11 Junho 2026
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Esse volume perdido corresponde a mais de duas vezes o total de brasileiros sem acesso ao abastecimento de água (cerca de 33 milhões de pessoas) e a mais de um quarto da população do país em 2024.
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Reduzir as perdas totais dos atuais 39,53% para 25% economizaria 2,8 bilhões de m³ de água por ano, volume capaz de abastecer 17,2 milhões de brasileiros que vivem em comunidades vulneráveis por dois anos.
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O volume total de água referente às perdas físicas em 2024 (cerca de 4,4 bilhões de m³) é equivalente a 4,8 mil piscinas olímpicas de água desperdiçadas diariamente ou ao conteúdo de 16,2 milhões de caixas d’água para uma família de cinco pessoas desperdiçadas por dia.
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12 dos 100 municípios mais populosos do Brasil atendem às metas de 25% em perdas na distribuição e 216 L/ligação/dia em perdas por ligação, entre eles as capitais Goiânia (GO), Teresina (PI) e Campo Grande (MS).
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Redução de perdas de água de 39,53% para 25% resultaria em ganhos de R$ 47,3 bilhões até 2033.
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A eficiência no controle é uma medida de adaptação climática que aumenta a disponibilidade hídrica e reduz a pressão sobre os mananciais.
O levantamento é do Instituto Trata Brasil (ITB), em parceria com a consultoria GO Associados, publicado por EcoDebate, 08-06-2026.
Em meio ao agravamento das mudanças climáticas e cerca de 33 milhões de habitantes sem acesso à água potável, o Brasil desperdiça 39,53% da água tratada antes mesmo que ela chegue às torneiras das famílias. O estudo aponta que o volume de perdas físicas em 2024 (cerca de 4,4 bilhões de m³) equivale a 4,8 mil piscinas olímpicas desperdiçadas por dia. Para ter uma ideia do que isso representa, esse mesmo volume corresponde a 16,2 milhões de caixas d'água para uma família de cinco pessoas por dia ou a 4,5 vezes o volume do Sistema Cantareira ao longo de um ano.
O levantamento foi elaborado a partir de dados públicos do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), ano-base 2024, e compreende uma análise do Brasil, de suas cinco macrorregiões, das 27 Unidades da Federação e dos 100 municípios mais populosos do país (incluindo as capitais dos estados), que figuraram no Ranking do Saneamento de 2026.
O que é perda de água?
No processo de abastecimento de água, podem ocorrer perdas por vários motivos, como vazamentos, erros de medição e consumos não autorizados. Esses desperdícios trazem impactos negativos ao meio ambiente, à receita e aos custos de produção das empresas, o que deixa mais caro o sistema como um todo, prejudicando, em última instância, todos os usuários.
Apesar da resposta ideal ser zero perdas, de acordo com a literatura sobre o tema, não ter perdas no sistema é algo inviável por limites econômicos (em determinado ponto, o custo fica superior ao do volume recuperado) e limites técnicos (existe um volume mínimo de perdas dadas as tecnologias atuais de materiais, ferramentas e logística).
No Brasil, o Ministério das Cidades editou a Portaria MCID nº 788/2024, que estabelece metas para os indicadores de perdas na distribuição e perdas por ligação. Segundo o normativo, os municípios beneficiados por recursos públicos federais ou financiamentos com recursos da União deverão apresentar indicadores iguais ou inferiores a:
- 35% e 303,0 L/ligação/dia até 2025;
- 30% e 263,0 L/ligação/dia entre 2026 e 2032;
- 25% e 216,0 L/ligação/dia a partir de 2033.
Impacto das perdas de água no Brasil
Para entender o impacto do controle de perdas, considerando-se somente as perdas físicas (como, por exemplo, os vazamentos), o volume (cerca de 4,4 bilhões de m³) seria suficiente para abastecer aproximadamente 77 milhões de brasileiros em um ano. Esta quantidade não somente equivale a mais de um quarto da população do país em 2024, como também corresponde a mais de duas vezes o número de habitantes sem acesso ao abastecimento de água nesse ano, cuja grandeza situa-se em torno de 33 milhões.
Além disso, com esse mesmo volume, seria possível abastecer os 17,2 milhões de brasileiros que vivem em comunidades vulneráveis por dois anos. Ao meio ambiente, a redução dessas perdas implicaria a disponibilidade de mais recurso hídrico para a população sem a necessidade de captação de água em novos mananciais.
Com o cenário de mudanças climáticas, os desafios para a disponibilidade hídrica nos mananciais se tornam cada vez mais evidentes. As perdas reais afetam diretamente os custos de produção e a demanda por água. Um elevado nível dessas perdas equivale a uma captação e a uma produção superiores ao volume efetivamente demandado, gerando as seguintes ineficiências:
Desequilíbrios na produção de água: maior custo dos insumos químicos, energia para bombeamento, entre outros fatores de produção; maior custo de manutenção da rede e de equipamentos; uso excessivo da capacidade de produção e de distribuição existente; maior custo oriundo da possível utilização de fontes de abastecimento alternativas de menor qualidade ou de difícil acesso.
Desequilíbrios ambientais: pressão excessiva sobre as fontes de abastecimento do recurso hídrico, uma vez que se capta mais água do que efetivamente chega à população; maior custo posterior para mitigação dos impactos negativos dessa atividade (externalidades).
Benefícios sociais com a redução de perdas
Ao se admitir não uma eliminação total das perdas, mas uma redução dos atuais 39,5% aos 25% previstos pela Portaria 788/2024, o volume economizado seria da ordem de 2,8 bilhões de m³. Isso equivale ao consumo médio de aproximadamente 48 milhões de brasileiros em um ano.
Cenário nacional de perdas nos últimos cinco anos
O indicador mais comumente utilizado para a análise geral de perdas no país é o Índice de Perdas na Distribuição. Considerando os últimos cinco anos, o valor de 2024, de 39,53%, é ligeiramente menor que o de 2020, de 40,14%, ambos significativamente superiores à meta de 25%.
Recorte por região
A situação de perdas no Brasil apresenta significativas diferenças quando se comparam suas diversas macrorregiões. Norte e Nordeste são as mais carentes e devem enfrentar os maiores desafios para reduzirem seus índices de perdas. Além disso, essas regiões também são aquelas que possuem os piores indicadores de atendimento de água, de coleta e de tratamento de esgotos.
De 2020 a 2024, a macrorregião que mais apresentou piora foi o Nordeste, com aumento de 0,46 ponto percentual. Por outro lado, observa-se melhora na macrorregião Norte, com redução de 1,79 pontos percentuais no mesmo período.
Recorte de indicadores por estado
A análise comparativa dos indicadores estaduais de perdas na distribuição evidencia a variação do desempenho entre as unidades federativas, identificando padrões regionais, diferenças estruturais entre os sistemas de abastecimento e potenciais implicações para a eficiência operacional dos prestadores. A leitura do indicador permite uma compreensão mais abrangente do estágio de controle de perdas no país.
A análise evidencia um padrão de maior ineficiência concentrado principalmente nas regiões Norte e Nordeste do país. Estados como Alagoas (66,90%), Roraima (65,97%), Pará (57,33%), Maranhão (56,68%), Acre (56,48%) e Sergipe (55,10%), apresentam níveis de perdas superiores a 55% do volume distribuído, significativamente acima da média nacional (39,53%).
Por outro lado, estados das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país, como Goiás (27,61%), Mato Grosso do Sul (30,60%), Distrito Federal (31,55%), São Paulo (32,15%), e Paraná (33,11%) registram indicadores inferiores a 35%. Neste indicador, merece destaque o estado do Piauí, que possui a menor média entre os estados (24,61%), e Tocantins, com a quinta menor média entre as unidades da federação para este indicador (31,58%).
Recorte para os 100 maiores municípios brasileiros
O indicador médio computado na amostra foi de 35,56% em 2024, o que representa uma piora em relação aos 31,09% computados em 2023. Dos 99 municípios considerados, apenas 20 possuem níveis de perdas na distribuição menores que 25%. Os dados mostram ainda que 14 municípios têm perdas na distribuição superiores a 50%.
É possível observar uma forte concentração dos melhores desempenhos nos estados do Sudeste, que concentram 12 dos 20 municípios com menores índices de perdas na distribuição. Municípios como Suzano (1,27%) e Santos (5,35%), apresentam níveis significativamente inferiores à média nacional.
Por outro lado, os municípios com piores resultados estão majoritariamente localizados nas regiões Norte e Nordeste, com destaque para Parauapebas (PA), com 70,68%, e Maceió, com 64,05%. Além disso, outras cidades de diferentes regiões também apresentam perdas significativas, com destaque para Belo Horizonte, com 68,29% e Várzea Grande (MT), com 59,03%.
Municípios nos padrões de excelência
Conforme a já mencionada Portaria 788/2024, são considerados excelentes os municípios que contam com até 25% em perdas na distribuição e de 216 L/ligação/dia em perdas por ligação.
Somente doze dentre os 100 municípios mais populosos do Brasil atendiam às metas da Portaria 788/2024 simultaneamente em 2024, indicando haver um longo caminho a ser percorrido na busca pela redução das perdas de água.
Recorte para as capitais brasileiras
Apenas quatro das 27 capitais — Goiânia, São Paulo, Campo Grande e Teresina — apresentaram valores inferiores à meta de 25% estabelecida pela Portaria 788/2024. A média das capitais foi de 39,30%.
Estima-se que as capitais brasileiras percam anualmente cerca de 2,3 bilhões de m³ de água, dos quais aproximadamente 0,9 bilhão de m³ (40%) correspondam a perdas aparentes (comerciais), enquanto 1,4 bilhão de m³ (60%) refiram-se a perdas reais (físicas). Considerando-se apenas estas últimas, o volume desperdiçado equivale a cerca de 1.517 piscinas olímpicas por dia, ou a mais de cinco milhões de caixas d'água de 750 litros.
Ganhos econômicos com a redução das perdas de água potável
Para calcular os ganhos econômicos ao país pela redução de perdas, o estudo apresentou uma análise de três cenários: o otimista (15% de perdas em 2033), o realista (25%) e o pessimista (35%). Tomando como referência o Cenário Realista, existe um potencial de ganhos brutos de R$ 47,3 bilhões até 2033. Caso sejam considerados os investimentos necessários para a redução de perdas, o benefício líquido gerado é da ordem de R$ 23,6 bilhões em 10 anos.
Conclusão
A melhor gestão e eficiência nos sistemas de distribuição estão diretamente ligadas à universalização do saneamento básico. Combater as perdas é, antes de tudo, garantir o acesso pleno à água para todos os brasileiros, proteger os mananciais e responder aos efeitos das mudanças climáticas com a infraestrutura que o país já tem, mas ainda desperdiça.
O estudo evidencia que as perdas de água permanecem em níveis elevados no país. Em 2024, as perdas na distribuição foram de 39,53%, enquanto as perdas por ligação foram de 349,09 L/dia/ligação, valores significativamente superiores aos parâmetros de eficiência estabelecidos pela Portaria 788/2024. As desigualdades regionais permanecem como um dos principais desafios para a universalização dos serviços de saneamento básico no Brasil, e as regiões Norte e Nordeste seguem concentrando os indicadores mais elevados de perdas de água.
Em uma realidade que já se faz presente, os efeitos das mudanças climáticas refletem em impactos diretos no acesso à água potável. A redução das perdas contribui para mitigar a necessidade de expansão de mananciais e aumenta a resiliência dos sistemas de abastecimento em um contexto de crescente pressão sobre os recursos hídricos. Além disso, menores níveis de perdas tendem a ampliar a sustentabilidade econômico-financeira dos prestadores, reduzindo pressões sobre tarifas futuras e liberando recursos para investimentos em expansão, manutenção e melhoria dos serviços.
"Seguimos perdendo, a cada ano, água suficiente para abastecer populações inteiras, enquanto milhões de brasileiros ainda não têm acesso a esse recurso básico e essencial para a vida. Estamos falando de um volume capaz de atender 77 milhões de habitantes, número que representa mais de duas vezes a quantidade de pessoas sem acesso ao abastecimento de água no país. São casas que ficam sem abastecimento, rios que secam, uma sobrecarga em todo o sistema de distribuição que recai, inevitavelmente, sobre os habitantes. Reduzir perdas de água é uma escolha de gestão que impacta diretamente a qualidade de vida da população e a saúde dos nossos mananciais, especialmente em um cenário em que as mudanças climáticas já pressionam a disponibilidade hídrica e tornam a eficiência no uso da água ainda mais urgente. Em um ano eleitoral, esse debate precisa chegar às propostas de saneamento integrado, porque não há universalização possível sem eficiência na distribuição da água que já produzimos", analisa Luana Pretto, Presidente-Executiva do Trata Brasil.
"A redução das perdas de água deixou de ser apenas uma agenda de eficiência operacional no setor de saneamento básico e passou a ocupar um papel estratégico na adaptação climática dos municípios. Em um contexto internacional em que parte do setor privado e de governos tem abandonado compromissos ambientais, torna-se ainda mais importante fortalecer políticas públicas capazes de conciliar a expansão do atendimento às populações ainda sem acesso ao abastecimento de água e aos serviços de coleta e tratamento de esgotos com segurança hídrica e preservação ambiental. Nesse sentido, reduzir perdas significa utilizar de forma mais racional a água já captada e tratada, diminuindo a pressão sobre os mananciais, reduzindo custos operacionais e aumentando a resiliência dos sistemas de abastecimento frente a eventos climáticos extremos", declara Gesner Oliveira, Sócio Executivo da GO Associados.
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