24 Abril 2026
"Como se depreende, a sexualidade, seja no Yoga, seja no Tantra, possui seu lado instintivo e ao mesmo tempo, ao nível da consciência, torna-se um caminho da mais alta comunhão, isto é, alcançando a não dualidade. Não sem razão que da sexualidade se origina o bem maior, a vida humana em suas várias expressões. Ela é natural e sagrada fonte de espiritualidade e experiência do Divino."
O artigo é de Leonardo Boff, escritor da revista do ICL LIBERTA; escreveu, também, com Lucia Ribeiro, Masculino-feminino (Record, 2007) e, com Rose-Marie Muraro, Feminino-masculino: o encontro das diferenças (Record, 2010).
Eis o artigo.
Num artigo anterior mostramos como o feminino é a fonte-matriz do masculino. É o caminho ocidental que usa a antropologia e a psicologia. Mas com referência à mulher Freud diz que ela é um ser inferior e Lacan que ela não existe porque não pode ser definida. Esqueçamos estes laivos de machismo cultural atávico. Vamos ao olhar oriental que é mais fecundo e menos preconceituoso.
A visão oriental da sexualidade segue outro caminho, diverso daquele ocidental. Desenvolve uma antropologia extremamente refinada. Por exemplo, para a tradição do Yoga e do Tao, a sexualidade não é vista como algo em si mesmo. Ela é integrada num todo maior. Com ela e através dela busca-se alcançar a experiência de não dualidade, quer dizer, propiciar uma união suprema entre os parceiros e o universo.
A antropologia yoga trabalha com a realidade na kundalini que se expressa pelos sete chacras (centros energéticos). Kundalini em sânscrito significa a energia da serpente cósmica: é aquela energia universal, que enche o universo todo, representada pelo dragão e pela serpente alada. Os cosmólogos modernos falam da Energia de Fundo ou O Abismo gerador de todos os seres.
A kundalini, qual serpente, estaria enrolada dentro de cada um de nós, na parte inferior do corpo (no cóccix) com a cabeça erguida, pronta para fazer a sua trajetória. Na kundalini se concentra a energia vital da sexualidade.
Uma vez despertada ela passa pelos muitos centros vitais, no sacro enrolada em si mesma na forma fogo; após o chacra dos órgãos genitais e reprodutivos; passa ao solar (umbigo) pelo qual nos entra a energia de todo o universo; daí vem o chacra do coração que propicia a experiência do amor e da empatia; o chacra do pulmão com o qual inspiramos e expiramos energia; depois emerge o chacra frontal, entre os dois olhos, chamado também de terceiro olho que nos permite ver a terceira margem da realidade, portanto uma visão de totalidade e, finalmente, o chacra da glândula pineal, no alto da cabeça, que nos concede uma experiência de totalidade e de comunhão com o Todo universal.
Na nossa cultura, a kundalini, entretanto, ficou preferentemente fixada no chacra dos órgãos genitais, àquela excitação erótica que desperta os sentidos, ejacula e realiza a descarga e relaxa. Se ficar nisso, não passar pelos vários chacras, perde uma experiência de totalidade plenificadora e do amor profundo, fruto de uma entrega. Afirma-se que o homem possui imensa dificuldade de uma entrega total, pois trata-se de uma experiência de morte. Ele interrompe no meio. Ao não entregar-se, se priva da experiência mais completa. Em geral o homem se satisfaz, relaxa e dorme. A mulher se vira e chora frustrada porque não aconteceu a entrega total, não se fez o percurso pelos chacras, não sentiu o amor real, não se deu o alargamento da consciência, para chegar à superação da dualidade, pela qual ele e ela mergulham numa unidade profunda. Ela tem outro ritmo que deve ser conhecido pelo parceiro: saber esperar e ajudá-la pela carícia essencial a chegar ao seu clímax. Então relaxa.
Realizando esta compreensão mais integradora e holística, revela-se melhor o mistério que a sexualidade esconde, aquela dimensão ligada à reprodução da vida e, ao mesmo tempo, permite uma comunhão entre os dois com o todo que transcende a ambos.
Outro é o caminho do Tantra, seja no hinduísmo ou no taoísmo. Tandra em sânscrito possui muitas definições. A mais significativa é a urdidura, como com os fios fazendo a unidade do tecido. Diríamos: é o total entrosamento sexual do homem e da mulher, uma entrega sem freios, de forma que superam a dualidade homem-mulher e formam um todo. O homem se une tanto à mulher que se torna mulher e a mulher, homem.
Normalmente se entende mal o Tantra como se fosse uma técnica de prolongamento da relação sexual. O sentido do Tantra é totalmente outro. Afirma a sexualidade que é inata e vulcânica. Mas ela não se basta a si mesma. Ela é o caminho daquilo que talvez seja o mais difícil para os humanos: a total entrega e uma radical experiência de sua bioenergia em seu fluir natural.
Em primeiro lugar exige-se um relaxamento completo sem visar a um fim a ser alcançado. Em seguida, homem e mulher se relacionam sexualmente não buscando a ejaculação ou o clímax. Ao contrário, supõe em ambos completo autocontrole da capacidade sexual.
Cada um, totalmente relaxado, esquecendo-se de tudo e de todos, se concentra totalmente no outro ao fluir da energia sexual. Vai irrompendo lentamente tal unidade entre eles que se tornam um, vale dizer, superaram a tão ansiada não dualidade. É um êxtase, a suprema realização humana. O abraço profundo pode durar horas e horas sem ejacular ou chegar ao clímax. O resultado final é um radical relaxamento e a experiência de uma unidade total entre ambos incluindo todas as coisas. Vive-se um arrebatamento que perdura vários dias, tal é a radicalidade desta unificação (cf. Bhagawan Shree Rajneesh, Tantra: sexo e espiritualidade, São Paulo, Agora, 1977).
Como se depreende, a sexualidade, seja no Yoga, seja no Tantra, possui seu lado instintivo e ao mesmo tempo, ao nível da consciência, torna-se um caminho da mais alta comunhão, isto é, alcançando a não dualidade. Não sem razão que da sexualidade se origina o bem maior, a vida humana em suas várias expressões. Ela é natural e sagrada fonte de espiritualidade e experiência do Divino.
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