01 Junho 2026
A citação do Papa em "O Senhor dos Anéis", a obsessão de Thiel pela saga: o escritor inglês está mais relevante do que nunca. Ele também aborda o tema da inteligência artificial.
O artigo é de Alessandro Aresu, assessor político e pensador estratégico italiano. Atualmente, é chefe da equipe de políticas públicas do Ministério da Universidade e da Pesquisa, publicado por La Repubblica, 01-06-2026
Eis o artigo.
Entre as citações da Magnifica Humanitas, como foi escrito nos últimos dias, está também Gandalf. O Papa Leão XVI cita uma longa passagem de O Senhor dos Anéis, proferida pelo famoso personagem da Terra-média: "Não nos cabe dominar todas as marés do mundo; nossa tarefa é fazer o que pudermos pela salvação dos anos em que vivemos, erradicando o mal dos campos que conhecemos, a fim de deixar uma terra saudável e limpa para aqueles que vierem depois cultivar."
O Papa identifica explicitamente Tolkien como um "escritor católico". Com isso, ele reconhece um fato inequívoco. O próprio Tolkien descreveu O Senhor dos Anéis como uma "obra religiosa e católica" a seu amigo e revisor, o jesuíta Robert Murray, em uma carta de 1953. Ao colocar Tolkien entre filósofos e teólogos como Platão, Santo Agostinho e Romano Guardini, o Pontífice também pretende reiterar a importância da visão do escritor, em continuidade com o Papa Francisco, que frequentemente recorda a peregrinação à Terra-média.
A citação pode ser entendida como uma resposta, ainda que não tão indireta, ao empresário e ideólogo que, mais do que qualquer outro, quis conectar Tolkien, inteligência artificial e a mensagem cristã. Trata-se de Peter Thiel, que esteve em Roma há algumas semanas para as controversas palestras sobre o Anticristo.
A passagem escolhida pelo Papa surge num momento crucial de O Senhor dos Anéis. Trata-se do capítulo de O Retorno do Rei em que se decide marchar contra os portões de Mordor para atrair a atenção de Sauron e lutar contra as suas tropas, evitando assim que ele veja Sam e Frodo, que pretendem destruir o Anel. A grande batalha é uma distração da tarefa mais importante, confiada aos hobbits.
Gandalf expressa dois conceitos: por um lado, até mesmo Sauron, o Senhor do Escuro, é um mal relativo e não absoluto. Outros podem surgir, "pois o próprio Sauron não passa de um servo e um emissário". Além disso, ele reitera que o inimigo não pode ser derrotado com armas, mas apenas destruindo o Anel, a grande arma que corrói aqueles que a possuem. Gandalf diz: "Não podemos alcançar a vitória com armas, mas com armas podemos dar ao Portador do Anel sua única esperança, por mais frágil que seja". As armas são necessárias. Aragorn, herdeiro do trono humano, desembainha sua espada, Andúril, no final do capítulo, que "não será embainhada até a última batalha". Aragorn também olhou para a pedra vidente, o Palantír, para atrair o olhar de Sauron.
O ecossistema tecnológico e político que gira em torno de Peter Thiel é uma homenagem constante aos objetos das epopeias de Tolkien, incluindo os próprios nomes das empresas, Palantir e Anduril. Em O Senhor dos Anéis, a pedra vidente, o Palantir, permite encurtar distâncias ao vislumbrar o espaço e o tempo, mas é amaldiçoada. Quem a contempla é sempre descoberto pelo Olho de Sauron. Isso fica evidente na tragédia de Denethor: através do Palantir, ele acredita poder prever o futuro e controlá-lo, mas lhe falta a estatura moral para sobreviver à sua visão. Dominado pela maldição da pedra vidente, ele se incendeia.
O destino de Aragorn é diferente. Na epopeia de Tolkien, ele é um rei peregrino. Ele pode ser rei justamente por ter sido um peregrino e um andarilho. Ele se tornou forte porque antes era impotente. Graças à sua peregrinação, ele pode contemplar o Palantír: Sauron o vê, e ele quer ser visto por Sauron, com um único objetivo: distraí-lo. Aragorn não é um profeta desarmado. Ele quer lutar, mesmo sabendo que sua batalha sozinha não lhe trará a vitória, sem o sacrifício dos hobbits.
Na interpretação de Thiel, as empresas de tecnologia são a própria Sociedade do Anel do nosso mundo. A civilização ocidental precisa estar armada até os dentes para combater o Olho de Sauron, que para Thiel é o Partido Comunista Chinês, que entrelaça tecnologia com vigilância. Para que a dissuasão exista, a fábrica de armas do mundo precisa ser abastecida: o arsenal da democracia americana. Assim como Aragorn, Peter Thiel, Alex Karp e outros empreendedores de tecnologia acreditam que podem espiar o Palantir e sobreviver. Essa visão armada se baseia na ideia de inteligência artificial como uma tecnologia necessariamente dual, para uso civil e militar (há muito defendida por Eric Schmidt). E contradiz o apelo ao desarmamento, presente em diversos trechos da encíclica. O Papa escreve sobre a necessidade de desarmar a inteligência artificial, "removendo-a da lógica da competição armada, que hoje não é mais apenas militar, mas também econômica e cognitiva". Ele deplora a nova corrida armamentista. Ele propõe desarmar as palavras, para abrir espaço para "uma paz desarmada e uma paz que desarma".
Na tese de Thiel, contudo, a visão armada da tecnologia é explicitamente afirmada. Uma vez desmascarada a hipocrisia em torno do complexo militar-industrial, o Estado profundo emerge à superfície: somente a força pode combater seus inimigos, mesmo a ponto de uma batalha apocalíptica. A visão da Igreja é radicalmente diferente: baseia-se em um senso de limites e em "canteiros de obras da história" nos quais até mesmo aqueles que não detêm o poder, como os hobbits, podem desempenhar um papel decisivo.
O Senhor dos Anéis jamais deve ser subestimado: o duelo intelectual em torno de sua interpretação ilustra o desafio ético e político da inteligência artificial.
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