18 Junho 2026
O teólogo: "Ele personificava a Igreja mais conservadora, coerente até o fim. Tomou uma decisão terrível no caso Piergiorgio Welby."
O teólogo Vito Mancuso identifica Camillo Ruini como o defensor daquela ala mais conservadora da Igreja que procurou de todas as formas frear o potencial do Concílio Vaticano II. Homem de direita, não só na política italiana, mas também na esfera eclesiástica, ele se contrapunha à ala progressista que se identificava com o arcebispo de Milão, Carlo Maria Martini.
A entrevista é de Francesco Bei, publicada por La Repubblica, 18-06-2026.
Eis a entrevista.
Camillo Ruini era um conservador na política, apoiador dos governos de Berlusconi, amigo de Salvini e, por fim, admirador de Meloni. E do ponto de vista teológico?
Perfeitamente de acordo com as considerações políticas. Afinal, ele era um homem inteligente e racional, que amava a ordem e a clareza. Um homem assim não poderia ter duas abordagens diferentes. E assim, a linha de preservação política refletia perfeitamente a de preservação eclesiástica.
Quem foi realmente Ruini e o que ele representava na Igreja italiana?
Ele foi o homem que personificou perfeitamente a linha conservadora de domesticação em relação às inovações do Concílio Vaticano II.
Qual era a atitude de Ruini em relação ao Concílio?
A realidade é que no Concílio havia uma maioria e uma minoria. E, por sua vez, a maioria era, por assim dizer, diversa. Havia aqueles que viam o Concílio não como um ponto de chegada, mas como um ponto de partida para uma renovação ainda mais ampla, e aqueles que não viam dessa forma — fomos longe demais ao nos forçarmos nessa direção.
E de que lado estava o Papa?
Paulo VI personificou essa segunda tendência, mais conservadora. A Humanae Vitae, encíclica de 1968 sobre moral sexual, com sua condenação aos métodos contraceptivos, praticamente selou a possibilidade de que a reforma efetiva do Concílio afetasse de forma coerente a vida concreta dos católicos.
Ruini foi um continuador dessa linhagem?
Certamente, enquanto Martini, o principal expoente da linha progressista, não hesitou em suas Conversas Noturnas em Jerusalém, publicadas em 2009, quando já havia se despojado de todos os seus cargos, em dizer que Paulo VI estava errado ao publicar a Humanae Vitae nesses termos.
Podemos afirmar que a posição de Ruini era anticonciliar, contrária ao espírito do Vaticano II?
Não se pode afirmar isso com certeza, mas se enquadra nessa linha de... abrandamento. Ele não teria tido a carreira que teve se tivesse sido um opositor do Concílio. Mas ele foi um obstáculo ao potencial dessa transformação.
Qual era a relação entre Carlo Maria Martini e Ruini?
Com muita frieza. Quando Camillo Ruini negou a Piergiorgio Welby um funeral religioso, mesmo o casal Welby sendo católicos praticantes, Martini, na edição de domingo do Il Sole 24 Ore, distanciou-se daquela terrível decisão, uma das páginas mais sombrias da carreira de Ruini. Ele o fez à sua maneira, educadamente, mas a essência era firme.
Houve outros confrontos?
Martini concedeu uma entrevista famosa a Ignazio Marino na revista L'Espresso, abordando especificamente questões bioéticas. No dia seguinte, a CEI divulgou um comunicado bastante contundente.
Ruini foi um homem de valores inegociáveis; ele foi o presidente da CEI, aplaudido pelos teoconservadores. O que alinhou a Igreja italiana com os extremistas de direita de Berlusconi implicou?
Considerando a situação atual da Igreja italiana e sua relevância, parece-me que esse tipo de escolha política não trouxe grandes vantagens.
O que pensavam os apoiadores da linha oposta à de Ruini?
Que era necessário reconhecer a secularização da sociedade. E, portanto, fazer uma escolha religiosa e cultural, de atenção e diálogo com os não crentes, com outras religiões, e de preocupação com os problemas do mundo. Esta é uma escolha religiosa.
Se quisermos, a Igreja do Papa Francisco que fez isso, certo?
Sim, e é por isso que Ruini detestava Francisco. Talvez detestasse uma palavra um pouco forte demais, mas certamente não gostava dele.
Ruini, no entanto, ficou satisfeito com a eleição de Robert Prevost. Teria ele reencontrado seu Papa após sua passagem pela Argentina?
Acho que sim. Prevost deve sua fortuna, no último mês, aos ataques de Donald Trump. Antes disso, porém, foi o Papa quem escolheu ir a Montecarlo... Ele provavelmente é a pessoa certa hoje: em um mundo dominado por políticos que se apresentam como leões, ter um Leão dócil e herbívoro é exatamente o que a Igreja precisa.
Será que Prevost conseguiria reconciliar os apoiadores de Martini e de Ruini?
Após o caos deixado por Francisco, havia a necessidade de alguém que pudesse se comunicar com todos. Então, sim, ele poderia ser o Papa de Ruini e o de Martini. Um papa da reconciliação, que traz tranquilidade.
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