Em seu novo livro, o professor de economia digital do King's College London argumenta que a batalha pelo futuro da IA está sendo travada entre as estratégias de domínio das grandes empresas de tecnologia, as tensões geopolíticas entre os EUA e a China, o colapso do antigo consenso "liberal" do Vale do Silício e a emergência de um tecnonacionalismo que funde o setor privado com o poder militar.
Nick Srnicek, professor de economia digital no King's College London, é autor, entre outros livros, de Platform Capitalism (2016), que na época mapeou o ecossistema das plataformas digitais e seus modelos de negócios, e After Work (2024, com Helen Hester), uma história do lar, da tecnologia e do tempo livre que antecipou muitas das questões sobre o pós-trabalho e a automação que a inteligência artificial tornou urgentes.
Seu novo livro, Silicon Empires: The Fight for the Future of AI (Polity, 2025) [Impérios do Silício: a luta pelo futuro da IA, em tradução livre], amplia o foco para mapear o que o próprio Srnicek descreve como o terreno onde a luta pelo futuro da inteligência artificial deve ocorrer, uma área onde as estratégias de captura das grandes empresas de tecnologia, as tensões geopolíticas entre os EUA e a China, o colapso do antigo consenso “liberal” do Vale do Silício e o surgimento de um tecnonacionalismo que funde o setor privado com o poder militar convergem — e colidem cada vez mais.
A entrevista é de Carlos C. Pérez, publicada por El Diario, 03-05-2026.
Vamos começar pelo básico: como devemos conceber e definir a IA?
A definição de Inteligência Artificial (IA) tem sido debatida há muitas décadas. As origens do termo remontam à década de 1950, mas 2012 marcou um ponto de virada com o ressurgimento do chamado "aprendizado profundo" (deep learning), que se refere ao uso de redes neurais que não recebem instruções pré-programadas, como ocorre na programação de softwares convencionais, mas são treinadas por meio da interação repetida com dados, corrigindo os erros cometidos durante o próprio processo. Esse processo se repete indefinidamente até que essas redes neurais aprendam a receber uma entrada específica e produzir uma saída específica.
Hoje, porém, quando falamos de IA, quase sempre nos referimos à IA generativa, que também é o tema central do meu livro. A maior parte da IA generativa se baseia na chamada arquitetura Transformer, uma forma de estruturar essas redes neurais que é muito útil para o processamento de linguagem, como tradução ou transcrição. Curiosamente, essa abordagem, originada da pesquisa linguística, provou ser extraordinariamente versátil: hoje ela é usada não apenas para produzir linguagem, mas também para tarefas tão diversas quanto o sequenciamento de DNA.
Será a IA realmente uma força disruptiva ou revolucionária? Parece haver duas posições opostas sobre isso: aqueles que acreditam que estamos a cinco segundos de alcançar a singularidade e aqueles que consideram tudo uma enorme hipérbole. Qual é a sua posição? E, acima de tudo, qual deveria ser a abordagem crítica? Parece que a esquerda carece de uma bússola política, estratégica e até mesmo moral clara sobre essa questão.
A esquerda tem se mantido um tanto à margem desses debates. Por um lado, temos a crítica típica de que essa tecnologia não tem utilidade prática. Há alguma verdade nisso, mas o desenvolvimento da IA vai muito além do que o ChatGPT faz em nosso dia a dia. É por isso que acho problemático para a esquerda continuar criticando uma certa forma de entender a IA que já tem três ou quatro anos, especialmente quando a maioria das pessoas, ao usar essa tecnologia, entende que ela não é trivial. O resultado desse tipo de mensagem inevitavelmente leva à perda da atenção de grande parte do público. A esquerda precisa levar essa tecnologia muito mais a sério.
Por outro lado, há aqueles que acreditam estarmos à beira da singularidade. Essa posição também é compreensível, dado o rápido progresso dos últimos anos. Teoricamente, também acredito que algo assim seja possível: se o cérebro pode ser medido e calculado, o mesmo pode acontecer com a mente e, portanto, deveríamos ser capazes, pelo menos em teoria, de replicá-la em silício ou algum outro substrato similar. No entanto, duvido muito que estejamos prestes a alcançar esse patamar.
Onde a esquerda tem mais a contribuir é na reflexão sobre o pós-capitalismo, a pós-escassez e o pós-trabalho — sobre o que significa ter mais tempo livre ou estar desempregado. É um problema; acredito que atualmente não há comunicação real entre aqueles que estão pensando em como moldar um mundo pós-IA e aqueles que estão pensando em moldar uma sociedade pós-capitalista.
Bem, o debate em torno do futuro do trabalho e da automação tem sido mais proeminente em perspectivas de esquerda. Nesse sentido, que efeito você acha que o desenvolvimento da IA poderá ter sobre o emprego e as lutas trabalhistas?
Na maior parte dos casos, o impacto seria negativo. O que eu quero é um mundo sem trabalho, ou pelo menos um mundo em que o trabalho necessário seja minimizado, um mundo em que possamos escolher livremente quais atividades realizar. Mas alcançar esse horizonte é a parte difícil, especialmente fazê-lo de uma forma que não erode o poder da classe trabalhadora. O desafio, então, é alcançar esse mundo pós-trabalho sem que isso resulte em uma enorme concentração de riqueza e poder nas mãos de poucos.
A inteligência artificial, tal como é concebida e desenvolvida atualmente, não parece estar caminhando nessa direção. Sua implementação envolverá a automação da vida e do trabalho, sem qualquer sistema de compensação para auxiliar os afetados por essas mudanças, o que poderá levar ao desemprego estrutural e ao aumento do controle e da vigilância social. Em suma, representa o advento de um mundo em que a maioria dos seres humanos é secundária em relação às máquinas que servem aos interesses de um punhado de indivíduos extremamente poderosos.
Este é o tipo de coisa que a esquerda precisa levar muito mais a sério. A questão fundamental que devemos nos fazer, portanto, é como manter o poder diante dessas transformações.
Silicon Empires: The Fight for the Future of AI, livro de Nick Srnicek. (Polity, 2025)
O livro aborda as transformações do Vale do Silício e as mutações da nova direita tecnológica. As mudanças parecem substanciais: em 2016, Peter Thiel era provavelmente o único magnata que apoiava publicamente Trump. Hoje, a oligarquia tecnológica como um todo parece apoiar o projeto de Trump de uma forma ou de outra. Além disso, essas empresas haviam imposto restrições a si mesmas em relação a trabalhar com o Pentágono ou para fins militares, limitações que agora decidiram abandonar.
A elite tecnológica do Vale do Silício e a elite política dos EUA compartilhavam anteriormente um consenso sobre o papel da tecnologia digital e como ela facilitava o poder americano: a expansão global das empresas de tecnologia americanas, dentro de uma estrutura neoliberal, também beneficiava o Estado. Esse paradigma atingiu seu ápice durante o governo Obama, embora já estivesse emergindo sob Clinton e, em menor grau, sob George W. Bush. Essa aliança agora começa a se desfazer.
No entanto, no livro, tento evitar a visão reducionista de que existia um consenso no Vale do Silício sob Obama, que foi então destruído por Trump, no que chamo de tecnonacionalismo. Não é tão simples assim. Na realidade, já existiam diversas correntes subterrâneas, algumas com décadas de existência, que vinham corroendo lentamente essa relação. As rupturas mais significativas ocorreram durante o primeiro mandato de Trump, sim, mas já estavam presentes em governos anteriores.
Isso inclui, por exemplo, a mudança no papel do Estado na inovação. Anteriormente, o poder estatal era o fator determinante na inovação militar; as principais empresas contratadas pela defesa dependiam dele e seguiam suas diretrizes. Mas, nas décadas de 1990, 2000 e 2010, o centro da inovação deslocou-se amplamente para o setor privado. O controle estatal sobre o setor de tecnologia começou a se deteriorar, e o Estado tornou-se cada vez mais dependente de novas tecnologias, a ponto de hoje presenciarmos o surgimento de startups (Palantir, Anduril e Shield) que buscam superar as grandes empresas contratadas pela defesa e impor uma nova lógica de startups aos contratos de defesa.
Por sua vez, a relação entre os Estados Unidos e a China, e entre suas elites capitalistas, mudou. Um dos principais argumentos do livro é que essa mudança ocorreu durante a década de 2010. Durante boa parte dos anos 2000, o objetivo dos capitalistas americanos era integrar a economia chinesa à economia neoliberal global. Os benefícios eram óbvios para eles: mão de obra barata, uma enorme base de usuários e uma grande base de consumidores.
Contudo, ao longo da década de 2000, começaram a perceber que isso não estava funcionando como esperavam e que os capitalistas chineses estavam se tornando cada vez mais competitivos em diversos setores. Não se tratava mais da China operar em setores de menor valor agregado, mas sim de competir cada vez mais diretamente com empresas americanas. O que antes era um consenso sobre a abertura à China transformou-se, ao longo da década de 2010, em maiores restrições às empresas chinesas e em um aumento do poder dos defensores de uma linha dura contra a China.
Por fim, uma divisão surgiu durante o primeiro governo Trump, acelerou-se sob Biden e persistiu de diversas formas durante o segundo governo Trump. Dentro da elite tecnológica, pelo menos dois grupos emergiram. Um deles é o das grandes empresas de tecnologia globais e neoliberais, que ainda desejam um mundo neoliberal: elas cresceram e prosperaram dentro dele e não querem tarifas, controles de exportação, guerras comerciais ou tensões geopolíticas.
Em contrapartida, um novo movimento tecnonacionalista, impulsionado por empresas de tecnologia de defesa e cada vez mais apoiado por capital de risco, enxerga a tecnologia de defesa como um vasto novo mercado. Seu principal interesse não é manter o neoliberalismo, mas sim garantir as cadeias de suprimentos, reindustrializar os Estados Unidos e capitalizar sobre as tensões geopolíticas.
Essas duas facções estão em franca tensão. Washington está se alinhando cada vez mais com o grupo tecnonacionalista, e há um desconforto explícito entre as empresas mais neoliberais: Nvidia, Oracle e Google se manifestaram em diversas ocasiões, declarando as ações do governo uma catástrofe. É um momento de não hegemonia: não existe um "consenso do Vale do Silício". O mundo neoliberal não era exatamente ótimo, mas o mundo tecnonacionalista fascista pode ser ainda pior.
O livro menciona que os Estados Unidos e a China têm estratégias diferentes em relação ao desenvolvimento da IA: os Estados Unidos têm uma "estratégia de inovação", enquanto a China tem uma "estratégia de difusão". O que essas estratégias implicam e quais são as suas diferenças?
A ideia de que existe uma corrida na área de IA entre a China e os Estados Unidos é um absurdo. Eles não estão competindo; têm objetivos diferentes.
Os Estados Unidos estão comprometidos com uma estratégia de inovação: dedicam-se integralmente ao desenvolvimento constante de novas capacidades e possibilidades. Isso se reflete no volume de investimento privado — a OpenAI possui compromissos de gastos na ordem de US$ 1,5 trilhão —, em uma agenda de desregulamentação em nível nacional — no setor energético, por exemplo, esforços significativos estão sendo feitos para garantir que o fornecimento de energia possa crescer rapidamente, independentemente dos custos ambientais — e na tentativa de impedir que os 50 estados aprovem qualquer legislação sobre IA que possa prejudicar a inovação. Há também uma política industrial emergente, porém muito orientada para o mercado: em muitos casos, ela envolve o apoio a empresas ou a concessão de empréstimos sem impor muitas condições.
A China, por outro lado, concentra-se muito mais na difusão: a ideia é implementar a IA em todos os níveis da sua economia e em toda a sociedade. Se voltarmos ao seu documento estratégico de 2017 sobre IA — o Plano de Desenvolvimento de IA da Próxima Geração —, já se focava em como alavancar essa tecnologia, colocá-la nas mãos de pequenas empresas, introduzi-la em diferentes setores, empresas estatais e compras públicas.
Na sua opinião, qual país terá sucesso em seus próprios termos?
É difícil dizer. Se eu tivesse que arriscar um palpite, diria que a estratégia da China provavelmente é a melhor. Existe um livro fantástico que influenciou muito meu pensamento: Tecnologia e a Ascensão das Grandes Potências. Nele, Jeffrey Ding argumenta que, quando o equilíbrio de poder mudou no passado devido a tecnologias de uso geral como a IA, foi porque essas tecnologias permearam toda a economia de um país.
Não foram os inovadores que lideraram a mudança, mas sim os disseminadores. E acredito que algo semelhante acontecerá com a IA: se ela puder ser implementada em toda a economia, poderá aumentar a produtividade geral, o que impulsiona a economia nacional, o poderio militar e a posição internacional. A abordagem baseada na inovação, por outro lado, é muito mais concentrada em um único setor.
Agora, a narrativa que os Estados Unidos apresentarão é a de uma corrida rumo à inteligência artificial geral, e a crença é de que, se algo semelhante à IAG (Inteligência Artificial Geral) for alcançado, as vantagens de ser o primeiro serão enormes. Essa era uma crença dominante no governo Biden. Havia uma sensação real de que a IAG era iminente e que, por exemplo, os controles de exportação de semicondutores forçariam a China a desenvolver sua própria indústria nacional, mas a lógica era de que isso levaria uma década, enquanto a IAG chegaria em três a cinco anos. Os cronogramas operavam em escalas diferentes.
Sam Altman, CEO da OpenAI, afirmou em diversas ocasiões que essas transformações exigirão uma reconfiguração significativa do contrato social. O que ele quer dizer com isso?
Esse tipo de análise geralmente gira em torno de alguma forma de renda básica universal. A lógica é quase sempre a mesma: esse pequeno grupo de empresas que lidera o desenvolvimento da IA acumulará imensa riqueza para si e, então, terá a benevolência de compartilhá-la com todos.
O problema, claro, é que depender da benevolência de ditadores ricos não é uma boa estratégia, nem para a sociedade como um todo, nem para a esquerda. O que devemos tentar fazer é discernir como configurar a IA de forma a impedir essa concentração de riqueza nas mãos de poucos e garantir que o valor que ela gera seja amplamente compartilhado.
Seu livro utiliza a noção de “império” como conceito político e ferramenta analítica. Karen Hao publicou recentemente O Império da IA, uma crônica da ascensão da OpenAI e do ChatGPT. Você e ela trabalham com ideias diferentes de império, mas eu gostaria de lhe perguntar sobre a utilidade de invocar um conceito tão carregado politicamente e por que você o considera particularmente interessante no caso da IA.
Tem a ver com a dinâmica que impulsiona essas empresas e com a que sustenta as estruturas estatais que as apoiam. Adoro o livro de Hao em muitos aspectos, mas o Estado está visivelmente ausente de grande parte de sua narrativa, e não creio que a história da IA hoje possa ser contada focando apenas nas empresas.
Existe um amplo aspecto imperialista no processo de captura de recursos em todo o mundo. A desintegração do neoliberalismo desloca a ênfase do livre comércio e dos mercados para a força bruta e o poder de barganha, visando obter o que os Estados Unidos e suas empresas de IA desejam. Além disso, os recursos alocados a centros de dados e a energia necessária são características clássicas do imperialismo.
O outro lado da moeda é que, uma vez criada a IA, ela precisa ser expandida para o resto do mundo. Não se trata apenas de capturar recursos, mas de coagir outros a impor uma determinada infraestrutura tecnológica. Os Estados Unidos, em sua retórica, políticas e práticas, têm usado seu controle sobre tecnologias de ponta para obter o que desejam de outros países. O acordo com os Emirados Árabes Unidos é um bom exemplo: os Emirados receberam meio milhão de chips da Nvidia em troca da remoção da infraestrutura tecnológica chinesa de seus data centers e serviços governamentais. Ela foi substituída por uma infraestrutura tecnológica americana. Essa é uma manobra imperialista para expandir essa infraestrutura.
Qual é a situação e o papel da Europa? Muitos — não apenas em setores progressistas, mas de forma bastante transversal — têm falado de uma terceira via entre os modelos chinês e americano.
Gosto da ideia de ter uma terceira opção que não seja apenas a China ou os Estados Unidos. A UE claramente quer ser essa terceira opção, mas acho que às vezes se esquece do "porquê". De muitas maneiras, eles querem seguir o modelo americano, e se simplesmente replicarem o sistema americano, seus valores, sua abordagem à IA, o que há de diferente a oferecer? Por que alguém iria querer seguir esse caminho? Em termos de valores: vamos explorar massivamente o meio ambiente para alcançar a IA Global a qualquer custo? Vamos coagir outros países por recursos? Além disso, acho que seguir o modelo americano é extremamente caro e inútil em muitos aspectos. Investir em programas de treinamento multimilionários para um modelo que, na melhor das hipóteses, estará no topo do ranking por cerca de três meses e depois será ultrapassado por outro...
A alternativa deve ser algo muito diferente: não criar um projeto soberano de IA digital para um único país ou região, mas sim um bem comum em que todos possam participar, um sistema interoperável baseado na portabilidade de dados, bem distante da concentração de recursos, tráfego, poder e lucros nas mãos de algumas poucas empresas. Acredito que a Europa poderia contribuir para a construção de algo semelhante a um patrimônio compartilhado de IA, aberto a todos — não apenas aos países europeus, mas a qualquer país do mundo que queira adotar esses projetos de código aberto e desenvolvê-los.