17 Junho 2026
"Porque o mundo não permanece de pé por causa dos poderosos. O mundo permanece de pé porque milhões de pessoas comuns, sem perceber, repetem diariamente a delicada conspiração de Santo Antônio".
O artigo é de Paulo Baía, sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ.
Eis o artigo.
Os homens das guerras andam apressados. Falam alto, ameaçam vizinhos, movimentam exércitos, disputam petróleo, fronteiras e mercados como se o destino da humanidade pudesse ser decidido diante de mapas luminosos e relatórios secretos. Os relógios do mundo parecem correr depressa demais. O planeta escuta essas vozes com medo e cansaço. Há dias em que a própria civilização parece caminhar com os nervos à flor da pele, como se uma faísca qualquer fosse suficiente para incendiar a casa comum da humanidade.
Mas junho chega ao Brasil trazendo consigo uma antiga sabedoria que não cabe nos discursos dos poderosos.
Chega com o cheiro da lenha queimando nas fogueiras, com o perfume do milho assado e do bolo de fubá saindo do forno, com os sanfoneiros tentando arrancar música da noite fria, com as crianças correndo atrás dos balões de papel, com os cachorros farejando pedaços de bolo caídos sob as mesas enfeitadas, com os risos espalhados pelos quintais e com as bandeirinhas coloridas que insistem em dançar sobre as ruas, como se fossem pequenos bilhetes de esperança escritos pelo vento.
E, no coração desse mês que mistura saudade e alegria, reaparece Santo Antônio.
Não vem montado em cavalos de guerra. Não se faz anunciar por trombetas. Não se cerca de guardas. Caminha em silêncio, vestido com sua túnica simples, trazendo um menino nos braços e um pão nas mãos. Conhece os segredos da alma humana, as aflições dos enamorados, o cansaço dos trabalhadores, a solidão dos viúvos, as lágrimas escondidas das mães e os sonhos dos jovens que ainda acreditam no amor. Há oitocentos anos realiza o mesmo ofício, com a paciência dos jardineiros e a serenidade dos que não têm pressa: atrasa o fim do mundo.
Por isso sua morada nunca foram os palácios. Santo Antônio prefere as cozinhas.
Nos subúrbios cariocas, mulheres e homens amassam a massa do pão de Santo Antônio enquanto o café esquenta no fogão e as conversas caminham devagar entre lembranças, receitas e notícias da vida. Nas periferias de São Paulo, onde os edifícios parecem disputar espaço com as nuvens e a pressa quase sempre vence os relógios, mãos cansadas continuam repetindo gestos que atravessaram gerações. Em cidades do interior de Minas Gerais, entre igrejas antigas e praças de coreto, a farinha e a fé continuam dividindo a mesma mesa.
Nas margens dos rios amazônicos, onde a água parece conversar com o céu, famílias inteiras guardam antigas devoções como quem protege um tesouro de família. No Pantanal, onde as manhãs nascem cobertas de névoa e as aves anunciam o dia antes do sol aparecer, e no Cerrado, onde os ipês explodem em amarelo sobre a terra vermelha, Santo Antônio continua sendo recebido como um velho amigo da casa. No sertão nordestino, onde a resistência humana possui a grandeza das árvores que sobrevivem à seca, e ao longo da imensa costa atlântica brasileira, onde o oceano borda rendas de espuma sobre as praias, homens e mulheres seguem transformando farinha em pão e esperança em alimento para a alma.
Nas colônias do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, entre vinhedos, araucárias e manhãs cobertas de neblina, sua imagem ocupa lugar de honra nas mesas familiares. Em Porto Alegre, um casal de velhos companheiros divide o café da tarde enquanto a imagem do santo repousa sobre a cristaleira. Na serra catarinense, descendentes de imigrantes organizam a festa junina, penduram bandeirinhas e discutem se a canjica ficou melhor este ano ou no ano passado. Na gigantesca São Paulo, onde a cidade nunca parece dormir completamente, Santo Antônio continua encontrando abrigo nos apartamentos modestos, nos bairros operários, nas cozinhas das avós e nas promessas sussurradas por quem ainda acredita que a vida pode ser mais generosa do que os boletos e as pressas do cotidiano fazem parecer.
Existe uma sabedoria antiga escondida nessas cenas que os homens das guerras desconhecem. Eles acreditam que a história é movida pela força. O povo brasileiro aprendeu outra coisa. Aprendeu que a vida também se sustenta no pedaço de bolo embrulhado para quem não pôde vir à festa, na vizinha que empresta açúcar sem fazer perguntas, na cadeira puxada para quem chega sem avisar, no cafezinho oferecido a um visitante inesperado, na panela de sopa que se multiplica para acolher mais um prato sobre a mesa.
É assim que a humanidade permanece de pé.
Enquanto os fabricantes de medo produzem ameaças, as mães continuam preparando o jantar. Enquanto os donos das guerras falam em destruição, as crianças continuam correndo atrás das bandeirinhas que escaparam do barbante. Enquanto os homens que se julgam poderosos desenham mapas e calculam prejuízos, alguém rega uma roseira no quintal, alguém costura uma roupa, alguém acende uma vela, alguém prepara o café e alguém espera o filho voltar para casa.
Junho conhece esse segredo.
Por isso as bandeirinhas coloridas possuem alguma coisa de revolucionário. Tremulam sobre ruas simples como pequenas declarações de independência contra a tristeza. As fogueiras aquecem mais do que as noites frias. Aquecem as memórias. Cada pedaço de bolo repartido contém uma lição silenciosa sobre fraternidade. Cada xícara de café oferecida a quem chega recorda que a civilização começou em torno de uma mesa e que, se um dia ela desaparecer, será porque os homens esqueceram a arte de repartir o pão.
E justamente neste 13 de junho, enquanto Santo Antônio percorre as casas brasileiras entre velas acesas, bolos e orações, a Seleção Brasileira faz sua estreia na Copa do Mundo.
Em uma comunidade ribeirinha da Amazônia, alguém mexe na antena da televisão. Em Madureira, uma cozinheira termina de preparar a massa do pão enquanto as primeiras camisas amarelas aparecem nas janelas. Em Campina Grande, uma senhora coloca flores diante do altar do santo e pede proteção para os filhos espalhados pelo Brasil. Em uma pequena cidade do interior paulista, as bandeirinhas da festa junina dividem espaço com as cores nacionais. Em Porto Alegre, um casal de cabelos brancos prepara o café para assistir ao jogo. Na serra catarinense, uma família inteira discute a escalação enquanto o pinhão assado circula entre gargalhadas. Em alguma praia nordestina, crianças brincam descalças esperando a hora da partida.
Durante noventa minutos, um país inteiro volta a respirar junto. E esse também é um dos milagres da vida brasileira.
Porque este país conhece a dor, mas nunca abandonou a alegria. Conhece a desigualdade, mas continua repartindo o pão. Conhece as perdas, mas insiste em cantar. Conhece a violência, mas ainda encontra razões para celebrar. Há uma matéria delicada e resistente na alma brasileira. A mesma matéria dos jardins, das mangueiras antigas e das roseiras que florescem depois das tempestades.
Santo Antônio compreende essa alma porque faz parte dela. Não desfila em tanques. Prefere dançar nas festas do povo. Não habita fortalezas. Gosta dos quintais. Não fala a linguagem do medo. Conhece a linguagem dos abraços. E, enquanto os homens das guerras aceleram os ponteiros do apocalipse, ele continua caminhando entre fogueiras, panelas fumegantes, xícaras de café, bandeirinhas coloridas e sonhos humanos, liderando silenciosamente uma delicada conspiração de ternura.
Há oitocentos anos ele faz florescer rosas entre as ruínas. Há oitocentos anos ensina que nenhuma riqueza é maior do que a amizade, que nenhum poder é mais duradouro do que a bondade e que nenhuma civilização sobreviverá se perder a capacidade de amar.
E enquanto houver uma panela no fogo, uma vela acesa diante do santo, uma avó ensinando a receita do pão, uma criança correndo atrás de uma bola, uma bandeirinha colorida dançando no vento de junho e alguém disposto a repartir a mesa com quem chega, os homens das guerras continuarão fracassando em seus planos.
Porque o mundo não permanece de pé por causa dos poderosos. O mundo permanece de pé porque milhões de pessoas comuns, sem perceber, repetem diariamente a delicada conspiração de Santo Antônio.
E é por isso que, há oitocentos anos, o fim do mundo se atrasa.
Viva Santo Antônio.