IA é um recurso público. Artigo de Bernie Sanders

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09 Junho 2026

“Quando um recurso público gera riqueza, o público deve compartilhar dessa riqueza. A IA está sendo construída sobre um recurso público muito mais valioso do que o petróleo: o conhecimento, a criatividade e o trabalho acumulados pela humanidade”. A reflexão é de Bernie Sanders, senador independente por Vermont, em artigo publicado por Sin Permiso, 02-06-2026. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

É quase certo que a inteligência artificial será a tecnologia mais transformadora da história mundial. Ela afetará profundamente a vida de todos os homens, mulheres e crianças do nosso país. Trará – e já está trazendo – mudanças inimagináveis para nossa economia, nossa democracia, nosso bem-estar emocional, nosso meio ambiente e a forma como educamos e criamos nossos filhos. Além disso, existe um temor muito real de que, à medida que a IA se torne mais inteligente que os humanos, ela possa eventualmente operar de forma independente, com consequências potencialmente catastróficas.

A questão, portanto, não é se a IA mudará o mundo. Ela mudará. A questão é: quem será o dono e controlará esse futuro? Quem se beneficiará dele e quem será prejudicado? A IA será usada para melhorar a vida das famílias trabalhadoras? Ela enriquecerá nossa qualidade de vida? Ela nos ajudará a eliminar a pobreza, aumentar a expectativa de vida e resolver a crise climática? Ou o futuro da humanidade será determinado por um punhado de bilionários que promoveram e desenvolveram a IA, praticamente sem participação democrática, e que se tornarão ainda mais ricos e poderosos do que são hoje?

Essa é a escolha que temos diante de nós.

Sejamos sinceros: a inteligência artificial não surgiu do nada. Os dados e a linguagem usados pelas ferramentas de IA generativa não brotaram da mente de Sam Altman ou da imaginação de Elon Musk. A IA se baseia em nossa inteligência coletiva: nossos livros, músicas, obras de arte, jornalismo, código de computador, pesquisas científicas, vídeos, conversas, imagens e ideias que atravessam gerações. E essa não é apenas a opinião de Bernie Sanders. Segundo Altman, diretor da OpenAI, os modelos de IA foram treinados com base em nossa “experiência coletiva, conhecimento” e “sabedoria da humanidade”.

Na maior parte dos casos, os oligarcas da tecnologia alimentaram seus modelos de IA com esse conhecimento sem permissão, sem reconhecimento e sem compensação. Em outras palavras, o trabalho criativo de milhões de pessoas – escritores, artistas, músicos, jornalistas, professores, cientistas e cidadãos comuns – foi essencialmente roubado por algumas das pessoas mais ricas do mundo. É hora de o recuperarmos.

Como a IA se baseia no conhecimento coletivo da humanidade, a riqueza que ela gera deve beneficiar a humanidade. Não apenas Musk, Altman, Dario Amodei e outros magnatas cujas empresas estão posicionadas para dominar o setor. Não apenas os investidores de capital de risco do Vale do Silício ou os gestores de fundos de Wall Street que, sem dúvida, veem a IA como a próxima grande máquina de extração de riqueza.

É por isso que em breve apresentarei uma proposta para uma Lei de Fundo Soberano de Inteligência Artificial dos EUA. Essa legislação daria aos cidadãos uma participação direta na propriedade das maiores empresas de IA do nosso país. Como? Criando um fundo soberano por meio de um imposto único de 50% – não sobre os lucros da OpenAI, Anthropic, xAI e outras empresas, mas financiado com algo muito mais valioso: as ações.

Se aprovada, essa legislação fará duas coisas cruciais. Primeiro, dará ao público um papel direto na determinação do futuro dessa tecnologia. O futuro da IA e a transformação da vida humana que ela trará não seriam mais ditados por um punhado de oligarcas das grandes empresas de tecnologia. O governo federal terá o poder, por meio de seus direitos de voto e representação igualitária no conselho de administração de cada empresa, de bloquear decisões que prejudiquem nossos cidadãos e de pressionar por políticas que os beneficiem.

Em segundo lugar, essa legislação garantirá que os trilhões de dólares potencialmente gerados pela IA sejam usados para melhorar a vida de todos nós, e não simplesmente para enriquecer ainda mais os indivíduos mais ricos do mundo. Se as grandes empresas de IA continuarem a crescer tão rapidamente quanto muitos analistas preveem, o valor do fundo soberano também aumentará, e os benefícios para o povo estadunidense crescerão na mesma proporção.

Essa não é uma ideia original. Ela já foi proposta por acadêmicos e endossada por algumas das principais empresas de IA dos Estados Unidos. A OpenAI, por exemplo, propôs recentemente a criação de um “fundo soberano de investimento que ofereça a todos os cidadãos, inclusive àqueles que não investem nos mercados financeiros, uma participação no crescimento econômico impulsionado pela IA”. A Anthropic, liderada por Amodei, propôs de forma semelhante a criação de “fundos soberanos nacionais com participação em IA”. Musk, que lidera a xAI, escreveu: “Uma renda básica universal elevada, por meio de cheques emitidos pelo governo federal, é a melhor maneira de lidar com o desemprego induzido pela IA”.

Existem dezenas de fundos soberanos em todo o mundo para garantir que as pessoas comuns se beneficiem da riqueza nacional. O fundo soberano da Noruega, um dos maiores do mundo, foi financiado pela riqueza petrolífera do país e agora vale mais de 2 trilhões de dólares. Em vez de alguns executivos do setor petrolífero embolsarem todos os lucros desse recurso nacional, a Noruega decidiu que essa riqueza deveria ser usada para melhorar a vida de toda a sua população.

Esse conceito já foi colocado em prática aqui mesmo, em nosso país. Há cinquenta anos, o Alasca criou um fundo soberano a partir das receitas petrolíferas do estado. Durante décadas, esse fundo pagou dividendos anuais diretamente aos moradores do Alasca. Além disso, fundos de pensão públicos em diversos estados do país já detêm centenas de bilhões de dólares em ações de empresas nos Estados Unidos. Até mesmo o presidente Trump, por meio de uma ordem executiva, propôs a criação de um fundo soberano estadunidense.

Para começar, os bilhões, senão trilhões, de dólares gerados por esse fundo proporcionariam renda direta ao povo estadunidense. E à medida que o fundo gerasse mais e mais riqueza, essa renda seria usada para garantir que todos os homens, mulheres e crianças em nosso país tivessem um padrão de vida decente e digno, incluindo saúde, educação e moradia.

É evidente que reconheço que, para o governo ter uma participação significativa em uma empresa, especialmente uma para a qual a IA representa apenas uma parte de seus negócios, é algo complexo. Mais detalhes, incluindo prioridades específicas de gastos e o mecanismo de implementação, serão incluídos na legislação que anunciarei nas próximas semanas.

Mas o princípio é simples: quando um recurso público gera riqueza, o público deve compartilhar dessa riqueza. A IA está sendo construída sobre um recurso público muito mais valioso do que o petróleo: o conhecimento, a criatividade e o trabalho acumulados pela humanidade.

O futuro da IA e o destino da humanidade não devem ser decididos a portas fechadas no Vale do Silício. Não devem ser ditados por bilionários que buscam maximizar seu poder e lucros. Devem ser decididos por trabalhadores, pais, professores, artistas, cientistas, comunidades e pelo povo estadunidense. É o nosso futuro. Cabe a nós decidi-lo.

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