Da "utilização seletiva" à "utilização eletiva" do Rito Romano: carta do Irmão Michael Davide Semeraro. Artigo de Andrea Grillo

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11 Junho 2026

"Li com atenção e quase com alívio a tua conclusão-proposta para superar a querela VO/NO com a adoção de um “uso seletivo” dos livros litúrgicos aprovados em conformidade com as disposições do Concílio Vaticano II e de sua implementação nestas últimas décadas... visto que, na Itália, já estamos na terceira edição do Missal."

O artigo é de Andrea Grillo, teólogo, publicado no blog Come se non, em 10-10-2026.

Eis o artigo. 

Andrea Grillo apresenta a reflexão do irmão Michael Davide Semeraro sobre o sentido do “uso seletivo” e do “uso eletivo” do rito romano, em diálogo com a recepção da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II.

Em resposta ao meu post de ontem, irmão Michael Davide reflete sobre o sentido do “uso seletivo”, como proposta de reconciliação e, fundamentando-o na prática pós-conciliar comum de adaptação de cada celebração ao espaço-tempo eclesial, propõe definir “uso eletivo” um estilo diferenciado de recepção litúrgica do rito romano. Parece-me um aprofundamento do modo criativo de atuação da tradição que o rito romano exige a partir da reflexão que o Movimento Litúrgico introduziu na sensibilidade eclesial do século XX, superando as formas modernas (isto é, tridentinas) de leitura da tradição como “aplicação de normas gerais e abstratas”. Agradeço de coração por esta nova contribuição para um debate cada vez mais amplo sobre o tema do rito romano compartilhado. (ag)

Novalesa, 9 de junho de 2026

Caro Andrea,

Li com atenção e quase com alívio a tua conclusão-proposta para superar a querela VO/NO com a adoção de um “uso seletivo” dos livros litúrgicos aprovados em conformidade com as disposições do Concílio Vaticano II e de sua implementação nestas últimas décadas... visto que, na Itália, já estamos na terceira edição do Missal.

Procurei compreender, à minha maneira, aquilo que entendes por “uso seletivo” e me pareceu totalmente natural interpretá-lo como uma atitude “criativa” no uso do Missal e dos demais livros litúrgicos. Parece-me, mas nisso posso estar enganado por não ser um liturgista diplomado, que por trás de todo o trabalho destas décadas houve a busca de um equilíbrio saudável e harmonioso entre a fidelidade aos textos e às rubricas juntamente com a criatividade de quem preside a Liturgia para saber adaptá-la oportunamente à comunidade celebrante, sem deixar de envolvê-la na preparação das celebrações.

Um exemplo entre tantos é, certamente, o modo bastante diversificado com que se celebra nos mosteiros e nas paróquias ou nas capelanias de um hospital ou com um grupo escoteiro/AGESCI, de forma diferente de um grupo dos Escoteiros da Europa. Se compreendo bem, tu proporias aos nossos irmãos, que atualmente usam o VO, utilizar o NO com a mesma criatividade e liberdade disciplinada de um padre que acompanha um campo da AGESCI na montanha. Sem esconder o fato de que algumas vezes certas “liberdades criativas” estão no limite do abuso litúrgico!

De todo modo, seria a extensão daquilo que é vivido há décadas nos mosteiros e em outras realidades eclesiais – não “tradicionalistas”, mas clássicas – de usar os novos livros litúrgicos aprovados mantendo a língua antiga – o latim – e o estilo ou, mais precisamente, a atitude mais “hierática” da liturgia tridentina.

Se fosse assim, encontrar-nos-íamos todos na mesma situação de obediência canônica ao que determinam os livros litúrgicos aprovados juntamente com uma justa e necessária criatividade que seria modulada no sentido de uma maior ou menor hieraticidade, menor ou maior proximidade entre quem preside a celebração dos Mistérios e a comunidade que os celebra. Manifestar-se-ia assim a plena observância, por parte de todos, da primeira e fundamental rubrica do Ordo Missae: populo congregato (NO), que substitui o sacerdos paratus (VO).

Se fosse assim: pax liturgica facta est, aleluia!

Mas tenho a impressão de que a controvérsia, em seu aspecto mais básico, diz respeito justamente ao fato de que quem pratica o VO o faz na pretensão e no protesto de que o VO não é expressão de uma serena “criatividade” possível dentro do mesmo Ordo, mas expressão de fidelidade à tradição e denúncia da infidelidade à tradição por parte dos outros. Enquanto, da minha parte – e penso também da tua – não haveria nenhum problema em reconhecer que numa comunidade se use apenas e exclusivamente o Cânone Romano, seria desejável que do outro lado não se considerasse “infiel à tradição” o uso habitual das outras Orações Eucarísticas – especialmente as mais recentes, cuja linguagem é mais fraterna do que sacrificial – com a exclusão habitual e até total do Cânon Romano, cujo uso permanece facultativo até mesmo na Missa In Coena Domini.

Para dar um pequeno exemplo de “criatividade”, há anos no nosso mosteiro – e não apenas no nosso – o presidente pronuncia as Orações da Eucaristia e da Liturgia das Horas sempre voltado ad Orientem. Gosto de compartilhar contigo o que aconteceu no último domingo em nosso mosteiro de Novalesa. Ao final da Liturgia Eucarística dominical – era a solenidade de Corpus Christi – um presbítero que acompanhava um grupo e concelebrou com o irmão de turno na presidência me disse na sacristia: “Mas que bela Missa... é preciso dizer que o latim na Missa é realmente belo, é outra coisa”. Não pude fazer outra coisa senão concordar! Na realidade, em latim havíamos cantado apenas o Salve Regina ao final da celebração; quanto ao resto, os cantos tinham sido em parte em italiano e em parte em francês por causa da presença de hóspedes francófonos.

Perguntei-me: mas por que esse padre teve a percepção de “rezar em latim”? Muito provavelmente, mesmo rezando em língua vernácula e celebrando a solenidade de Corpus Christi sem procissão eucarística, esse padre teve a impressão de uma celebração na qual pôde respirar aquele sentido de transcendência e de mistério que normalmente se acredita encontrar apenas em ambientes clássico-tradicionalistas. Foi tão forte a sensação e a percepção que ele pensou, automaticamente, ter rezado em latim ou em gregoriano, enquanto os textos e os cantos estavam em italiano e francês, os paramentos eram tecidos em nosso mosteiro e os utensílios litúrgicos não eram nem antigos nem antiquados.

Esse qui pro quo evidencia a necessidade e a urgência de uma verificação da modalidade celebrativa no cotidiano das comunidades cristãs, nas quais se corre o risco de confundir criatividade e adaptação com desleixo e insensibilidade à dimensão do mistério. Talvez este seja um canteiro de obras do qual devemos cuidar para devolver credibilidade e fecundidade espiritual ao caminho corajoso e inteligente destas últimas décadas em matéria litúrgica.

Em conclusão, para retornar à tua proposta de “uso seletivo”, estou plenamente de acordo, na medida em que a obtenção da paz litúrgica seja expressão e escola da paz da vida. Se me permites, sugeriria falar antes de “uso eletivo”, o que me parece sublinhar uma operação de discernimento atento e honesto na escolha de como modular palavras e gestos da Liturgia em harmonia com a sensibilidade espiritual e a oportunidade pastoral. Pessoalmente penso, porém, que a ordem deve ser hierarquicamente correta, dando precedência à paz da vida para gerar e desfrutar harmoniosamente a paz litúrgica.

Acompanha-me há anos uma maravilhosa expressão de Guillaume de St. Thierry no prólogo do seu De diligendo Deo: “Que o amor da verdade não ofusque a verdade do amor”. E aqui estamos novamente diante do Evangelho... que é a nossa ruína, como “mal dizia” o Autor de todas as divisões e facções ao gritar contra nosso Senhor Jesus Cristo: “Vieste para nos arruinar?” (Mc 1,24).

Obrigado de coração pela tua contribuição de apaixonada inteligência para não permitir que o incitamentum divinum, ao qual João XXIII obedeceu profeticamente, seja anulado pelos nossos medos e pelos nossos confortos espirituais.

Irmão Michael Davide, osb

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