As explicações delirantes do chefe de gabinete de Milei sobre os 500 mil dólares que ele não declarou

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12 Junho 2026

Manuel Adorni, acusado de enriquecimento ilícito, alega ter ganho meio milhão de dólares investindo em criptomoedas e que as guardava "em um pen drive" entre seus computadores antigos. Ele também admite sonegação fiscal e omissão desse dinheiro em sua declaração de bens ao ingressar no governo.

A reportagem é de Mercedes López San Miguel, publicada por El Diario, 11-06-2026.

Manuel Adorni, chefe de gabinete de Javier Milei, que está sendo investigado por enriquecimento ilícito, finalmente apresentou sua declaração juramentada de bens ao Ministério Público. Ele anunciou isso na noite de quarta-feira durante uma entrevista na televisão, na qual justificou o aumento de sua riqueza por meio de uma suposta transação com criptomoedas que havia mantido em segredo até então. Ele explicou que, entre 2013 e 2018, investiu aproximadamente US$ 200.000 em Bitcoin, o que lhe rendeu um lucro de US$ 300.000. Testemunhas que depuseram perante o Ministério Público indicaram que Adorni gastou quase US$ 400.000 nos últimos anos e contraiu outras US$ 335.000 em novas dívidas, valores que contrastam fortemente com os US$ 73.901 em bens declarados quando ingressou no governo em dezembro de 2013.

Segundo o funcionário argentino, o capital obtido com seus investimentos era armazenado fisicamente em um pen drive, fora do sistema financeiro, como uma espécie de "troféu das operações": "Sou colecionador de computadores e coisas antigas", explicou durante a entrevista à emissora LaNación+. Dessa forma, ele também admitiu ter sonegado impostos: "Economizar por fora era uma maneira de escapar da velha política", afirmou.

O ex-porta-voz presidencial se envolveu em um escândalo em março passado, quando foi revelado que sua esposa, Bettina Angeletti — que não ocupa nenhum cargo público — havia viajado para os Estados Unidos no avião presidencial com a delegação oficial. Pouco depois, uma investigação do elDiarioAR acrescentou outro detalhe: o casal e seus filhos viajaram para o Uruguai em um avião particular. Esse incidente foi apenas a ponta do iceberg de inconsistências entre seu estilo de vida luxuoso e seu salário público. Somando-se às inconsistências, estavam os empréstimos suspeitos que ele recebeu de duas mulheres aposentadas para comprar sua casa.

“Eu não sou um ladrão”

Além do documento referente a 2025, Adorni apresentou as declarações retificadas de 2023 e 2024, que incluem os bens de sua esposa. O chefe de Gabinete admitiu ter "cometido um erro" ao sonegar impostos. "Assumo total responsabilidade; aliás, pagarei tudo o que resultar desse erro", afirmou.

Com este novo documento, ele tenta justificar despesas com imóveis, viagens e reformas luxuosas, totalizando um milhão de dólares. Sua defesa se baseia nessas "economias não contabilizadas" acumuladas ao longo de 25 anos de trabalho no setor privado, impulsionadas pelos investimentos em Bitcoin mencionados anteriormente, uma manobra financeira até então desconhecida do público. "Eu precisava provar que não era um ladrão, foi o que meu advogado me disse, e a única maneira de fazer isso era apresentando a declaração juramentada", explicou ele.

Questionado sobre a origem de seus bens não declarados, Adorni afirmou que o primeiro dinheiro que teve foi uma quantia em espécie encontrada na casa de seu pai, Jorge, falecido em 2002 – “dinheiro que meu irmão e eu encontramos no apartamento” – e que, segundo sua explicação, ele o adicionou à poupança de sua esposa.

Muitas perguntas sem resposta

Adorni limitou suas explicações sobre sua riqueza a seus negócios privados e lucros do mercado de criptomoedas. No entanto, detalhes dessas transações ainda são desconhecidos, e os nomes das carteiras virtuais que ele supostamente utilizou não foram divulgados. Presume-se que essas informações serão necessárias como parte da investigação sobre enriquecimento ilícito conduzida pelo procurador federal Gerardo Pollicia.

No entanto, a entrevista deixa muitas perguntas sem resposta: Adorni disse que recebeu US$ 500.000 há doze anos; mas por que ele só decidiu gastar tão desenfreadamente ao assumir um cargo no governo? Por que ele não usou esse dinheiro para comprar o apartamento onde mora em Buenos Aires e a casa no condomínio fechado nos arredores da capital, ambos adquiridos com empréstimos?

Segundo revelações jornalísticas que complicam sua situação jurídica, após se tornar porta-voz de Milei, Adorni adquiriu um apartamento no bairro de Caballito, em Buenos Aires — sem vender a casa onde já morava com a família — e uma casa no condomínio fechado de Indio Cuá, em Exaltación de la Cruz. Nesta última propriedade, os Adorni iniciaram reformas que, segundo o empreiteiro, dobraram o preço de compra. Embora a casa tenha sido adquirida por US$ 120.000 — de acordo com o depoimento do vendedor —, Adorni gastou US$ 245.000 em dinheiro vivo nas reformas, incluindo uma cascata na piscina.

O sistema judiciário também o está investigando por tráfico de influência devido a contratos assinados entre a Televisão Pública — uma agência subordinada ao gabinete do chefe de Gabinete — e a produtora de seu amigo Marcelo Grandio, bem como pela contratação de empresas estatais da consultoria +Be, de propriedade de sua esposa.

Javier Milei apoiou publicamente seu chefe de gabinete, afirmando que lhe havia fornecido todas as explicações necessárias: "Tudo o que ele me apresentou estava correto", declarou na ocasião. Adorni, que descartou a possibilidade de demissão na entrevista, explicou que "não era necessário" apresentar qualquer prova ao presidente: "O presidente confiou em mim".

Anistia fiscal

Sua nova versão contradiz o que ele disse perante o Congresso em abril, quando Adorni afirmou textualmente: “Tudo o que precisava ser declarado foi declarado” e “Não houve ocultação alguma”. Na declaração retificada agora apresentada, o chefe de gabinete libertário admite explicitamente que possuía meio milhão de dólares em fundos não declarados. A estratégia parece clara: ele prefere ser acusado de sonegação fiscal a enriquecimento ilícito ou corrupção, argumentando que ter economias não declaradas é uma prática comum entre muitos argentinos.

É até provável que ele consiga regularizar sua situação fiscal sem maiores consequências, já que os US$ 500.000 não atingem os limites para sonegação fiscal puníveis pela Lei Penal Tributária. Em dezembro passado, a aprovação da Lei da Inocência Fiscal elevou os valores mínimos necessários para que o réu seja responsabilizado criminalmente por sonegação fiscal.

O casal Adorni já solicitou a adesão ao programa de anistia fiscal promovido pelo governo Milei. Essa lei de "inocência fiscal", aprovada pelo Congresso no início do ano, funciona na prática como um esquema de lavagem de dinheiro que isenta os contribuintes de detalhar a origem de seus fundos ou de se submeterem a auditorias prévias de seus bens durante esse período.

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