista de Valentina Paderni, publicada por Libertà26 -06-2026. A tradução de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista. 

Professor, o que é uma vida de busca, de pesquisa?

Pesquisar significa estudar, debater e manter a mente aberta às diversas tradições espirituais. Eu associaria a pesquisa ao sentimento de inquietude e à contradição, ao fato de que a vida humana comporta uma série de circunstâncias, pessoas, coisas e situações que trazem alegria, ao lado de outras que provocam exatamente o oposto. É ao nos expormos, sem qualquer tipo de ideologia, a essa natureza contraditória da existência que surge a inquietude da busca. Isso me lembra a frase de Pascal: "Não me buscarias se já não me tivesses encontrado". Se existe uma pesquisa, uma busca, é porque existe uma esperança efetiva, que por vezes se transforma em experiência, de uma plenitude de vida…

O senhor é filósofo, teólogo, autor, docente e divulgador: a quem dirige as suas reflexões?

Aos perplexos, aqueles que, por um lado, sentem-se insatisfeitos com o seu pertencimento à tradição religiosa estabelecida (o catolicismo) e, por outro, não desejam engrossar as fileiras daqueles que chegam àquele horizonte de pensamento conhecido como niilismo, de total desconfiança e negação. Não se trata nem de aceitar a doutrina consolidada tal como é, que a mim e a muitos resulta insatisfatória, nem de abandonar a busca espiritual, da fé e da confiança; aliás, valores sempre afirmados nos meus livros. Eu me dirijo a esses buscadores espirituais.

Ser pós-cristãos significa ter ficado sem uma religião que sirva de guia?

Às vezes falo de "pós-cristãos", outras vezes em "neocristãos". Faço isso para transmitir a ideia de que o cristianismo, tal como é agora, como se apresentou até agora, não basta mais; não funciona mais. Contudo, não o abandono por completo. A figura do "novo cristão" não poderia existir sem o cristianismo. Assim, dentro da proposta teológica espiritual que desenvolvo na minha pesquisa, o cristianismo permanece como um componente essencial, embora, repito, não represente o todo, nem seja preservado em estrita conformidade com a tradição.

Que consequências a crise do cristianismo pode trazer para a civilização ocidental?

Somos o primeiro exemplo de uma sociedade humana sem religião. Pois a religião só existe quando é compartilhada; caso contrário, trata-se apenas de uma questão de piedade individual, devoção. O cristianismo já não possui mais aquela força que teve durante séculos, a ponto de configurar uma sociedade. O resultado é uma sociedade que não é uma verdadeira societas, não é uma comunidade de sócios, porque o que une os seres humanos é o compartilhamento de ideais fortes. Sem esse fundamento comum, os seres humanos não passam de estranhos morais e espirituais: o que uma pessoa vê como um direito, outra encara como crime; o que uma considera um dever, outra vê como uma imposição. Estamos fragmentados. E é por isso que somos fracos: porque nos falta coesão.

Seu ensaio mais recente separa em duas figuras aquele Jesus Cristo que a doutrina nos apresenta como uma identidade única. Quem é Jesus?

Não fui eu quem introduziu a distinção entre Jesus e Cristo em nossa cultura; remonta a 1778, com a publicação do sétimo fragmento pelo teólogo alemão Hermann Samuel Reimarus. Jesus é uma figura histórica, um judeu que não tinha a intenção de abandonar sua religião, fundar uma nova ou morrer; ele não se via como o cordeiro sacrificial. Ele se considerava um profeta que anunciava a chegada iminente do Reino de Deus e convocava os seres humanos à conversão, à mudança de vida. Sua pregação não era simplesmente espiritual; tinha implicações sociopolíticas significativas. A prova disso é que os poderes estabelecidos, tanto aquele judaico quanto o Império Romano, o eliminaram.

E quem é Cristo?

Cristo é a figura criada por Pedro e pela primeira comunidade cristã, posteriormente transmitida a Paulo. A genialidade de Paulo consistiu em associar Cristo ao primeiro humano, apresentando-o como o "segundo Adão", aquele que resolve os problemas da humanidade decorrentes do pecado original. A perda da integridade da criação original colocou todos os seres humanos em um estado de inimizade, distantes de Deus. Por isso, era necessário um sacrifício, que reconciliasse os seres humanos com o Deus Pai, e essa foi a função de Cristo. Paulo não fala de Jesus; ele se interessa unicamente pela instituição da Eucaristia por ser uma oferta de Si mesmo. Cristo torna-se, assim, o fundador de uma nova religião de redenção baseada no sacrifício da Cruz, cujo sucesso é atestado pelo evento da ressurreição, que não tem mais qualquer relação com o judaísmo enquanto religião de observância.

Quais são os pontos de convergência entre as diferentes culturas religiosas?

Todas as religiões podem unificar-se com base na primazia do bem e da justiça, da presença da famosa regra de ouro: "Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você", ou "Faça aos outros o que gostaria que fizessem a você". Não se trata apenas de uma fórmula ética, pois remete a uma cosmovisão transcendente. Trata-se de dar continuidade ao projeto de Weltethos (ética mundial) proposto pelo teólogo suíço Hans Küng. As religiões não podem unir-se com base na dogmática. De uma perspectiva dogmática, existem diferenças irreconciliáveis. O próprio cerne do cristianismo, ou seja, a Trindade de Deus, é considerado uma blasfêmia para o judaísmo e o islamismo.

Os dogmas, então, precisam ser superados?

Os dogmas são indicadores de algo mais profundo. Devem ser compreendidos como marcos orientadores para seguir em frente, não como pontos de chegada, mas sim como pontos de partida. Por exemplo, a Trindade remete para a relacionalidade, para o fato de que a verdade do ser é a relação, uma vez que nada existe que não seja relação. A ideia do monoteísmo é que, em última análise, tudo é um; existe uma unidade profunda, enraizada, da energia, da matéria, do ser, existe uma pertença compartilhada original. Se pensarmos sobre essas questões sem considerá-las rigidamente como pontos de chegada, então até mesmo os dogmas podem ajudar.

O que resta para a religião?

A pesquisa teológica é chamada a demonstrar coragem e a restaurar com força uma esperança razoável para a humanidade, que dela necessita desesperadamente neste momento de crise ética, moral, econômica, ecológica, das migrações, de uma política totalmente incapaz de resgatar os ideais que existiam no passado. Até agora, as religiões acreditaram que sua tarefa era converter os seres humanos. Em vez disso, as religiões devem converter-se a algo maior, que é o mistério de Deus. Santo Agostinho já dizia: "Se compreendeste, não é Deus". Deus não pode ser definido; Deus está sempre além. A tarefa da teologia é transcender a si mesma e chegar à mística.

No que podemos esperar?

Nossa vida não é uma ilusão. Não é uma armadilha, nem um absurdo no qual caímos por acaso, onde o único sentido reside na sobrevivência e na busca por diversões passageiras. Existe algo que dá cumprimento a uma existência, e isso se chama bem, justiça, empatia, solidariedade. Esses valores supremos não são ilusão; são realmente o horizonte último da existência de um ser humano. E quanto mais você se aproxima dessas coisas, mais sua vida encontra realização.

Qual é o sentido da Igreja?

Hoje, a Igreja teria um grande potencial porque ainda tem voz, como demonstra a imensa importância geopolítica dos papas. No entanto, deveria preocupar-se menos com a "instituição" e mais com o bem do mundo. Em primeiro lugar, a Igreja tem uma oportunidade tremenda de continuar falando dos grandes valores humanos; e em segundo lugar, de oferecer espaços de encontro onde as pessoas possam voltar a se sentir como irmãos. Em suma: profecia e salvaguarda do humano, por um lado, e oferta de momentos de encontro, de comunidade, pelo outro. Há também outra coisa importante que só a Igreja pode fazer, que é a celebração da imensa importância dos ritos.

Que ensinamento o Cardeal Carlo Maria Martini lhe deixou?

Os pensamentos mais importantes são os métodos, como diz Nietzsche. Martini deixou-me o seu método: a lectio divina da realidade, entendida não apenas como modalidade de ler a Bíblia, mas como modalidade de ler a própria realidade. Significa possuir a honestidade profunda de quem enxerga a realidade como ela realmente é, com desencanto, e ao mesmo tempo introduzir nela aqueles critérios de esperança, de utopia e de coragem capazes de torná-la fecunda.

A quem mais podemos nos referir?

Ao Salmo 15: "Mas aos santos que estão na terra, e aos ilustres em quem está todo o meu prazer". Os santos não são apenas aqueles que constam no calendário litúrgico, onde há figuras que, na verdade, nada significam para mim e, inversamente, pessoas de grande espiritualidade, profundidade e substância, nunca estarão lá. Tomemos como exemplo Bonhoeffer, ou Etty Hillesum, Simone Weil e Mahatma Gandhi: são santos que jamais aparecerão no calendário litúrgico. Nem mesmo o próprio Martini será canonizado. Rosario Livatino, Paolo Borsellino, Giovanni Falcone e Giorgio Ambrosoli são mártires da justiça, exemplos que mostram que o ser humano não é unicamente egoísta. Pode ser muito mais. Se olharmos para esses homens e essas mulheres, sentimos que a vida pode ter uma missão, pode ser algo além de um simples parque de diversões.

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