23 Junho 2026
Se a violência é sempre sinal de fraqueza, então uma Igreja e uma sociedade capazes de renunciar a linguagens agressivas demonstram não rendição, mas força evangélica.
O artigo é de Linda Pocher, publicada por Donne Chiesa Mondo, junho de 2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Irmã Linda Pocher é teóloga salesiana, foi encarregada pelo Papa Francisco de organizar encontros com os seus nove cardeais conselheiros, o chamado C9, para dissecar os nós do papel das mulheres na Igreja.
Eis o artigo.
Não é nenhum mistério que a relação entre as mulheres e a Igreja seja atravessada por tensões evidentes. Mais surpreendente, talvez, seja a linguagem com a qual essas tensões muitas vezes se expressam: uma violência verbal que afeta especialmente as mulheres sempre que seu papel, suas palavras ou sua presença questionam arranjos considerados "tradicionais". Insultos, sarcasmos e deslegitimações não são simples escorregões comunicativos: são sintomas. E, como toda violência, revelam não força, mas fragilidade; não confiança, mas medo. De fato, chama a atenção como a violência verbal surge precisamente onde a identificação com certos valores tradicionais é percebida como ameaçada.
Quando a identidade — pessoal ou coletiva — se sente sitiada, a reação não raramente costuma ser agressiva. Mas uma identidade que precisa se defender ferindo o outro é uma identidade fraca. Se o apelo à "tradição" gera medo da mudança e produz exclusão, então talvez a própria maneira de entender essa tradição precise ser repensada. Isso é verdade tanto nas sociedades quanto na Igreja. As mulheres muitas vezes se tornam o terreno simbólico onde se trava uma batalha identitária: seu corpo, sua voz, seu espaço, são carregados de significados que servem para reafirmar uma ordem percebida como instável. Mas, ao fazer isso, se trai o próprio cerne da fé cristã, que não fundamenta a dignidade das pessoas em papéis preestabelecidos ou hierarquias naturais, mas sim em sua singularidade irrepetível diante de Deus.
As Escrituras oferecem palavras radicais a esse respeito. A famosa afirmação de Paulo em Gálatas — "não há escravo nem livre, judeu nem grego, homem nem mulher" — não apaga as diferenças, mas nega que elas possam ser usadas como critério de valor ou de acesso à dignidade de filhos de Deus.
Relida hoje, essa página não pede para ser abrandada, mas levada a sério: como uma provocação contra toda forma de violência, inclusive verbal, que surge do medo de perder o poder.
Se a violência é sempre sinal de fraqueza, então uma Igreja e uma sociedade capazes de renunciar a linguagens agressivas demonstram não rendição, mas força evangélica. Repensar a identificação com os valores tradicionais não significa traí-los, mas libertá-los do medo. E talvez seja precisamente disso que possa nascer uma relação mais verdadeira, mais justa e mais humana — desarmada e desarmante, como diria o Papa Leão XIV — entre as mulheres e a Igreja.
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