10 Junho 2026
"Talvez a principal questão seja que parte do debate público ainda associe nacionalidade à ancestralidade étnica, discussão que parece se intensificar ainda mais em países historicamente marcados pelo colonialismo, como França, Portugal e Inglaterra", escreve Christian Stähler Padilha, estudante de jornalismo da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos e estagiário do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Eis o artigo.
Faltam poucos dias para o começo da Copa do Mundo de 2026, que será realizada, de forma inédita, em três países: Estados Unidos (que sediará cerca de 75% dos jogos), Canadá e México. Com isso, muitos países já convocaram seus jogadores e as reações não ficaram restritas apenas aos comentários esportivos.
Algumas delas, agressivas, questionam a identidade dos atletas, algo muito notável na seleção francesa não apenas hoje, mas principalmente desde a conquista do seu primeiro título mundial, em 1998, contra o Brasil.
Tensões políticas durante a Copa do Mundo de 1998
Naquele período, a França vivia um contexto de crescimento de discursos nacionalistas e anti-imigração impulsionados por setores mais extremistas, representados na figura de Jean-Marie Le Pen, além de sediar a Copa do Mundo daquele ano. Com jogadores de diferentes etnias no elenco, o político questionou se aquele time representava, de fato, a identidade nacional francesa, em razão da presença de atletas negros, árabes e descendentes de imigrantes
Nesse contexto, Le Pen chegou a afirmar que a seleção era “artificial” e que muitos jogadores supostamente não sabiam cantar o hino nacional. Entre os principais alvos das críticas estavam atletas de origem africana e norte-africana, como Zinedine Zidane — considerado um dos maiores jogadores da história do futebol — além de Lilian Thuram e Marcel Desailly.
As críticas, naquele momento, não enfraqueceram a equipe, mas serviram de inspiração. A seleção azul, vermelha e branca abraçou firmemente sua identidade multicultural, que ficou conhecida pela imprensa como “Black-Blanc-Beur” (“Preto, Branco e Árabe”), em referência à diversidade étnica presente naquele elenco.
E agora?
Sete edições depois, o multiculturalismo continua sendo parte inseparável da identidade francesa. A grande diferença é que comentários antes mais restritos ao cenário político do país passaram a ecoar também em outras partes do mundo.
Kylian Mbappé, um dos principais nomes — se não o principal — da seleção francesa, possui dupla origem africana. Seu pai, Wilfried Mbappé, é camaronês, enquanto sua mãe, Fayza Lamari, possui ascendência argelina, mesma raíz familiar de Zinedine Zidane.
Marine Le Pen, filha do agora falecido Jean-Marie Le Pen, já criticou Mbappé em diferentes ocasiões. Isso ocorre porque o jogador manifesta publicamente preocupação com o avanço da extrema-direita na França e chegou a pedir que os franceses “votassem no lado certo”.
Em uma dessas situações, Marine Le Pen afirmou que Mbappé não representaria os franceses “com antecedentes de imigração” e declarou que parte do eleitorado estaria cansada de ouvir “sermões de milionários”.
Além do astro do Real Madrid, diversos jogadores da seleção francesa possuem origens familiares ligadas a outras regiões do mundo. É o caso de Ousmane Dembélé, filho de imigrantes do Mali e da Mauritânia, além de N’Golo Kanté, cujos pais nasceram no Mali.
Ao mesmo tempo, a equipe também conta com atletas de ascendência europeia, como os irmãos Hernández, de origem espanhola, e Rayan Cherki, que possui raízes italianas e argelinas.
Por que a França?
Nas últimas semanas, algumas publicações nas redes sociais questionaram a escolha da França pelo jogador do Bayern de Munique, Michael Olise. Entre os argumentos citados estavam sua suposta dificuldade em falar francês e o fato do atleta ter nascido e sido criado na Inglaterra, ignorando completamente a nacionalidade de sua mãe, que é franco-argelina.
Nos comentários, usuários passaram a questionar a “francesidade” — se me permitem usar esse termo — de parte dos jogadores da seleção francesa. Muitos também perguntavam por que esses atletas não defendiam os países de origem de seus pais ou avós, frequentemente ligados a antigas colônias francesas.
Em alguns casos, os comentários sugeriam que jogadores negros não poderiam representar a França “de verdade”, mesmo tendo nascido e crescido dentro da cultura do país.
Ao observarmos a lista original dos 26 jogadores convocados pelo técnico francês Didier Deschamps — campeão mundial em 1998 como jogador e em 2018 como treinador — nota-se que apenas o já citado Michael Olise e o goleiro Brice Samba nasceram fora da França.
Vale destacar que o também goleiro Mike Maignan nasceu na Guiana Francesa, território ultramarino juridicamente integrado à França, localizado na América do Sul.
Nacionalidade, cidadania e pertencimento
Do ponto de vista jurídico, os jogadores aqui citados são franceses sem qualquer tipo de ambiguidade.
A legislação francesa combina tanto o chamado droit du sang (“direito de sangue”) quanto elementos do droit du sol (“direito de solo”). Simplificando: a nacionalidade francesa pode ser transmitida pela ascendência familiar, mas também pelo nascimento em território francês ou pela residência contínua no país durante parte da juventude.
Historicamente, a República Francesa construiu sua identidade nacional em torno da ideia de cidadania republicana, segundo a qual todos os cidadãos franceses deveriam ser vistos, juridicamente, apenas como franceses, independentemente de origem étnica ou religiosa.
Ou seja, isso significa que diversos atletas da seleção francesa não apenas possuem cidadania legal, mas nasceram, cresceram e foram socializados dentro da própria cultura francesa.
O caso do goleiro Mike Maignan ajuda a ilustrar isso. Embora tenha nascido na Guiana Francesa, ele nasceu em um território que juridicamente integra a França. Portanto, sob a legislação francesa, Maignan é tão francês quanto alguém nascido em Paris.
Talvez a principal questão seja que parte do debate público ainda associe nacionalidade à ancestralidade étnica, discussão que parece se intensificar ainda mais em países historicamente marcados pelo colonialismo, como França, Portugal e Inglaterra.
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