Como Elon Musk está incitando a violência na Irlanda do Norte e o que o governo britânico pode fazer para impedi-lo

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12 Junho 2026

Elon Musk, o homem mais rico do mundo e proprietário do X, tuíta com frequência sobre o Reino Unido. Não há rastro público de que o sul-africano residente nos Estados Unidos tenha visitado recentemente o país que parece obsessioná-lo há anos, mas intervém frequentemente em seus debates políticos.

A informação é de María Ramírez, publicada por elDiario.es11-06-2026.

Nos últimos meses, pediu a derrubada do governo trabalhista, sugeriu que o Reino Unido está à beira de uma guerra civil e compartilhou mensagens incendiárias dos grupos mais radicais da extrema direita. Suas mensagens têm sido constantes desde a vitória do trabalhista Keir Starmer nas eleições de julho de 2024.

A obsessão de Musk pelo Reino Unido tem crescido desde que comprou o Twitter, em outubro de 2022, e em particular desde a chegada dos trabalhistas ao poder, segundo uma análise recém-publicada pelo Financial Times. No que vai de junho, quase 20% de suas mensagens foram sobre o Reino Unido. Sua conta no X é a que tem o maior alcance da plataforma, com mais de 240 milhões de seguidores. Desde que comprou a empresa, as mudanças no algoritmo premiam as vozes mais extremas e punem as fontes de informação de mídia e outras instituições, especialmente se acompanhadas de links.

Distúrbios na Irlanda do Norte

Em plenos distúrbios em bairros protestantes da Irlanda do Norte contra minorias, com queima de carros, ônibus e residências, Musk utilizou sua plataforma para chamar novamente à "luta".

O proprietário do X compartilha em particular os apelos das figuras mais ultras do Reino Unido para expulsar milhões de pessoas do país por causa da cor de sua pele, sua religião ou sua origem. Fez isso após o assassinato de um jovem de 18 anos em Southampton, no sul da Inglaterra, por outro britânico de religião sikh. E voltou a fazê-lo depois que um refugiado sudanês atacou com uma faca um homem na rua em Belfast (a vítima está hospitalizada em estado grave).

As famílias de ambas as vítimas pediram calma à população e, de maneira explícita, que sua tragédia não fosse utilizada para alimentar a violência ou a divisão. Isso não freou os distúrbios nem a retórica online. Segundo Musk, a culpa é dos "migrantes assassinos" e "não das redes sociais".

A lista

"Ou lutas ou morres", disse Elon Musk em um comício ultra em Londres no qual participou remotamente no ano passado — uma mensagem que agora voltou a repetir. Seus chamados à ação desta semana incluem uma lista gerada automaticamente com lugares para protestar "de maneira barulhenta" em todo o país.

Alguns dos pontos de encontro nessa lista difundida por Musk e grupos ultras são inexistentes ou inacessíveis por obras e outras limitações de mobilidade. Em Oxford, por exemplo, o lugar de reunião era uma praça com nome inventado. A maioria dos protestos além da Irlanda do Norte reuniu apenas algumas dezenas de pessoas, mas homens de preto encapuzados — o uniforme ao qual se incitava para protestar — provocaram incidentes em algumas localidades, por exemplo, em Glasgow, na Escócia.

Os ultras de Musk

Nigel Farage, o líder do Reform, o partido de extrema direita favorito nas pesquisas de intenção de voto, diz agora que não apoia os protestos violentos. Mas as mensagens de Farage e outros políticos animaram a mobilização cidadã. Na semana passada, Farage incentivou a "raiva" para agitar os ânimos após o assassinato de Southampton, embora depois tenha recuado diante das queixas da família da vítima.

Musk apoia agora em particular Stephen Yaxley-Lennon, um ultra que utiliza o pseudônimo de Tommy Robinson, e Rupert Lowe, fundador do partido de extrema direita Restore Britain, que se apresenta como alternativa mais radical que o Reform, mas compartilha mensagens parecidas contra estrangeiros e minorias. O dono do X diz que não apoia mais Farage porque o considera demasiado brando.

Enquanto isso, os deputados do Partido Conservador e do Reform compartilham cada vez mais mensagens no X, segundo o Financial Times. Seu volume e recorrência de mensagens aumentou desde a compra por Musk. Em contrapartida, os representantes do Partido Trabalhista e do Partido Liberal-Democrata migraram para outras plataformas, e os que ficaram tuítam num nível comparável ao de 2012, quando o então chamado Twitter era uma ferramenta de alcance reduzido.

O que fazer

Nesta quarta-feira, o primeiro-ministro Starmer assegurou que não hesitará em punir as plataformas que incitem ao ódio. A responsabilidade, em todo caso, é agora do regulador. A Ofcom (Escritório de Comunicações) publicou uma carta para lembrar ao X e a outras plataformas suas responsabilidades segundo a lei em vigor de 2023 para eliminar o conteúdo que incite à violência e facilitar as queixas dos usuários.

O regulador sublinha que "uma parte" dos distúrbios em Belfast "parece ter sido instigada online". "Isso incluiu incidentes racistas de violência, incêndios de casas e veículos e ataques contra a polícia", diz o texto, que lembra que as plataformas têm o dever de "analisar e mitigar a atividade ilegal em seus sites e aplicativos". O regulador confirmou que já lançou investigações sobre o comportamento de várias plataformas.

Mas o papel de Musk, em particular, vai além do que faz sua plataforma ou outros usuários. O governo britânico insiste em que a interferência do multimilionário vem de alguém que não conhece o Reino Unido nem suas comunidades. "Ele não vive lá... Ele não está em risco", dizia esta semana Anna Turley, membro do governo e uma das líderes do Partido Trabalhista. "Trata-se de agentes de má-fé que muitas vezes estão sentados a muitas milhas de distância. Para eles é fácil esquentar o ambiente."

Na Irlanda do Norte, a ministra da Justiça, Naomi Long, do partido centrista Alliance, queixou-se de que os "agentes de má-fé" online não saberiam nem colocar sua comunidade no mapa. "Há os que anteontem não teriam sido capazes de encontrar Belfast no mapa, que estão online, explorando o medo que as pessoas têm pelo que aconteceu e tentando converter isso em um protesto racista ou um assunto contra a imigração", disse Long na BBC.

Os políticos de partidos nacionalistas e unionistas da Irlanda do Norte mostraram uma incomum sintonia em seu chamado à calma, inclusive o partido de extrema direita local. Mas Musk apoiou outros ativistas ultras também naquela região.

A legislação

Espera-se que em meados de julho entre em vigor uma emenda já prevista da legislação atual para obrigar as plataformas a agir mais rapidamente contra o conteúdo ilegal, especialmente em momentos de crise, segundo anunciou esta semana a ministra de Tecnologia, Liz Kendall. Trata-se da legislação secundária que o governo pode aplicar de forma rápida, mas que requer 40 dias para entrar em vigor.

Além disso, o governo de Keir Starmer já prometeu apresentar em breve um novo pacote de medidas para combater a exploração sexual e limitar o uso das redes sociais e combater seus aspectos mais viciantes, em particular para os menores de 16 anos.

O primeiro-ministro, no entanto, pode logo se deparar com uma eleição primária para substituí-lo em seu partido e uma crise no governo. Na próxima quinta-feira, o prefeito de Manchester, Andy Burnham, se apresenta em eleições especiais por uma cadeira nacional vaga. Se ganhar, entrará no Parlamento e assim poderá apresentar sua candidatura contra Starmer. Alguns aliados do primeiro-ministro já falam em que ele precisa acelerar sua agenda se quiser que reste algo de seu "legado". O freio às redes sociais pode ser uma peça.

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