Do discípulo ao pai. O acolhimento de Jesus se assemelha a uma boneca-russa. Artigo de Antonio Spadaro

Foto: Daniel Chetroni/Canva

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30 Junho 2026

"O acolhimento cria uma corrente invisível: quem acolhe o discípulo acolhe o mestre; quem acolhe o mestre acolhe o Pai. Como numa boneca-russa, dentro de cada rosto acolhido existe outro, e mais um outro. Todo ato de hospitalidade contém mais do que os olhos podem ver", escreve Antonio Spadaro, em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano, 28-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Jesus disse: não tenham medo. Ele disse: envio-os como ovelhas entre lobos. Agora, em Mateus (10, 37–42), ele entra por uma trilha escura: "Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim".

A frase é uma lâmina que atinge a parte mais tenra da carne, o vínculo mais sagrado que uma cultura conhece. Para um judeu do primeiro século, a família é tudo - é identidade, proteção, pertencimento; é o quarto mandamento gravado na pedra. E agora alguém diz: eu venho primeiro. Antes de seu pai, antes de sua mãe, antes de seus filhos. Não há ressalvas. É uma exigência absoluta e avassaladora, que se assemelha mais àquela de um amante ciumento do que a de um mestre de sabedoria.

Abraão teve de escolher entre Deus e Isaac no Monte Moriá. Aqui, a escolha é exigida de todos. E não numa montanha, mas na vida cotidiana.

Depois, a cruz. "Quem não toma a sua cruz e me segue não é digno de mim". Quando Mateus escreve, seus leitores sabem o que é uma cruz. Não é um símbolo; não é um pingente usado no pescoço. É uma estaca de madeira na qual os romanos pregam os condenados à beira das estradas, para que todos vejam e todos tenham medo. Os condenados a carregavam nos ombros atravessando a cidade, em meio à multidão que fica olhando. Jesus toma esse instrumento de tortura e de vergonha pública e diz: peguem-no. Carreguem-no. É de vocês. É como se alguém, hoje, dissesse: peguem sua cadeira elétrica e sigam-me. O escândalo é absoluto. Aquilo que o mundo usa para matar, ele transforma em caminho.

Além disso, o paradoxo se volta sobre si mesmo: “Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á”. Perder para encontrar. Achar para perder. É a lógica do grão de trigo que precisa morrer na terra para se tornar espiga, João explicitaria isso em outra parte, mas aqui, em Mateus, já está toda presente, como uma semente. É a mesma intuição que Shakespeare põe na boca do Rei Lear na charneca: somente quando ele perdeu seu trono, seu palácio, suas filhas e suas vestes, somente quando está nu em meio à tempestade, é que Lear começa a enxergar.

No entanto, justamente quando o discurso parece ter atingido seu ponto mais alto e duro, Mateus o traz de volta, e a descida é incrivelmente suave: “Quem acolhe vocês, acolhe a mim; e quem me acolhe, acolhe aquele que me enviou”. De repente, não se fala mais em cruz, em perda ou em renúncia. Em vez disso, fala-se de uma porta que se abre, de um hóspede que entra, de um copo que se enche. O acolhimento cria uma corrente invisível: quem acolhe o discípulo acolhe o mestre; quem acolhe o mestre acolhe o Pai. Como numa boneca-russa, dentro de cada rosto acolhido existe outro, e mais um outro. Todo ato de hospitalidade contém mais do que os olhos podem ver.

E então, a imagem final, ao mesmo tempo a menor e a maior: “Qualquer que tiver dado só que seja um copo de água fria a um desses pequenos, em nome de discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão”. Um copo de água fresca. Depois da cruz, depois da perda da própria vida, depois do rompimento dos laços familiares - um copo de água. Mateus é como Vermeer, pintando a luz da eternidade sobre uma jovem que derrama leite de uma jarra.

O discurso termina assim. Jesus começou pedindo para deixar pai e mãe, pegar um instrumento de morte, perder a própria vida. E conclui com um copo na mão, oferecido a alguém que tem sede.

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