02 Junho 2026
O governo de Rodrigo Paz chegou ao poder pelo voto e imediatamente traiu o povo. Medidas de austeridade, alinhamento com Trump e o desmantelamento do Estado plurinacional desencadearam uma revolta em massa que ameaça sua capacidade de governar.
O artigo é de Vladimir Mendoza Manjón, publicado por Jacobin, 01-06-2026. A tradução é de Pedro Silva.
Vladimir Mendoza Manjón é docente na Universidad Mayor de San Simón.
Eis o artigo.
Rodrigo Paz assumiu o Poder Executivo no final de 2025, após vencer o segundo turno com 54% dos votos contra Tuto Quiroga, o candidato das elites econômicas e da grande mídia. Essa façanha eleitoral foi possível porque Paz e seu candidato a vice-presidente receberam o apoio de setores populares que antes se concentravam “em bloco” no outrora poderoso Movimento ao Socialismo (MAS).
Paz vem de uma tradição em que a acumulação de poder é o único propósito da política, então seu instinto o impeliu a adotar posições de centro. Ele elaborou cuidadosamente cada slogan de campanha para se diferenciar das narrativas da extrema-direita e se esforçou para se conectar com o senso comum da classe trabalhadora. Ele aproveitou essa oportunidade excepcional para chegar ao Palácio Presidencial e se tornou uma alternativa para as massas trabalhadoras e camponesas para bloquear o caminho da extrema-direita.
Rodrigo Paz e a agenda de Trump
A intervenção militar e o sequestro do presidente da Venezuela, as agressões contínuas contra Cuba, as intervenções flagrantes no processo eleitoral de Honduras e os resgates financeiros ao governo subserviente da Argentina posicionam o governo dos EUA como um fator determinante na atual conjuntura latino-americana.
A intervenção da Casa Branca na política boliviana tornou-se pública desde meados de 2025, quando foram organizadas amplas reuniões entre instituições financeiras internacionais, empresários do setor privado, operadores políticos de extrema-direita e todos os candidatos de centro-direita, incluindo Rodrigo Paz, para chegar a um acordo sobre uma nova agenda de governo.
Logo que assumiu o cargo, Paz formou um gabinete com quadros neoliberais dos partidos tradicionais, destituiu seu vice-presidente (suspeito de ter certa sensibilidade em relação aos setores populares) com regulamentações inconstitucionais, distanciou-se dos presidentes progressistas da região e juntou-se, ao lado de Milei e Bukele, ao grupo de governos dispostos a viabilizar a Estratégia de Segurança Nacional de Donald Trump no continente.
Em dezembro, o governo iniciou seu mandato com um Decreto Supremo que, além de instaurar um “gasolinazo” — um aumento de 100% nos preços dos combustíveis —, promoveu reformas tributárias regressivas e transferências “expressas” de recursos naturais para empresas transnacionais. Isso representou uma mudança completa na política econômica que, na prática, modificou disposições constitucionais.
A Central Obrera Boliviana (COB) respondeu imediatamente, lançando uma mobilização que durou até meados de janeiro de 2026, expondo com sucesso o caráter antinacional do decreto governamental. A incorporação das comunidades camponesas na luta, utilizando seu método de bloqueio de estradas, acabou por inclinar a balança a favor do movimento popular, forçando Rodrigo Paz a revogar seu decreto, com exceção do aumento do preço dos combustíveis.
Após essa derrota política, as táticas de Paz permaneceram inalteradas. Ele redobrou seus esforços para consolidar as forças disponíveis e garantir sua capacidade de governar. Aprofundou sua subserviência a Trump ao assinar um memorando para a transferência de lítio e minerais de terras raras e abrir caminho para as operações da Administração de Repressão às Drogas (DEA); iniciou um processo compulsivo de endividamento (em seis meses de seu governo, a dívida aumentou de 6 para 14 bilhões de dólares) para garantir a submissão do Estado às políticas econômicas de organizações supranacionais dependentes do imperialismo. Paz e toda a direita boliviana têm fé cega de que o alinhamento absoluto com os EUA lhes proporcionará a relativa governabilidade de que desfrutavam nas décadas de 1980 e 1990. Simultaneamente, o governo busca alcançar uma maioria parlamentar estabelecendo uma coalizão de fato com outros partidos de direita, sem ainda ter conseguido aprovar quaisquer reformas significativas. Eles conseguiram dar mais um sinal de boa vontade para com os interesses dos grupos empresariais, aprovando a Lei 1720, um mecanismo legal para promover a desapropriação de pequenas propriedades agrícolas de famílias camponesas e a maior acumulação em favor dos latifundiários.
Esses eventos explicam em grande parte a revolta popular que atualmente assola o país. O Estado Plurinacional da Bolívia, estabelecido em 2009, representa principalmente um Estado que apropria-se do excedente produzido e distribui a riqueza social; também implica a participação dos povos indígenas por meio de sua própria representação nas instituições. Ambas as conquistas, obtidas por meio de grandes lutas que marcaram pontos de virada na história do país, estão agora ameaçadas de serem apagadas pelo governo Paz.
Crise de Estado
A Bolívia era conhecida há muito tempo por sua instabilidade política crônica. Seu aparato estatal, longe de desempenhar um papel na união da sociedade como um todo, funcionava como instrumento de uma das facções envolvidas em conflitos perpétuos. Em sua história de levantes populares e golpes militares, apenas o período de 2005 a 2019 pode ser considerado uma relativa exceção. É claro que houve conflitos, gerados não por movimentos de massa, mas pelas classes com poder econômico e midiático — ou seja, as minorias sociais. Indicadores de estabilidade política surgiram com o estabelecimento de um novo regime, o Estado Plurinacional, baseado em dois pilares fundamentais: a participação direta do movimento indígena-camponês no poder político e a expansão dos direitos sociais graças às receitas do gás.
As eleições de 2025 resultaram na vitória de um governo cujo programa visa desmantelar os dois pilares do Estado. A participação indígena tem sido proibida e ridicularizada de diversas maneiras, inclusive nas recentes eleições subnacionais, nas quais o candidato do partido governista foi declarado “vencedor” na disputa pelo governo de La Paz sem segundo turno. Simultaneamente, a agenda do governo de Rodrigo Paz mina aspectos sensíveis da legitimidade do Estado: corta projetos de desenvolvimento rural e deteriora rapidamente a qualidade de vida da grande maioria da população. Em suma, as políticas do governo representam uma contrarreforma oligárquica e antipopular do Estado.
Por sua vez, o levante popular em curso busca deter a agenda neoliberal do trumpismo boliviano, daí sua forma de greve política em massa. Rosa Luxemburgo usou esse termo para descrever explosões sociais que combinam demandas econômicas e políticas. O slogan “Fora Rodrigo Paz”, entoado em bloqueios camponeses e manifestações operárias, propõe uma solução política para a crise por meio da convocação de novas eleições nacionais e está ligado a uma forte rejeição ao programa de isenções fiscais e privatizações do governo atual.
A exigência da renúncia do presidente e a rejeição do programa econômico de direita são os dois pilares do movimento social. Há, contudo, uma clara desconexão entre eles. Afinal, a aversão das massas à agenda neoliberal ainda não se traduziu em um programa alternativo enraizado em suas organizações. Somente uma combinação de ambos os fatores — representação política emanada das massas com uma agenda econômica de reformas progressistas — poderia constituir uma alternativa política viável que, caso sucedesse a direita no governo, teria uma governabilidade plausível.
Perspectivas de revolta popular
As mobilizações populares começaram no final de abril e, na última semana de maio, demonstram grande vigor. Suas linhas de frente são os bloqueios de estradas, combinados com incursões maciças de pessoas que inundam a cidade de La Paz e frustram qualquer tentativa de repressão por parte da polícia e das forças armadas. Nos últimos dias, a luta se espalhou para além de La Paz, atingindo áreas rurais de outros departamentos, como Potosí, Cochabamba, Chuquisaca e Santa Cruz. Atualmente, existem sessenta bloqueios de estradas, a maioria deles localizada nos Andes ocidentais do país.
Ainda assim, a luta não ganhou força suficiente para derrubar o governo de Paz e forçar sua renúncia. Sua fragilidade fundamental reside nas cidades. Apenas El Alto, a capital aimará, contribuiu com contingentes significativos de bairros operários e populares para reforçar a pressão; sindicatos e organizações comunitárias em outras grandes cidades, como Cochabamba e Santa Cruz, ainda não aderiram ao movimento. A direita reacionária está explorando essa fragilidade para organizar pequenos protestos contra os bloqueios de estradas, exigindo a repressão sangrenta dos manifestantes pelo governo, e sua voz é amplificada por seu aparato midiático. Preso entre a pressão da extrema direita e a luta popular, o governo de Rodrigo Paz optou, em grande parte, por esperar que os bloqueios se dissipem, confiando que os objetivos maximalistas da mobilização social só poderão ser alcançados se a revolta se transformar em um furacão que varra tudo. Caso contrário, acredita o governo, os combatentes serão forçados a recuar e enfrentarão uma possível desmoralização.
O governo se apega a uma possibilidade realista: em contextos tão tensos quanto o da Bolívia, convulsões abruptas e imprevisíveis podem ocorrer, desencadeadas por situações contingentes. Esse, porém, não é o seu maior problema. Não há melhor exemplo da ruína do pragmatismo político do que o atual governo boliviano. Todo o seu modus operandi, da campanha eleitoral até o presente, colocou o governo de Rodrigo Paz em um campo minado. Ele é incapaz de chegar a acordos que apaziguem a mobilização social, pois isso o forçaria a assumir compromissos estratégicos (como não emendar a Constituição e abster-se de privatizar empresas e recursos, por exemplo). A natureza política do presidente o levaria a assinar tais compromissos apenas para desrespeitá-los no dia seguinte, como vem fazendo: ele continuaria consumindo a pouca credibilidade que lhe resta em tempo recorde e correndo o risco de enfrentar novamente a fúria das barricadas. O governo se colocou em uma situação em que cumprir suas obrigações para com aqueles que o levaram ao poder significa decepcionar a oligarquia e Trump, e vice-versa.
O desafio para o movimento popular reside em superar o desenvolvimento desigual de sua subjetividade política. Nele coexistem posições muito diversas: dos radicais, que se recusam a fazer concessões até a renúncia do presidente; aos que aceitariam compromissos intermediários; setores que, rejeitando a mobilização “política”, aceitam uma que levante demandas “econômicas”; e, finalmente, um amplo segmento que, apesar do descontentamento com o governo e a situação do país, atualmente não tem intenção de se juntar à luta. Esse desenvolvimento desigual ocorre em meio a contradições e tensões internas nas organizações de base. Superar essas tensões para construir uma perspectiva política nacional é uma tarefa incontornável (como ocorreu durante o ciclo de lutas de 2000 a 2005, quando se forjou a chamada “Agenda de Outubro”, cujos princípios centrais eram a nacionalização do gás e a convocação de uma Assembleia Constituinte). Nessa tarefa, o papel da esquerda e dos ativistas sociais é crucial.
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