17 Junho 2026
MapBiomas mostra recuperação pontual do recurso em 2025, mas país segue mais seco; ecossistemas aquáticos são os primeiros a dar sinais do “ponto de não retorno”.
A reportagem é de Aldem Bourscheit, publicada por Observatório do Clima, 16-06-2026.
O Brasil recuperou parte da sua superfície coberta por água em 2025, após dois anos de secas severas, mas isso não significa que o país esteja mais seguro, mostra relatório do MapBiomas divulgado nesta terça-feira (16). A recuperação foi pontual, concentrada na Amazônia, e insuficiente para reverter quatro décadas de perdas, influenciadas pelas mudanças climáticas, que têm tornado rios, lagos e áreas úmidas mais vulneráveis.
De acordo com o estudo, o Brasil somou 18,2 milhões de hectares (ha) cobertos por água no ano passado, o que representa 5,3% a mais do que em 2024. Contudo, o nível ainda está abaixo da média histórica de 18,5 milhões de ha, medida entre 1985 e 2025.
A análise detalha que a cobertura nacional de água caiu de 19,86 milhões de hectares entre 1985 e 1994 para 17,28 milhões de hectares entre 2015 e 2024. A diferença entre as décadas é de 2,6 milhões de hectares, uma área quase do tamanho de Alagoas.
“O recurso que a gente está perdendo vem de áreas naturais, como várzeas, veredas, pântanos e campos alagados”, descreveu ao OC Bruno Ferreira, pesquisador da equipe da Amazônia do MapBiomas e do Imazon.
A crise climática aquece a atmosfera, altera padrões de chuva, intensifica secas e tempestades e aumenta a evaporação. Apesar de não explicar sozinha as perdas – fatores como desmatamento, maior irrigação no agro, assoreamento de rios, construção de barragens e outras obras também entram na conta – as mudanças no clima têm contribuído de maneira significativa para a redução da capacidade dos ambientes naturais regularem o ciclo da água.
“Vem se confirmando a hipótese de que os ecossistemas aquáticos seriam os primeiros a dar sinais de um possível ‘ponto de não retorno’ frente às mudanças climáticas”, ressaltou Ferreira.
O aviso não é recente. Na grande seca que a Amazônia enfrentou em 2023, as mudanças climáticas foram a principal causa para a severidade do evento, mais do que o El Niño, mostrou um estudo da World Weather Attribution divulgado na época.
Mas a preocupação com a Amazônia vai além da região. O bioma concentra 61,4% da superfície nacional de água e leva umidade e chuvas ao restante do país. Por isso, quando seus rios secam, soa o alarme no Sul, no Sudeste e em outras regiões onde menos chuva afeta o agronegócio e outras economias.
“Quando a gente tem esse quadro de seca e sabe como a floresta leva chuva para o resto do Brasil, as preocupações aumentam”, afirmou Ferreira.
O resultado positivo registrado na Amazônia em 2025 – que ajudou a alçar os números nacionais – no entanto, também deve ser lido com cautela. Na floresta tropical, a recuperação não foi equilibrada. Os dados apontam que 20 sub-bacias amazônicas, ou 37% do total do bioma, ficaram abaixo da média histórica. Entre elas estão as bacias dos rios Negro e Trombetas.
Riscos maiores na planície alagável
O relatório do MapBiomas também revela a situação crítica do Pantanal: em 2025, sua superfície de água ficou 56% abaixo da média histórica. Foi o único bioma em que essa escassez foi registrada em todos os meses do ano.
A região passa por secas prolongadas há sete anos, desde 2019. Isso prejudica o sobe e desce natural das águas que ajuda a regular o clima e sustenta a pesca, a pecuária, o turismo, a biodiversidade, os povos indígenas e as comunidades locais. Também atinge economias no Mato Grosso do Sul e no Mato Grosso, onde a cobertura hídrica caiu 863 mil hectares em relação à média histórica.
Ainda mais grave, no Pantanal tais perdas também abrem alas para mais fogo. Em 2024, a World Weather Attribution concluiu que o calorão, as secas e os ventos que atiçam incêndios devastadores no bioma foram 40% mais intensos e de quatro a cinco vezes mais prováveis graças ao aquecimento causado por atividades humanas.
Escambo nacional de águas
A análise do MapBiomas revela ainda que o Brasil não só está perdendo água superficial, como também está trocando parte da cobertura natural pela acumulação de água em reservatórios artificiais.
No ano passado, 76,7% da superfície de água mapeada estava em corpos hídricos naturais e 23,3% em construções, como reservatórios de hidrelétricas e açudes. Desde 1985, os corpos hídricos artificiais aumentaram em 1,7 milhão de ha, o que representa um aumento de 69%. No mesmo período, os naturais perderam 3,2 milhões de ha, uma queda de 19%.
Isso foi especialmente grave no Cerrado, onde as hidrelétricas somaram 55,1% da superfície de água. Apenas 34,4% da água mapeada no bioma era natural. Junto com a Mata Atlântica e a Caatinga, esses são os três biomas com o maior percentual de água ligada a usos humanos.
Vale lembrar que reservatórios são importantes para o abastecimento público, a irrigação e a geração de energia, mas não substituem as funções de rios livres, várzeas, lagoas e áreas úmidas, que ajudam a conter cheias, a manter a vida selvagem, a recarregar aquíferos e a sustentar populações tradicionais.
Os dados do MapBiomas também mostram que 2.511 municípios brasileiros, ou 45% do total, tiveram áreas de água superficial abaixo da média histórica. Na ponta do lápis, quase metade do país enfrentou alguma dificuldade no abastecimento dessas fontes em 2025.
Para Ferreira, enfrentar esse cenário depende de combinar ciência, gestão pública e proteção de populações mais vulneráveis. “A primeira coisa é entender e aceitar que estamos passando por mudanças climáticas. Depois, é preciso mitigar os impactos, zerar o desmatamento e defender as comunidades contra eventos extremos”, disse. “A informação existe. A gente já mostra onde está a tendência. O caminho exige uma ação integrada entre gestores de recursos hídricos e pesquisadores”, completou.
Leia mais
- Mudanças climáticas podem reduzir drasticamente recarga de aquíferos
- Superexploração de águas subterrâneas afeta vazão de rios brasileiros
- Exploração de águas subterrâneas afeta a dinâmica climática e põe em risco segurança hídrica dos brasileiros. Entrevista especial com Paulo Tarso e José Gescilam Sousa
- Escassez de água potável preocupa 81% dos brasileiros
- Aquecimento global está mudando o ciclo da água em todo planeta
- Mudança climática está afetando drasticamente o ciclo da água
- Nossos diagramas do ciclo da água dão uma falsa sensação de segurança hídrica
- A água no Brasil e o mito da abundância
- Em Dia Mundial da Água, ONU defende soluções para problemas hídricos baseadas na natureza
- "Água potável pode se tornar uma miragem"
- Escassez de água ameaça a segurança alimentar global
- Mesmo com crise hídrica, Brasil perde 40% da água tratada
- Volume de água que é perdida no sistema de abastecimento no país equivale a quase sete sistemas Cantareira
- Desperdício, falhas de planejamento e ausência de integração ameaçam os recursos hídricos do país