Homilia do Cardeal McElroy aos católicos LGBTQ+ sobre misericórdia, redenção e santidade

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23 Junho 2026

O Cardeal Robert McElroy, Arcebispo de Washington, proferiu uma homilia no Gaston Hall da Universidade de Georgetown durante a Conferência de Extensão em 20 de junho de 2026. O texto completo segue abaixo.

A homilia é de Robert McElroy, Arcebispo de Washington, publicada por Religión Digital, 22-06-2026.

Eis a homilia.

O Cardeal Walter Kasper, em seu magnífico livro sobre a misericórdia, afirma que o maior atributo de Deus em seu relacionamento com a humanidade é a misericórdia. Pois é nos momentos em que nos aproximamos do Senhor, brilhando precisamente em nossa humildade e nos vendo como realmente somos, que compreendemos a magnificência da graça divina e o abraço imerecido do puro amor que Deus nos concede a cada instante de nossa existência.

Misericórdia é a primeira palavra de Deus para nós. Misericórdia é o maior dom de Deus. Misericórdia é a cultura que permeia a Igreja, que reconhece tanto a pecaminosidade da pessoa humana quanto o anseio por redenção e santidade — sementes de graça semeadas em solo fértil em nossos corações e almas, capazes de nos guiar através de nossas falhas, nossos momentos de desvio, nossos momentos de êxtase e nossa resiliência nesta peregrinação terrena que empreendemos.

Na segunda leitura de hoje, da Carta aos Romanos, Paulo reflete sobre a abundante misericórdia de Deus ao falar da pecaminosidade em nossas vidas e da verdadeira redenção (5:12-15). Ele reconhece abertamente que todo homem e mulher está preso ao pecado e que todos contribuímos para o fracasso do plano de Deus para a humanidade, o qual assola o nosso mundo e dilacera as nossas almas.

Mas, nas belas palavras finais da passagem, Paulo deixa claro que o pecado da humanidade empalidece em comparação com a graça que Deus nos concedeu na redenção : “A dádiva não é como a transgressão. Pois, se pela transgressão de um só homem muitos morreram, quanto mais a graça de Deus e a dádiva generosa de um só homem, Jesus Cristo, transbordaram para muitos!”

A dádiva não é como a transgressão. É muito mais profunda, mais abrangente, mais transcendente. É precisamente à luz desta realidade que podemos compreender a misericórdia de Deus nas nossas vidas e na vida da Igreja. Isto não significa que os nossos pecados sejam secundários nas nossas vidas ou na nossa vida de discipulado.

Pelo contrário, a misericórdia de Deus, precisamente em sua imensa bondade, nos chama a reconhecer e confrontar nossa pecaminosidade e a compreender como ela desfigura a beleza de nossas almas e as bênçãos do nosso mundo. Honestidade e integridade são os fundamentos da vida moral cristã, e vivemos como cristãos convictos de que somos chamados a conformar nossos corações às virtudes de Jesus Cristo: fé, integridade, compaixão, sacrifício, oração, esperança, castidade, perdão e amor profundo. Este é o caminho para a santidade para todos nós, e exige a rejeição do pecado em todas as suas dimensões.

Ao nos reunirmos para esta conferência em uma igreja que tantas vezes feriu a comunidade LGBT por meio de preconceito e exclusão, devemos encontrar grande esperança em dois eventos importantes que ocorreram durante o pontificado do Papa Leão XIV, os quais constituem sementes valiosas para o desenvolvimento do Evangelho nos anos vindouros.

Curiosamente, nenhum desses avanços se concentra especificamente em questões ou indivíduos LGBT. Eles se concentram no chamado à santidade para todos os crentes e em como isso pode ser vivenciado nas realidades concretas do nosso mundo moderno.

O primeiro motivo para esperança reside na reflexão oferecida pelo Papa Leão XIV durante sua inspiradora viagem à África. Em declarações à imprensa, o Papa afirmou que “a unidade ou a divisão na Igreja não devem girar em torno de questões sexuais”. Esta simples afirmação contextualiza o chamado à castidade como componente da vida moral cristã. Muitas vezes, tanto em pronunciamentos magisteriais quanto no discurso popular, os pecados sexuais têm sido condenados com tamanha veemência que, para muitos fiéis, tornam-se a principal obrigação moral dos cristãos. Isso é totalmente contrário ao Evangelho de Jesus Cristo.

Quando o Papa Leão XIV destaca a importância comparativa da justiça econômica, da guerra e da paz, da imigração e do racismo como elementos-chave da vida moral cristã, ele está rejeitando esse falso reducionismo que concentra as obrigações morais na esfera sexual.

O segundo evento importante para a compreensão da nossa vocação à santidade no mundo contemporâneo é a publicação do relatório do Grupo de Estudos 9 do Sínodo de 2024. Este Grupo de Estudos teve a importante tarefa de aplicar a teologia pastoral do Papa Francisco de forma integrada com o ensinamento e a prática católica. O Grupo de Estudos 9 apresentou corajosamente as suas conclusões em favor de um novo paradigma baseado no querigma:

A missão da Igreja não é proclamar de forma abstrata e aplicar dedutivamente princípios estabelecidos de maneira imutável e rígida, mas sim promover um encontro vivo com a pessoa do Senhor Jesus ressuscitado, interagindo com a experiência vivida da fé do povo de Deus… em relação às diversas situações da vida e aos múltiplos contextos culturais.

De uma perspectiva antropológica, o relatório é inovador: “Cada pessoa é um indivíduo único, cuja plenitude e singularidade se constituem em relação aos outros, à sociedade e à cultura ”. Essa ênfase na singularidade reflete a preciosidade do pardal, conforme descrito no Evangelho de hoje. Quanto mais valiosos somos cada um de nós em nossa singularidade aos olhos de Deus, que compreende os recônditos de nossos corações e se deleita na diversidade e beleza de nossa humanidade! Sob essa perspectiva, o chamado à santidade é um encontro pessoal com o Senhor Jesus Cristo que abrange toda a nossa vida e nos chama a caminhar juntos na vida da Igreja: únicos, mas formados juntos em Jesus Cristo.

O método pastoral de Jesus seguia um padrão específico e consistente. Primeiro, o Senhor acolhia aqueles que vinham a Ele em busca de ajuda. Depois, auxiliava-os com o problema que os afligia. Só então os chamava à transformação. Esse padrão deve ser refletido consistentemente na prática pastoral da Igreja e em nosso próprio serviço pastoral àqueles que encontramos em nossas vidas no contexto da fé.

Creio que esta é a maior contribuição do Papa Francisco para a vida da Igreja: o apelo para reformarmos nossa compreensão da teologia pastoral e considerá-la central para a compreensão do chamado do Evangelho e a formação do ensinamento católico. A prática pastoral não consiste em entender como aplicar um conjunto de princípios preestabelecidos e frequentemente reificados a situações concretas. Ela deriva da convicção de que as situações concretas em que as pessoas se encontram são dimensões constitutivas de como a doutrina deve ser formada à luz do querigma.

Nos reunimos enquanto os frutos da sinodalidade ainda se tornam evidentes. Oremos para que, nas conversas que se desenrolam no Espírito e nos guiam nos próximos anos, todo o povo de Deus avance rumo ao futuro que Deus está construindo para a nossa Igreja. 

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